Prefácio do livro “Diálogos Contemporâneos sobre Homens Negros e Masculinidades”, por Deivison Mendes Faustino

Que quer o homem? Que quer o homem negro? Mesmo expondo-me ao ressentimento de meus irmãos de cor, direi que o negro não é um homem. [...] O negro é um homem negro; isto quer dizer que, devido a uma série de aberrações afetivas, ele se estabeleceu no seio de um universo de onde será preciso retirá-lo. - Frantz Fanon, 1952 .

O homem negro não é um homem! Afirma-nos provocativamente o psiquiatra martinicano Frantz Fanon (1925-1961). Em seu diagnóstico da sociedade moderna – leia-se, colonial – o homem negro está imerso em uma série de contradições sociais (racializadas) que o impedem de ser reconhecido como “homem”, ou seja, como parte da humanidade genérica. Em outras palavras, quando se pensa “o homem”, ou seja, o “humano”, o negro não está incluído. O homem negro, portanto, não é humano! É apenas um homem negro.

Esse jogo de palavras nos introduz a três grandes problemas enfrentados por esta coletânea, intitulada Diálogos Contemporâneos sobre Homens Negros e Masculinidades, organizada por Henrique Restier e Rolf Malungo de Souza: 1. o machismo; 2. o racismo; e 3. o lugar dos homens negros diante de ambos. Tendo em vista o primeiro aspecto, e ainda relacionando-o ao jogo de palavras supracitado, é válido mencionar a já extensivamente debatida sexização da linguagem nas sociedades ocidentais que destina à palavra “homem” o status de representante geral do gênero humano. É verdade que em sua origem indo-europeia, a referida palavra pode remeter tanto a homo (humano) quanto a humus (chão ou terra), marcando, no Ocidente, a ideia de que os “homens” (seres humanos) seriam seres terrenos, em contraposição aos deuses (celestiais).

Entretanto, não estava posto, a priori, o sexo do húmus. Mas o imaginário indo-europeu decidiu em algum momento de sua história linguística que o homo (o homem), em seu contraponto progressivo à natureza original, seria o macho – mesmo que a própria Terra, fonte de todo húmus existente, tenha continuado um substantivo feminino –, e este subsumisse a si as demais expressões sexuais. Assim, dos textos gregos clássicos ao velho testamento bíblico, dos tratados filosóficos iluministas à redação fanoniana, não apenas “o homem” é figurado como representante (i)legítimo da humanidade, como também, à própria imagem e semelhança de Deus. Se até Deus é considerado homem, os homens (do sexo masculino e não do gênero humano) serão vistos como deuses, e as mulheres somente excepcionalmente (após intensas lutas ainda em curso protagonizadas pelo feminismo) poderão almejar ao status previsto no Salmo 82:6. É o machismo que figura o homem (macho) como única expressão do humano, invisibilizando, portanto, as mulheres.

O segundo problema, muito bem descrito por Fanon, está relacionado ao racismo antinegro. Embora o autor siga o fluxo linguístico patriarcal ao empregar a palavra “homem” como sinônimo de gênero humano, ele denuncia o caráter necropolítico das sociedades modernas. Negros e Negras não são vistos como humanos porque o próprio desenvolvimento antropocêntrico da noção de humanidade – vista como ente contraposto à natureza (à terra-mãe, feminina) – teve na Europa colonialista o seu apogeu. Diante do colonialismo, os povos colonizados não poderiam compor a “orquestra da humanidade” como sujeitos, talvez, sim, como instrumentos (objetos), via trabalho forçado e apropriação não reconhecida de suas contribuições societárias.

Na fantasia ocidental, o humano (homo) é sujeito da razão e a razão é helênica ou europeia: a liberdade, permitida pela razão representa o distanciamento entre o homem e a natureza. Para Hegel, a história humana – o desenvolvimento do espírito absoluto rumo à consciência concreta de si – teve o seu ápice no Ocidente. Contudo, nesta narrativa, as pessoas que descendem da África não são homens (nem no sexo nem no gênero), pois não romperam com a natureza: são corpos selvagens e incivilizados, e não sujeitos de si. São apenas escravos do desejo dos verdadeiros sujeitos – os brancos. Os negros e as negras não são nada! Sequer são notados como partícipes da história, mas, se ainda assim não puderem ser ignorados na narrativa de algum branco protagonista, não figurarão como “homens” (do húmus), apenas como negros. O racismo é a negação substancial – e não apenas linguística – da humanidade das pessoas negras.

