Negro Drama – Ao redor da cor duvidosa de Mário de Andrade – Prefácio da professora Maria Nazareth Soares Fonseca

Ao redor da cor duvidosa de Mário de Andrade - À guisa de apresentação

Maria Nazareth Soares Fonseca

No livro O espetáculo das raças (1993)1, Lilia Moritz Schwarcz considera que, nos finais do século XIX, em período em que as consequências da independência do país, em 1822, e mesmo das lutas pela libertação dos escravos, o Brasil era descrito, nos relatos de viajantes europeus que aqui estiveram, como um país negativamente misturado em termos de raças. Ao se referir às várias representações do paia, nas quais a mestiçagem era ressaltada, Schwarcz reitera que, apesar de vários intelectuais brasileiros referirem-se ao “espetáculo brasileiro da miscigenação”, nem sempre são vistas como positivas as misturas raciais que pintavam de cores diversas a face do Brasil. As variações de cor de pele que se exibiam particularmente nas maiores cidades brasileiras era apreendida pelo olhar dos viajantes estrangeiros e pela elite brasileira como sintoma de uma degenerescência, já que, de acordo com as teorias racialistas que aportavam no Brasil, a diversidade fenotípica certamente causaria as mazelas decorrentes da mistura de raças inferiores2. As características climáticas e sociais da jovem nação eram vistas como sintoma de um processos de enfraquecimento biológico e mental, ideia defendida, entre outros, por Arthur de Gobineau, que esteve no Brasil nos anos 1890-1870. Suas ideias, que se espalharam pela mentalidade da época, condenavam a mestiçagem, entendendo-a como causa de atraso e de ameaça aos destinos da nação (Schwarcz, 1993). Tais ideias irão determinar, no Brasil, a importação de brancos europeus para suprir a de mão de obra negra, após a libertação dos escravos. A brancura da mão de obra europeia funcionaria como antídoto contra os males provocados pela miscigenação, razão por que enrijece-se, no país, a rejeição às misturas raciais, quando essas incluíssem negros e mulatos. Esse processo, de certa forma, irá legitimar “um sistema residual de valores com “viés branco”, bem como contribuir para a sintomática desvalorização dos “elementos africanos, sejam eles culturais ou físicos, como acentua Kobena Mercer (2018, p. 66)3.

Em cenário brasileiro fortemente demarcado pelas ideias racistas que conviviam, em conflito, com as imagens de um Brasil mestiço, surge o movimento modernista a que pertenceu a figura magistral de Mário de Andrade, discutida no ensaio de Oswaldo de Camargo. No seu ensaio, Camargo propõe avaliar, nos escritos literários e críticos do escritor paulistano, as expressões reveladoras do modo como Mário de Andrade conviveu com os traços fisionômicos herdados de seus ancestrais negros4. O ensaísta considera importante verificar como o escritor Mário de Andrade, que se projeta no poema “Eu sou trezentos”, do livro Remate de males, publicado em 1930, sob pseudônimo de Mário Sobral, foi capaz de lidar com os mecanismos de rejeição a negros e mulatos, vigentes no Brasil, ainda que pertencesse à elite intelectual paulistana. Não por acaso, o escritor procurou estudar as diferentes facetas do preconceito racial no Brasil para entender melhor o próprio lugar que ocupava na sociedade a que pertencia.5

Com o intuito de situar o escritor paulistano em cenário de que fazem parte escritores como Francisco Otaviano (Rio de Janeiro, 1825- 1889), Machado de Assis (Rio de Janeiro, 1839 - 1908), Lima Barreto (Rio de Janeiro 1881 - 1922) e Cruz e Sousa (Florianópolis 1861 - 1898), Camargo discute os males do preconceito racial que fez com que vários escritores e artistas negros e mulatos brasileiros adotassem atitudes escorregadias diante de sua cor. A cor negra da pele, após a abolição da escravatura, continua a figurar, no imaginário do Brasil, como indicadora de inferioridade e isso fará com que os mulatos, como Mário de Andrade, sejam ora considerados positivamente, porque estão mais próximos da cor branca, ou negativamente, porque, apesar de não serem negros, não podem ser considerados brancos. Ser mulato como Machado de Assis e Mário de Andrade e vários outros escritores e artistas citados por Camargo em seu ensaio representa uma condição nem sempre fácil de conviver com as normas da elite brasileira. Como demonstra Camargo, na época de Mário de Andrade o racismo era discutido e combatido por intelectuais brancos, negros e mulatos, sem que, de forma prática, fosse desacreditado por uma nação que se diz mestiça. O racismo fortalece o processo de exclusão de negros e mulatos do projeto arquitetônico das grandes cidades e explica sua “inclusão parcial numa ordem projetada por grupos hegemônicos” (PEREIRA, 2001, p. 32)6.