O terceiro aspecto a ser considerado está no cruzamento dos dois problemas anteriormente apontados. Não cabe discutir aqui qual deles é mais importante ou determinante (se o machismo ou o racismo), mas sim reconhecer que eles se entrelaçam e se potencializam, conformando os fios de uma teia muito maior de contradições sociais. Se considerarmos que esse entrelaçamento não é uma simples somatória de “opressões”, mas a composição histórica de um complexo de complexos sociais historicamente determinados, teremos que equacionar, em primeiro lugar, o quanto as intersecções de gênero e raça impactam negativamente a vida das mulheres negras na sociedade de classes e, em segundo lugar, o quanto que este segmento vem produzindo movimentações políticas e reflexões inovadoras.

A pergunta que fica após essa constatação é: se a mulher negra configura aquilo que Grada Kilomba denomina como “o outro do outro”, ou seja, é negada duplamente em sua humanidade, como mulher e como negra, e se o jogo dos opostos da identidade pressupõe que para cada particularidade invisibilizada (negada em sua humanidade) há um (ou vários) privilégio(s) invisível(is) e naturalizado(s), qual é o lugar do homem negro nessa intricada cadeia de contradições? Lançando mão de termos binários, seria adequado alocá-los no grupo dos privilegiados, enquanto homens sujeitos ou no grupo dos desprivilegiados, enquanto negros objetos? E se prosseguirmos ainda com a Grada Kilomba, considerando que todo “outro” pressupõe um “eu” ou “nós” e que ambos (“eu” e “nós”) são geralmente os sujeitos (visíveis ou ocultos) de qualquer texto, em que medida poderíamos pensar os homens negros como sujeitos (em uma sociedade racista)? Dando o papo reto, já que estamos falando do próprio Negro Drama, ou seja, do Sujeito Homi:  os homens negros são vítimas (do racismo) ou vilões (do machismo), afinal?

Para além disso, independente das respostas que deem a essas perguntas, como aplicar também aos homens negros as lições de Audre Lorde a respeito das “casas da diferença”, ou seja, como não reduzi-los também a um bloco pseudo-homogêneo que nos cegue para as diferenças, contradições e desigualdades implícitas a esse bloco? Se os homens negros não são todos iguais, como podemos discutir masculinidades negras sem, por um lado, desconsiderar os privilégios masculinos postos pelo machismo, mas, ao mesmo tempo, sem ignorar o quanto os elementos como identidade de gênero, orientação sexual e sexo biológico – bem como os atravessamentos de classe, idade, região, entre outros – podem diferenciar e até contrapor experiências e relações de poder entre homens negros em nossa sociedade?

São estas e outras perguntas que impulsionam a presente coletânea. Os ensaios selecionados por Henrique Restier e Rolf Malungo de Souza, duas grandes referências nacionais no tema das masculinidades negras, apresentam uma rica oportunidade para o aprofundamento destas questões de uma forma pouco usual. O leitor irá encontrar desde ensaios de cunho biográfico, como o relato de experiência nomeado por Airan Albino como “MilTons: múltiplas trocas em tom de conversa”, em que o autor fala em primeira pessoa de suas descobertas pedagógicas, estéticas e políticas a partir da mobilização de um grupo de homens negros, a ensaios teóricos como “Per-vertido homem Negro: reflexões sobre masculinidades negras a partir de categorias de sujeição”, de Tulio Custódio e “Homem negro, corporeidades e saúde: perspectivas históricas e sociológicas” de Thiago A. Soares (Tago Elewa Dahoma) e Douglas Araújo.

No texto de Custódio, o leitor encontrará a problematização, a partir do feminismo negro, das “categorias de existência” e “categorias de performance”, a partir do que emerge das questões latentes no debate público sobre masculinidades negras.  Já no artigo de Tiago A. Soares (Tago Elewa Dahoma) e Douglas Araújo,  toma-se as teorias da afrocentricidade como argumento em defesa de uma abordagem sobre a masculinidade negra “por fora de um viés em que ele é sempre deslocado para responder aos interesses das relações com as mulheres” ou do feminismo. Em síntese os autores propõem pensar os homens negros a partir de suas próprias indagações e problemáticas.

O leitor encontrará ainda a corajosa reflexão de Caio César, intitulada “Hiperssexualização, autoestima e relacionamento inter-racial”, na qual problematiza criticamente tanto a hiperssexualização do homem negro quanto a busca, por vezes, fetichizante do mesmo pelas mulheres brancas. No mesmo caminho, o artigo “O Corpo do Homem Negro e a Guerra dos Sexos no Brasil”, de Osmundo Pinho, discute o quanto a hiperssexualização destes homens é parte de um processo de abjeção racial, representada no trato violento (e criminalizador) do aparato estatal para com esses jovens e com suas expressões de desejo. Ainda neste sentido, encontramos o artigo de Henrique Restier da Costa Souza em que analisa a ideologia da mestiçagem e como as rivalidades entre as masculinidades negras e brancas influenciariam o elogio à mestiçagem como a ideologia “fundante” de nossa nação.

Já Lucas Veiga e Bruno Santana trazem questões que nem sempre encontram espaço no – já sem espaço – debate sobre as masculinidades negras. O primeiro, Lucas Veiga, nos brinda com o “Além de preto é gay: as diásporas da bixa preta”, no qual assume o “bixa preta” – “a diáspora da diáspora”, conforme argumenta – como categoria política dissidente e afrocentrada. O autor aponta para a necessidade de construção de laços políticos entre bixas pretas, pessoas pretas hétero, assim como a aproximação com as religiões de matriz africana – históricas no acolhimento a esse público – como estratégia política emancipadora, “suporte para a vida cotidiana e afago para a solidão”. Já Bruno Santana nos apresenta a importante – e também invisibilizada – questão dos homens trans no seio da comunidade negra, em particular, e da sociedade em geral. A pergunta mobilizada pelo autor é: se Fanon já havia nos alertado que em uma sociedade racista, o homem negro é reduzido ao seu genital, o que é ser um homem trans negro, ou seja, “homens de vagina, que construíram uma masculinidade sem pênis?”.

Diálogos Contemporâneos sobre Homens Negros e Masculinidades é, sem dúvida, uma grande contribuição ao debate, especialmente porque recusa os caminhos fáceis de enquadrar os homens negros, ou como vítimas indefesas do poder do homem branco – como se não tivessem escolhas a fazer e responsabilidades a prestar diante de seu coletivo – nem o monstro violador essencializado, criado pelas fantasias coloniais. É, sobretudo, um convite para que os homens negros tenham um espaço, não apenas para pensar sobre suas experiências particulares, mas também para reflexão sobre os custos nocivos de projetos de masculinidades que também interiorizaram. Encontramos aqui uma ginga muito interessante entre o negro tema e o negro vida. Um trabalho instigante e necessário em um momento como este, marcado por tantas polaridades empobrecidas.

A coletânea nos desafia a rever velhos conceitos historicamente úteis à luta política e a pensar a diferença na diferença. O desafio fanoniano que fica é o de pensar qual é o lugar para a unidade no meio de tantas diferenças. O que sabemos é que se houver um comum possível, é só a partir do cotejamento destes vários atravessamentos que ele pode vir a ser.

O lançamento acontecerá no dia 09 de maio, quinta-feira, às 19 horas, no Centro Cultural Olido (1º pavimento), localizado na Av. São João, 473 - Centro, São Paulo - SP.

Confirme presença no evento e compartilhe com a/os amiga/os: goo.gl/FSmQRj

Entrada franca.