Ao participar de um jogo cujos lances explicitam as condições para estar dentro e fora do cenário demarcado pela elite intelectual do Brasil, Mário de Andrade se faz “trezentos” ou simplesmente responde “vou passando muito bem, obrigado” aos que lhe perguntam sobre sua cor. Sem aceitar de forma tranquila a mestiçagem que se expõe em seu rosto, em seu cabelo e aguça a sua curiosidade pelas coisas brasileiras, o escritor cria Macunaíma, o “herói sem nenhum caráter”, com que ironiza os valores consagrados pela cultura brasileira, expressos numa política de branqueamento que, como se desejava, sanearia a nação degenerada constituída por misturas e mestiçagens. Os versos do poema “Grito imperioso de brancura em mim”, de Mário de Andrade, expõem os conflitos de uma sociedade que assume, a contra gosto, a mestiçagem como característica do Brasil tropical, embora continue praticando políticas de branqueamento.

Como fica demonstrado no ensaio de Camargo, Mário de Andrade, ao sentir-se impossibilitado de se ver “negro nem vermelho”, delega ao eu lírico o direito de se nomear “só branco, só branco”. Essa nomeação, no entanto, não se dá sem conflito no poema, porque é o mesmo eu lírico que reconhece ter a “alma crivada de raças”.

O ensaio de Oswaldo de Camargo é, por todos os pontos que ressalta, caminho bem construído para os que procuram acompanhar, de perto, o modo como o escritor, ensaísta, musicólogo e ativista cultural Mário de Andrade lidou, em sua vida e em sua obra, com a questão racial brasileira que está presente em sua obra literária e crítica, sem panfletarismos contra ou a favor.

1 1 - SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças. Cientistas, instituições e questão racial no Brasil - 1870 - 1930, São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

2 - A percepção de negros e indígenas como raças inferiores sustentava o pensamento racista do século XIX, sendo assumida também por intelectuais e ideólogos brasileiros. Destaque-se a opinião do conde Arthur de Gobineau, que residiu no Brasil entre 1869 e 1870, em missão da diplomacia francesa. Crítico ferrenho da mestiçagem, que, segundo ele, tornava os brasileiros feios e preguiçosos.

3 Sobre os processos de desvalorização de traços do corpo negro em sociedades racistas, é importante consultar: MERCER, Kobena. Black hair/ Políticas de estilo. In: Histórias afro-atlânticas- Antologia. São Paulo: Instituto Tomie Ohtake/MASP. 2018, p. 63 - 81.

4 - De acordo com texto publicado no jornal Folha de São Paulo, em 25 de setembro de 1993, de autoria de José Geraldo Couto e Mario Cesar Carvalho, Mário de Andrade era extremamente vaidoso. Segundo o artigo, o escritor paulistano tinha o costume de “atenuar o tom amulatado da pele, herança das avós materna e paterna, ambas mulatas.”

Ver: http://almanaque.folha.uol.com.br/semana3.htm

Acesso em 28/08/2018.

5 - No ensaio, Oswaldo de Camargo refere-se ao modo como Mário de Andrade considerou o negro e a cultura produzida por matrizes africanas, no Brasil, citando a tese defendida por Angela Teodoro Grillo, em 2011. A tese foi publicada em livro, em 2016.

GRILLO, Ângela Teodoro. Sambas insonhados: o negro na perspectiva de Mário de Andrade, São Paulo: Ciclo Contínuo Editorial, 2016.

6 A citação foi extraída de:

PEREIRA, Edimilson de Almeida; GOMES, Núbia Pereira de Magalhães. Os ardis da imagem. Belo Horizonte: Editora PUC Minas/Mazza Edições, 2001).