_______________________

Deivison Mendes Faustino

Professor Adjunto da Universidade Federal de São Paulo – Campus Baixada Santista, onde também atua como pesquisador do Núcleo Reflexos de Palmares e do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros – NEAB da UNIFESP e integrante do Instituto AMMA Psique e Negritude e do grupo Kilombagem. Publicou o livro Frantz Fanon - Um revolucionário, particularmente negro, 2018.

O Prof. Márcio André de Oliveira dos Santos comenta o livro “Diálogos Contemporâneos Sobre Homens Negros e Masculinidades”

Sou um homem negro, pai de dois meninos negros. Meu pai é um homem negro e foi marcado pelo drama de muitos homens negros no Brasil: problemas com drogas no passado, trabalhos precarizados e jogatinas. Por outro lado, construiu durante décadas junto com minha mãe, a casa que residem hoje, bem estruturada, com quintal, cheia de luz e nos deu a educação possível em um contexto de muitas adversidades. São imagens que guardo do passado, mas que faço questão de sublinhar aqui no início deste texto para que entendam minimamente de onde falo. Tornei-me um homem negro em condições sociais muito desfavoráveis. E esta é a realidade de muitos de nós, da imensa maioria.

Finalmente nos chega uma publicação que tematize prioritariamente as masculinidades negras, ou seja, a condição vivida dos homens negros brasileiros. Homens que carregam consigo um rol de experiências, as mais diversas possíveis.

Apesar de sermos muitos e, portanto, diversos, somos vistos e sistematicamente retratados de maneira homogênea pelos meios de comunicação. Homem negro tem sido sinônimo de homem violento, de ladrão, de marginal, de traficante. Somos vistos como perigosos, feios, que aguentam trabalhos pesados, que abandonam os filhos. Por outro lado, os homens brancos são construídos de maneira contrária à imagem dos homens negros. Homens brancos são vistos como empreendedores, belos, responsáveis, corajosos, fraternos, simpáticos.

Não há como entender esse simulacro de representações sem, antes, compreendermos o modus operandi do racismo no Brasil. Racismo é um instrumento de poder que estrutura todas as relações sociais. Portanto, reverter esse conjunto complexo de imagens negativas sobre os homens negros na percepção popular é um trabalho que se faz urgente. Daí a importância de nos apropriarmos de estudos e reflexões no campo das masculinidades negras.

Nós, os homens negros, constituímos um segmento específico no conjunto da população negra. Não existe uma essência de homem negro. Qualquer tentativa nesse sentido é falsa.

Este livro, caro leitor ou cara leitora, certamente possibilitará outra percepção sobre quais os principais desafios postos à condição de ser homem negro na sociedade brasileira. Portanto, boa leitura!

Lançamento em São Paulo - 09 de maio de 2019. Confirme presença no evento e compartilhe com a/os amiga/os: goo.gl/FSmQRj

________________________________

Márcio André de Oliveira dos Santos

Doutor em Ciência Política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ. Atualmente é professor da UNILAB – Campus dos Malês, na Bahia, e coordena o curso de bacharelado em Relações Internacionais. Tem se dedicado a pesquisas sobre Movimentos Negros, Ação Coletiva, Etnicidade, dentre outros temas.

PRÉ-VENDA: DIÁLOGOS CONTEMPORÂNEOS SOBRE HOMENS NEGROS E MASCULINIDADES

É com grande alegria que anunciamos a PRÉ-VENDA do livro: Diálogos Contemporâneos sobre Homens Negros e Masculinidades - Henrique Restier & Rolf Malungo de Souza (org).

Reserve já o seu exemplar: Diálogos Contemporâneos sobre Homens Negros e Masculinidades. 

O envio deste produto será realizado a partir do dia 01/05/2019. 

Segue o convite para o lançamento:

A Ciclo Contínuo Editorial convida para o lançamento do livro "Diálogos contemporâneos sobre homens negros e masculinidades", organizado por Henrique Restier & Rolf Malungo de Souza.

Na ocasião será montada uma mesa composta pelos organizadores, Henrique Restier e Rolf Malungo de Souza. Também contaremos com a presença dos autores: Airan Albino, Caio César (RJ), Tulio Augusto Custódio (SP), Tago Elewa Dahoma (SP) e Douglas Araújo (SP).

O lançamento ocorrerá no dia 09 de maio, quinta-feira, às 19 horas. O evento é aberto a todos e ocorrerá no Centro Cultural Olido (1º pavimento), localizado na Av. São João, 473 - Centro, São Paulo - SP. Todas e todos são muito bem vindos!

Os exemplares do livro estarão a venda pelo valor de R$45,00 e aceitamos cartões de todas as bandeiras.

Entrada franca.

Sobre o Livro:

Prefácio: Deivison Mendes Faustino

Contracapa: Renato Noguera

Orelha do livro: Márcio André

Páginas: 232

Autores: Henrique Restier | Airan Albino | Caio Cesar | Tulio Augusto Custódio | Osmundo Pinho | Bruno Silva de Santana | Lucas Veiga | Tago Elewa Dahoma e Douglas Araújo.

(...) A proposta deste livro que em breve estará em suas mãos se insere na dinâmica entre relações raciais e gênero. O levantamento bibliográfico indica um amplo campo investigativo ainda a ser explorado sobre as masculinidades negras, suas construções e particularidades, sobretudo, no Brasil. Usualmente, as abordagens que relacionam as categorias de raça e gênero recaem sobre o feminino negro. Nada mais legítimo, uma vez que as interrogações sobre gênero, papéis sexuais e as desigualdades que daí advêm, tiveram seu marco teórico no Ocidente com o feminismo, que fomentou a desnaturalização dos gêneros e, portanto, sua historicidade e questionamento. Consequentemente, o objeto principal de suas maiores preocupações incide sobre a mulher branca, enquanto o feminismo negro e o mulherismo africana, na mulher negra, logo, os homens negros e brancos tendem a aparecer em segundo plano nesses arcabouços teóricos. Não obstante, os homens brancos de classe média geralmente são vistos como não possuíssem gênero, como se fossem a referência universal de ser humano, o que não acontece com os homens negros, gays, pobres etc. Esta é uma das razões sobre a necessidade de pesquisas que contemplem masculinidades, destacando marcadores sociais de diferença e seus aspectos relacionais.

Negro Drama – Ao redor da cor duvidosa de Mário de Andrade – Prefácio da professora Maria Nazareth Soares Fonseca

Ao redor da cor duvidosa de Mário de Andrade - À guisa de apresentação

Maria Nazareth Soares Fonseca

No livro O espetáculo das raças (1993)1, Lilia Moritz Schwarcz considera que, nos finais do século XIX, em período em que as consequências da independência do país, em 1822, e mesmo das lutas pela libertação dos escravos, o Brasil era descrito, nos relatos de viajantes europeus que aqui estiveram, como um país negativamente misturado em termos de raças. Ao se referir às várias representações do paia, nas quais a mestiçagem era ressaltada, Schwarcz reitera que, apesar de vários intelectuais brasileiros referirem-se ao “espetáculo brasileiro da miscigenação”, nem sempre são vistas como positivas as misturas raciais que pintavam de cores diversas a face do Brasil. As variações de cor de pele que se exibiam particularmente nas maiores cidades brasileiras era apreendida pelo olhar dos viajantes estrangeiros e pela elite brasileira como sintoma de uma degenerescência, já que, de acordo com as teorias racialistas que aportavam no Brasil, a diversidade fenotípica certamente causaria as mazelas decorrentes da mistura de raças inferiores2. As características climáticas e sociais da jovem nação eram vistas como sintoma de um processos de enfraquecimento biológico e mental, ideia defendida, entre outros, por Arthur de Gobineau, que esteve no Brasil nos anos 1890-1870. Suas ideias, que se espalharam pela mentalidade da época, condenavam a mestiçagem, entendendo-a como causa de atraso e de ameaça aos destinos da nação (Schwarcz, 1993). Tais ideias irão determinar, no Brasil, a importação de brancos europeus para suprir a de mão de obra negra, após a libertação dos escravos. A brancura da mão de obra europeia funcionaria como antídoto contra os males provocados pela miscigenação, razão por que enrijece-se, no país, a rejeição às misturas raciais, quando essas incluíssem negros e mulatos. Esse processo, de certa forma, irá legitimar “um sistema residual de valores com “viés branco”, bem como contribuir para a sintomática desvalorização dos “elementos africanos, sejam eles culturais ou físicos, como acentua Kobena Mercer (2018, p. 66)3.