LANÇAMENTO Lançamento do livro "Negro drama - Ao redor da cor duvidosa de Mário de Andrade" Data: 18 de dezembro de 2018 Horário: às 19h00 Local: Livraria Tapera Taperá Endereço: Av. Av. São Luis, 187, 2º andar, loja 29 - Galeria Metrópole, São Paulo – SP - 11 31513797

Link do evento: goo.gl/ua3o3T

____________________________________________________________________

Doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal de Minas Gerais, é professora do Programa de Pós-graduação em Letras da PUC- Minas e professora aposentada da UFMG. Organizou, entre outros, os livros Brasil afro-brasileiro (2000), Poéticas afro-brasileiras (2003), Ensaios de Leitura II (2008). É, juntamente com Eduardo de Assis Duarte, orga- nizadora do volume 4 da coletânea Literatura e afrodescendência no Brasil, antologia crítica.

Um ebó todo feito de palavras – Prefácio de Lívia Natália para o livro Nós – 20 poemas e uma Oferenda

Um ebó todo feito de palavras

Lívia Natália*

Jogando com o título do belo livro de estreia da poeta Neide Almeida, inicio esta leitura dizendo que, generosamente, a autora nos entrega mais do que prometeu. Recebemos, todas e todos, a oportunidade de testemunhar a autora arriando 21 oferendas aos pés da ancestralidade e, no mesmo gesto, as oferendas são promessas para o futuro. Estamos ante uma histórica cerimônia: os poemas se transmutaram em Ebós alimentando os 21 Eguns que acompanham Iansã, os poemas são um Ebó de pimenta da costa, que limpa a boca, afia a língua, lava a garganta e liberta o canto da poeta para nossos ouvidos.

Atenta e quieta, ouço, no poema Em mim, a lição de que é necessário ser aquela que “inventa passos para andar entre as pedras”. E eu, que sempre senti pedras mordendo-me os pés, finalmente compreendo que precisamos de outro corpo que, pela inventiva, repense os passos, já que as pedras são inescapáveis. Os nós, que também participam do título do livro Nós - 20 poemas e uma Oferenda, aparecem continuamente, trazendo, para os poemas, um sentido dúbio de coletividade e de firmeza, nos provocando a pensar sobre o que sustenta nossos passos, ideias e ideais, se fazemos mesmo parte deste “coro de insubmissões que rompem cercos de ocultamento”, como afirma a poeta em Meus Quilombos.

Somos todos corpos-quilombos, mais que corpos aquilombados, somos estes seres feitos de matéria e mistério. O ritmo melancólico dos tumbeiros ainda estão nos nossos corpos, ainda informam nossas almas, é desta travessia ancestral poetizada nos 21 textos deste livro que somos parte, e o somos graças ao que dessa travessia relata esta mulher negra-diaspórica. Neide Almeida nos dá a chance de encontrar, dentro de nós, este ritmo de navio dentro da água, este ritmo de corpos colocados dentro deste navio contra a sua vontade, mas, ante o inescapável da travessia, a poeta nos ensina a acolher e criar outras formas de ser, todas rebeladas: “Meu corpo é um campo ocupado por séculos de rebeldia, por cantos de liberdade”. É isto, somos todos insubmissos, como Neide demonstra no poema Abebé:

[...]

e singro os mesmos mares

que engoliram tantos de nós.

Mas deles ressurjo,

trajando sonhos, desejos

e forças ancestrais.

Mergulho na profundidade dos tons

de nossas peles

e sinto enegrecer ainda mais

o corpo-alma

o corpo-mente

meu canto

minha palavra.

Como já afirmei algumas vezes, sou das heranças, e Neide Almeida também é. E, quem assim se compreende, dá mais até do que recebeu. Então, o Mar que antes nos engoliu, hoje recebe nossos mergulhos, em lugar dos naufrágios de corpos, almas e subjetividades. Mergulhamos e trazemos tesouros que o Mar guardou para nós: sonhos, desejos e forças. Mais uma vez, mergulhamos, juntos com Neide, e de lá saímos banhados com um “corpo-alma", “corpo-mente” ainda mais negros, e Neide nos diz que, para ela, enxergamos esta negritude rediviva no seu canto e na sua palavra, e ela está certa.

Neste belo livro, tudo é oferenda, e, tal como a mulher do texto final, para todos nós estas memórias estavam cobertas de poeira, numa caixa esquecida em algum lugar da nossa casa-memória. Neide Almeida reencena, para nós, o resgate destas histórias depositando, amorosamente ante nossos olhos, este ebó todo feito de palavras, e de afeto.