Em cenário brasileiro fortemente demarcado pelas ideias racistas que conviviam, em conflito, com as imagens de um Brasil mestiço, surge o movimento modernista a que pertenceu a figura magistral de Mário de Andrade, discutida no ensaio de Oswaldo de Camargo. No seu ensaio, Camargo propõe avaliar, nos escritos literários e críticos do escritor paulistano, as expressões reveladoras do modo como Mário de Andrade conviveu com os traços fisionômicos herdados de seus ancestrais negros4. O ensaísta considera importante verificar como o escritor Mário de Andrade, que se projeta no poema “Eu sou trezentos”, do livro Remate de males, publicado em 1930, sob pseudônimo de Mário Sobral, foi capaz de lidar com os mecanismos de rejeição a negros e mulatos, vigentes no Brasil, ainda que pertencesse à elite intelectual paulistana. Não por acaso, o escritor procurou estudar as diferentes facetas do preconceito racial no Brasil para entender melhor o próprio lugar que ocupava na sociedade a que pertencia.5

Com o intuito de situar o escritor paulistano em cenário de que fazem parte escritores como Francisco Otaviano (Rio de Janeiro, 1825- 1889), Machado de Assis (Rio de Janeiro, 1839 - 1908), Lima Barreto (Rio de Janeiro 1881 - 1922) e Cruz e Sousa (Florianópolis 1861 - 1898), Camargo discute os males do preconceito racial que fez com que vários escritores e artistas negros e mulatos brasileiros adotassem atitudes escorregadias diante de sua cor. A cor negra da pele, após a abolição da escravatura, continua a figurar, no imaginário do Brasil, como indicadora de inferioridade e isso fará com que os mulatos, como Mário de Andrade, sejam ora considerados positivamente, porque estão mais próximos da cor branca, ou negativamente, porque, apesar de não serem negros, não podem ser considerados brancos. Ser mulato como Machado de Assis e Mário de Andrade e vários outros escritores e artistas citados por Camargo em seu ensaio representa uma condição nem sempre fácil de conviver com as normas da elite brasileira. Como demonstra Camargo, na época de Mário de Andrade o racismo era discutido e combatido por intelectuais brancos, negros e mulatos, sem que, de forma prática, fosse desacreditado por uma nação que se diz mestiça. O racismo fortalece o processo de exclusão de negros e mulatos do projeto arquitetônico das grandes cidades e explica sua “inclusão parcial numa ordem projetada por grupos hegemônicos” (PEREIRA, 2001, p. 32)6.

Ao participar de um jogo cujos lances explicitam as condições para estar dentro e fora do cenário demarcado pela elite intelectual do Brasil, Mário de Andrade se faz “trezentos” ou simplesmente responde “vou passando muito bem, obrigado” aos que lhe perguntam sobre sua cor. Sem aceitar de forma tranquila a mestiçagem que se expõe em seu rosto, em seu cabelo e aguça a sua curiosidade pelas coisas brasileiras, o escritor cria Macunaíma, o “herói sem nenhum caráter”, com que ironiza os valores consagrados pela cultura brasileira, expressos numa política de branqueamento que, como se desejava, sanearia a nação degenerada constituída por misturas e mestiçagens. Os versos do poema “Grito imperioso de brancura em mim”, de Mário de Andrade, expõem os conflitos de uma sociedade que assume, a contra gosto, a mestiçagem como característica do Brasil tropical, embora continue praticando políticas de branqueamento.

Como fica demonstrado no ensaio de Camargo, Mário de Andrade, ao sentir-se impossibilitado de se ver “negro nem vermelho”, delega ao eu lírico o direito de se nomear “só branco, só branco”. Essa nomeação, no entanto, não se dá sem conflito no poema, porque é o mesmo eu lírico que reconhece ter a “alma crivada de raças”.

O ensaio de Oswaldo de Camargo é, por todos os pontos que ressalta, caminho bem construído para os que procuram acompanhar, de perto, o modo como o escritor, ensaísta, musicólogo e ativista cultural Mário de Andrade lidou, em sua vida e em sua obra, com a questão racial brasileira que está presente em sua obra literária e crítica, sem panfletarismos contra ou a favor.

1 1 - SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças. Cientistas, instituições e questão racial no Brasil - 1870 - 1930, São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

2 - A percepção de negros e indígenas como raças inferiores sustentava o pensamento racista do século XIX, sendo assumida também por intelectuais e ideólogos brasileiros. Destaque-se a opinião do conde Arthur de Gobineau, que residiu no Brasil entre 1869 e 1870, em missão da diplomacia francesa. Crítico ferrenho da mestiçagem, que, segundo ele, tornava os brasileiros feios e preguiçosos.

3 Sobre os processos de desvalorização de traços do corpo negro em sociedades racistas, é importante consultar: MERCER, Kobena. Black hair/ Políticas de estilo. In: Histórias afro-atlânticas- Antologia. São Paulo: Instituto Tomie Ohtake/MASP. 2018, p. 63 - 81.

4 - De acordo com texto publicado no jornal Folha de São Paulo, em 25 de setembro de 1993, de autoria de José Geraldo Couto e Mario Cesar Carvalho, Mário de Andrade era extremamente vaidoso. Segundo o artigo, o escritor paulistano tinha o costume de “atenuar o tom amulatado da pele, herança das avós materna e paterna, ambas mulatas.”

Ver: http://almanaque.folha.uol.com.br/semana3.htm

Acesso em 28/08/2018.

5 - No ensaio, Oswaldo de Camargo refere-se ao modo como Mário de Andrade considerou o negro e a cultura produzida por matrizes africanas, no Brasil, citando a tese defendida por Angela Teodoro Grillo, em 2011. A tese foi publicada em livro, em 2016.

GRILLO, Ângela Teodoro. Sambas insonhados: o negro na perspectiva de Mário de Andrade, São Paulo: Ciclo Contínuo Editorial, 2016.

6 A citação foi extraída de:

PEREIRA, Edimilson de Almeida; GOMES, Núbia Pereira de Magalhães. Os ardis da imagem. Belo Horizonte: Editora PUC Minas/Mazza Edições, 2001).

LANÇAMENTO Lançamento do livro "Negro drama - Ao redor da cor duvidosa de Mário de Andrade" Data: 18 de dezembro de 2018 Horário: às 19h00 Local: Livraria Tapera Taperá Endereço: Av. Av. São Luis, 187, 2º andar, loja 29 - Galeria Metrópole, São Paulo – SP - 11 31513797

Link do evento: goo.gl/ua3o3T

____________________________________________________________________

Doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal de Minas Gerais, é professora do Programa de Pós-graduação em Letras da PUC- Minas e professora aposentada da UFMG. Organizou, entre outros, os livros Brasil afro-brasileiro (2000), Poéticas afro-brasileiras (2003), Ensaios de Leitura II (2008). É, juntamente com Eduardo de Assis Duarte, orga- nizadora do volume 4 da coletânea Literatura e afrodescendência no Brasil, antologia crítica.

Um ebó todo feito de palavras – Prefácio de Lívia Natália para o livro Nós – 20 poemas e uma Oferenda

Um ebó todo feito de palavras

Lívia Natália*

Jogando com o título do belo livro de estreia da poeta Neide Almeida, inicio esta leitura dizendo que, generosamente, a autora nos entrega mais do que prometeu. Recebemos, todas e todos, a oportunidade de testemunhar a autora arriando 21 oferendas aos pés da ancestralidade e, no mesmo gesto, as oferendas são promessas para o futuro. Estamos ante uma histórica cerimônia: os poemas se transmutaram em Ebós alimentando os 21 Eguns que acompanham Iansã, os poemas são um Ebó de pimenta da costa, que limpa a boca, afia a língua, lava a garganta e liberta o canto da poeta para nossos ouvidos.