Lançamento: 27 de setembro (quinta-feira), 19h. Local: Ação Educativa - Rua General Jardim 660 - Centro/ SP Link do evento:https://www.facebook.com/events/296782637575424/

________________________________

Lívia Natália é Doutora em Literatura e Professora Adjunta de Teoria da Literatura na Universidade Federal da Bahia, já publicou cinco livros de poesias: Água Negra (Prêmio Banco Capital de Poesia/2010), Correntezas e Outros Estudos Marinhos (ed. Ogum´s Toques Negros, 2015), Água Negra e Outras Águas (Caramurê, 2016), Sobejos do Mar (Caramurê, 2017), Dia bonito pra chover (Ed. Malê - Prêmio APCA/2017) e um livro infantil: As férias fantásticas de Lili (Ciclo Contínuo Editorial, 2018).

Deivison M. Faustino lançará o seu livro sobre Frantz Fanon na Unicamp | 06/09

No dia 06 de setembro Deivison Mendes Faustino lançará na Unicamp o seu livro Frantz Fanon - um revolucionário, particularmente negro.

SEGUE CONVITE E LINK DO EVENTO:

O GELCA convida para o evento na UNICAMP de lançamento do livro Frantz Fanon - Um Revolucionário Particularmente Negro, com a presença do autor Deivison Mendes Faustino e exibição do documentário "Sobre a Violência" (Concerning Violence) de Göran Olsson.

Deivison Mendes Faustino possui doutorado em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos. É Professor Adjunto da Universidade Federal de São Paulo – Campus Baixada Santista, onde também atua como pesquisador do Núcleo Reflexos de Palmares e do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros – NEAB da UNIFESP e integrante do instituto AMMA Psique e Negritude e do Grupo Kilombagem. 

14H: exibição do filme seguido de debate com o autor e os professores: Elena Brugioni (IEL), Alfredo Cesar Melo (IEL) e Mário Medeiros (IFCH). 

16H30: Coffee Break

17H: Lançamento do Livro

Link do evento: goo.gl/noNDni

Professor lança livro sobre o pensador revolucionário Frantz Fanon no Núcleo de Consciência Negra/USP

O professor Deivison Mendes Faustino lança o livro Frantz Fanon - um revolucionário, particularmente negro em evento promovido pelo Núcleo de Consciência Negra e Ciclo Contínuo Editorial, no dia 21 de agosto (terça-feira), às 19 horas, na sede da instituição, localizada na Av. Professor Mello Moraes, Travessa 8, 140 - Cidade Universitária, São Paulo.

 O livro foi lançado em várias cidades como São Paulo (capital e interior), Rio de Janeiro, Salvador (BA), Cachoeira (BA), e já vendeu quase 1000 exemplares em três meses. Segundo o editor, Marciano Ventura, “o livro Frantz Fanon - um revolucionário, particularmente negro cumpre a importante função de desvelar aspectos importantes da trajetória e ideias de um dos mais importantes pensadores da atualidade, um livro para iniciantes e iniciados na leitura de Frantz Fanon. ” 

Para Deivison Mendes Faustino, a boa recepção do livro “se deve, em primeiro lugar a uma busca crescente pela produção de intelectuais negras/os. Esse interesse, penso eu,  é potencializado pela recente ampliação da presença negra nas universidades brasileiras e pela necessidade, daí decorrente, de problematizar o racismo e as suas influências na produção de conhecimento. Alem desse público, é notável também o interesse de intelectuais não acadêmicos ou interessados em geral. Neste primeiro momento, além das universidades, lançamos o livro em um terreiro de candomblé, em uma roda de samba  e em coletivos negros e artísticos. Para um pesquisador oriundo do movimento hip hop, como eu, não há melhor retorno que este."

No evento a roda de conversa sobre o livro será conduzida pelo autor e contará com presença de Regina Lúcia Santos, educadora e militante do Movimento Negro Unificado, como debatedora. Em seguida haverá sessão de autógrafos. 

 SOBRE O AUTOR | Deivison Mendes Faustino, também  conhecido como Deivison Nkosi, possui doutorado em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos.É Professor Adjunto da Universidade Federal de São Paulo – Campus Baixada Santista, onde também atua como pesquisador do Núcleo Reflexos de Palmares e do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros – NEAB da UNIFESP e integrante do instituto Amma Psique e Negritude e do Grupo Kilombagem. Recebeu, em 2015, a Menção Honrosa do Prêmio CAPES pela tese intitulada Por que Fanon, por que agora? Franz Fanon e os fanonismos no Brasil.

Título | Frantz Fanon – Um revolucionário, particularmente negro. Autor | Deivison Mendes Faustino Editora | Ciclo Contínuo Editorial Páginas | 144 Ano | 2018 $43,00 ISBN | 978-85-68660-35-5

Link para compra: goo.gl/vE75Bb

Livro pioneiro sobre o intelectual e revolucionário martinicano Frantz Fanon é lançado pela Ciclo Contínuo Editorial

Leia um trecho do livro Frantz Fanon - Um revolucionário, particularmente negro - Deivison Mendes Faustino ( pág 13-17 )

Por que Fanon, por que agora?

Esta pergunta foi levantada desta forma pela primeira vez em 1995, pelo pensador jamaicano Stuart Hall, em um encontro promovido pelo Institute of Contemporary Arts (ICA), de Londres. Já no início do texto, Hall revela o seu espanto com o fato de Fanon, até então esquecido, voltar a excitar o debate intelectual anglófono, particularmente em torno de seu primeiro livro, Pele Negra, Máscaras Brancas, escrito em 1952.

O destaque dado a esta publicação não foi gratuito, uma vez que os estudos anteriores sobre Fanon o vinculavam, frequentemente, aos debates relacionados às lutas de libertação do continente africano e à práxis revolucionária no terceiro mundo. Entretanto, a conjuntura teórica que Hall observava e, ao mesmo tempo, ajudava a forjar, oferecia um novo enquadramento àquilo que seriam consideradas as contribuições de Frantz Fanon: os debates sobre subjetividade, cultura e identificação.

Tendo tais diferenças de recepção em vista, o filósofo camaronês Achille Mbembe relata: “Se Os condenados da terra era o livro da época da práxis revolucionária, de Pele negra, máscaras brancas pode-se dizer que é um dos livros de cabeceira da viragem pós-colonial no pensamento contemporâneo” (2012). Alguns autores buscaram explicar essas diferentes recepções observando o interior da própria obra de Fanon, atribuindo-lhe uma cisão epistêmica fundamental.

Cedric Robinson, por exemplo, em seu e Appropriation of Frantz Fanon (1993), chegou a argumentar pela existência de um Fanon temporalmente cindido que teria – tal como o “jovem Marx” – “evoluído” das questões “pequeno-burguesas”, filosóficas, subjetivas e existenciais para uma reflexão “madura” que privilegia a práxis política como caminho para a emancipação (Op. cit.).

Em recusa a essa tese, Hall (Op. cit.) defende a existência de um elo teórico entre o conjunto de escritos e problematizações propostos por Fanon, mas para ele esse link se manifestaria na centralidade dos temas da subjetividade e dos complexos psíquicos provocados pela “epidermização” do olhar (HALL, 1996: 17). O pensador jamaicano visualiza ainda, na própria estrutura textual da obra fanoniana, uma ambiguidade que caracterizaria um “diálogo inter-relacionado e não concluído” entre Fanon, Césaire, Sartre e Hegel. Hall argumenta que essa ambiguidade de Fanon desviaria a dialética em uma direção distinta dos seus predecessores, a saber: a différance pós-estruturalista. Assim, segundo ele, o “tropo Senhor/Escravo” e as “circunvoluções hegelianas e sartreanas” que circundam o texto de Fanon importariam apenas na medida em que contextualizam a trajetória de vida do autor e não como chave analítica para a com- preensão do seu trabalho.

A biografia teórica oferecida nesse livro está em consonância com os apontamentos feito por Hall, mas, aqui, o link teórico identificado não se resume aos debates sobre a subjetividade, embora não possa prescindir deles (FAUSTINO, 2015). Como veremos, a premissa que orientou esse trabalho, como eixo estruturante do pensamento fanoniano, foi a sociogenia (sociogénie). Essa premissa pressupõe um sociodiagnóstico que conceba a subjetividade sempre em relação com os seus determinantes históricos e sociais:

Antes de abrir o dossiê, queremos dizer certas coisas. A análise que empreendemos é psicológica. No entanto, permanece evidente que a verdadeira desalienação do negro implica uma súbita tomada de consciência das realidades econômicas e sociais. Só há complexo de inferioridade após um duplo processo – inicialmente econômico – seguido pela interiorização, ou melhor, pela epidermização dessa inferioridade (FANON, 2008: 28).