Atenta e quieta, ouço, no poema Em mim, a lição de que é necessário ser aquela que “inventa passos para andar entre as pedras”. E eu, que sempre senti pedras mordendo-me os pés, finalmente compreendo que precisamos de outro corpo que, pela inventiva, repense os passos, já que as pedras são inescapáveis. Os nós, que também participam do título do livro Nós - 20 poemas e uma Oferenda, aparecem continuamente, trazendo, para os poemas, um sentido dúbio de coletividade e de firmeza, nos provocando a pensar sobre o que sustenta nossos passos, ideias e ideais, se fazemos mesmo parte deste “coro de insubmissões que rompem cercos de ocultamento”, como afirma a poeta em Meus Quilombos.

Somos todos corpos-quilombos, mais que corpos aquilombados, somos estes seres feitos de matéria e mistério. O ritmo melancólico dos tumbeiros ainda estão nos nossos corpos, ainda informam nossas almas, é desta travessia ancestral poetizada nos 21 textos deste livro que somos parte, e o somos graças ao que dessa travessia relata esta mulher negra-diaspórica. Neide Almeida nos dá a chance de encontrar, dentro de nós, este ritmo de navio dentro da água, este ritmo de corpos colocados dentro deste navio contra a sua vontade, mas, ante o inescapável da travessia, a poeta nos ensina a acolher e criar outras formas de ser, todas rebeladas: “Meu corpo é um campo ocupado por séculos de rebeldia, por cantos de liberdade”. É isto, somos todos insubmissos, como Neide demonstra no poema Abebé:

[...]

e singro os mesmos mares

que engoliram tantos de nós.

Mas deles ressurjo,

trajando sonhos, desejos

e forças ancestrais.

Mergulho na profundidade dos tons

de nossas peles

e sinto enegrecer ainda mais

o corpo-alma

o corpo-mente

meu canto

minha palavra.

Como já afirmei algumas vezes, sou das heranças, e Neide Almeida também é. E, quem assim se compreende, dá mais até do que recebeu. Então, o Mar que antes nos engoliu, hoje recebe nossos mergulhos, em lugar dos naufrágios de corpos, almas e subjetividades. Mergulhamos e trazemos tesouros que o Mar guardou para nós: sonhos, desejos e forças. Mais uma vez, mergulhamos, juntos com Neide, e de lá saímos banhados com um “corpo-alma", “corpo-mente” ainda mais negros, e Neide nos diz que, para ela, enxergamos esta negritude rediviva no seu canto e na sua palavra, e ela está certa.

Neste belo livro, tudo é oferenda, e, tal como a mulher do texto final, para todos nós estas memórias estavam cobertas de poeira, numa caixa esquecida em algum lugar da nossa casa-memória. Neide Almeida reencena, para nós, o resgate destas histórias depositando, amorosamente ante nossos olhos, este ebó todo feito de palavras, e de afeto.

Lançamento: 27 de setembro (quinta-feira), 19h. Local: Ação Educativa - Rua General Jardim 660 - Centro/ SP Link do evento:https://www.facebook.com/events/296782637575424/

________________________________

Lívia Natália é Doutora em Literatura e Professora Adjunta de Teoria da Literatura na Universidade Federal da Bahia, já publicou cinco livros de poesias: Água Negra (Prêmio Banco Capital de Poesia/2010), Correntezas e Outros Estudos Marinhos (ed. Ogum´s Toques Negros, 2015), Água Negra e Outras Águas (Caramurê, 2016), Sobejos do Mar (Caramurê, 2017), Dia bonito pra chover (Ed. Malê - Prêmio APCA/2017) e um livro infantil: As férias fantásticas de Lili (Ciclo Contínuo Editorial, 2018).