A posição aqui assumida se aproxima de Silvia Wynter (1999; 2001) quando identifica no “sociogenic principle” o núcleo estruturante do estatuto teórico fanoniano; no argumento de Lewis Gordon (2015) a respeito do caráter abrangente da teoria fanoniana, abarcando os aspectos psicológicos, sociais e culturais; e na classificação de Fanon como oxímoro radical, oferecida por Ato Sekyi-Otu (1996). Para este último, o empreendimento de Fanon é marcado por uma dupla exigência: a preocupação em manter a tensão crítica em relação ao “drama absurdo” da condição colonial e as vicissitudes cristalinas do dilema humano que esse drama procura violentamente reprimir e usurpar e, por isso, a luta anticolonial, como ato político de rebelião, não se apresenta como o m da história e nem mesmo como retorno a alguma forma pretensamente original que tenha sido tolhida pela colonização, mas, sim, como abertura a novas possibilidades de solidariedade e autocompreensão.

Isso significa, ainda com Sekyi-Otu, que Fanon aponta, por um lado, para a defesa de uma dialética crítica que rejeita o essencialismo implícito no coletivismo forçado da raça e da nação e, por outro lado, recusa o universalismo abstrato próprio ao humanismo europeu para afirmar um novo humanismo, voltado à desracialização da experiência por meio da afirmação aberta e conjuntural de particularidades universais. É nesse sentido que Sekyi-Otu retoma o termo “oxímoro” empregado por Gramsci para descrever Maquiavel como um partidário do universal. Para Sekyi-Otu, Fanon, assim como Maquiavel, expressar-se-ia como “oxímoro radical” que aponta para a possibilidade de articulação dialética de interesses particulares e universais. Retomando Gordon (2015), pode-se acrescentar à lista de elementos articulados em Fanon as dimensões sociais, econômicas, culturais e subjetivas.

É verdade, como argumenta Hall (1996), que as preocupações psicanalíticas estão presentes em toda a reflexão fanoniana, expressando a sua originalidade e, ao mesmo tempo, a profundidade de sua abordagem. Entretanto, a articulação dessa dimensão a partir da perspectiva da sociogenia sugere serem os fatores sociais os elementos que tornam inteligíveis tanto a interdição (colonial) da dialética do reconhecimento quanto as possibilidades de superação dessa interdição. Ao mesmo tempo, sugere que essa superação não pode ser concebida sem a devida atenção aos aspectos culturais e subjetivos da existência humana.

Como veremos a seguir, as escolhas políticas, teóricas – e, por vezes, pessoais – de Fanon apontam para um esforço em dimensionar a complexidade da existência humana, sem, contudo, desconsiderar as expressões particulares que essa existência assume no tempo e no espaço socialmente dado (FAUSTINO, 2015). Não encontraremos um super-homem, no sentido hollywoodiano, e muito menos um sujeito miticamente atormentado por algum trauma edípico não revelado, mas apenas uma pessoa que procurou dar respostas aos desafios que a história lhe impôs, em uma época em que as respostas pareciam possíveis de serem dadas.

Para reconstruir a trajetória pessoal e política de Fanon, bem como para oferecer maiores subsídios para o entendimento dos contextos sobre os quais escreveu, foram utilizadas aqui as biografias e notas biográficas oferecidas por Pardo (1971), Geismar (1972), Gendizer (1974), Macey (2000), Faustino (2013, 2015), Ortiz (2014) e Gordon (2015). E, ao longo das reflexões, o leitor familiarizado com a literatura contemporânea a respeito de Fanon notará a influência de autores como Sekyi-Otu (1996), Gibson (1999), Henry (2000), Gordon (1995; 2015) e Silvério (1999; 2013) no enquadramento aqui oferecido.

Esse sucinto ensaio que ora apresento têm o objetivo de estimular a curiosidade e pesquisa a respeito da vida e obra de Frantz Fanon e fortalecer para o debate sobre a contribuição do pensamento de autore(a)s negro(a)s para o entendimento da sociedade contemporânea.

  Título | Frantz Fanon - Um revolucionário, particularmente negro. Autor | Deivison Mendes Faustino Editora | Ciclo Contínuo Editorial Páginas | 144 Ano | 2018 $43,00 ISBN | 978-85-68660-35-5

Link para compra: goo.gl/vE75Bb