Professor lança livro sobre o pensador revolucionário Frantz Fanon no Núcleo de Consciência Negra/USP

O professor Deivison Mendes Faustino lança o livro Frantz Fanon – um revolucionário, particularmente negro em evento promovido pelo Núcleo de Consciência Negra e Ciclo Contínuo Editorial, no dia 21 de agosto (terça-feira), às 19 horas, na sede da instituição, localizada na Av. Professor Mello Moraes, Travessa 8, 140 – Cidade Universitária, São Paulo.

 O livro foi lançado em várias cidades como São Paulo (capital e interior), Rio de Janeiro, Salvador (BA), Cachoeira (BA), e já vendeu quase 1000 exemplares em três meses. Segundo o editor, Marciano Ventura, “o livro Frantz Fanon – um revolucionário, particularmente negro cumpre a importante função de desvelar aspectos importantes da trajetória e ideias de um dos mais importantes pensadores da atualidade, um livro para iniciantes e iniciados na leitura de Frantz Fanon. ” 

Para Deivison Mendes Faustino, a boa recepção do livro “se deve, em primeiro lugar a uma busca crescente pela produção de intelectuais negras/os. Esse interesse, penso eu,  é potencializado pela recente ampliação da presença negra nas universidades brasileiras e pela necessidade, daí decorrente, de problematizar o racismo e as suas influências na produção de conhecimento. Alem desse público, é notável também o interesse de intelectuais não acadêmicos ou interessados em geral. Neste primeiro momento, além das universidades, lançamos o livro em um terreiro de candomblé, em uma roda de samba  e em coletivos negros e artísticos. Para um pesquisador oriundo do movimento hip hop, como eu, não há melhor retorno que este.”

No evento a roda de conversa sobre o livro será conduzida pelo autor e contará com presença de Regina Lúcia Santos, educadora e militante do Movimento Negro Unificado, como debatedora. Em seguida haverá sessão de autógrafos. 

 SOBRE O AUTOR | Deivison Mendes Faustino, também  conhecido como Deivison Nkosi, possui doutorado em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos.É Professor Adjunto da Universidade Federal de São Paulo – Campus Baixada Santista, onde também atua como pesquisador do Núcleo Reflexos de Palmares e do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros – NEAB da UNIFESP e integrante do instituto Amma Psique e Negritude e do Grupo Kilombagem. Recebeu, em 2015, a Menção Honrosa do Prêmio CAPES pela tese intitulada Por que Fanon, por que agora? Franz Fanon e os fanonismos no Brasil.

Título | Frantz Fanon – Um revolucionário, particularmente negro.
Autor | Deivison Mendes Faustino
Editora | Ciclo Contínuo Editorial
Páginas | 144
Ano | 2018
$43,00
ISBN | 978-85-68660-35-5

Link para compra: goo.gl/vE75Bb

Livro pioneiro sobre o intelectual e revolucionário martinicano Frantz Fanon é lançado pela Ciclo Contínuo Editorial

Leia um trecho do livro Frantz Fanon – Um revolucionário, particularmente negro – Deivison Mendes Faustino ( pág 13-17 )

Por que Fanon, por que agora?

Esta pergunta foi levantada desta forma pela primeira vez em 1995, pelo pensador jamaicano Stuart Hall, em um encontro promovido pelo Institute of Contemporary Arts (ICA), de Londres. Já no início do texto, Hall revela o seu espanto com o fato de Fanon, até então esquecido, voltar a excitar o debate intelectual anglófono, particularmente em torno de seu primeiro livro, Pele Negra, Máscaras Brancas, escrito em 1952.

O destaque dado a esta publicação não foi gratuito, uma vez que os estudos anteriores sobre Fanon o vinculavam, frequentemente, aos debates relacionados às lutas de libertação do continente africano e à práxis revolucionária no terceiro mundo. Entretanto, a conjuntura teórica que Hall observava e, ao mesmo tempo, ajudava a forjar, oferecia um novo enquadramento àquilo que seriam consideradas as contribuições de Frantz Fanon: os debates sobre subjetividade, cultura e identificação.

Tendo tais diferenças de recepção em vista, o filósofo camaronês Achille Mbembe relata: “Se Os condenados da terra era o livro da época da práxis revolucionária, de Pele negra, máscaras brancas pode-se dizer que é um dos livros de cabeceira da viragem pós-colonial no pensamento contemporâneo” (2012). Alguns autores buscaram explicar essas diferentes recepções observando o interior da própria obra de Fanon, atribuindo-lhe uma cisão epistêmica fundamental.

Cedric Robinson, por exemplo, em seu e Appropriation of Frantz Fanon (1993), chegou a argumentar pela existência de um Fanon temporalmente cindido que teria – tal como o “jovem Marx” – “evoluído” das questões “pequeno-burguesas”, filosóficas, subjetivas e existenciais para uma reflexão “madura” que privilegia a práxis política como caminho para a emancipação (Op. cit.).

Em recusa a essa tese, Hall (Op. cit.) defende a existência de um elo teórico entre o conjunto de escritos e problematizações propostos por Fanon, mas para ele esse link se manifestaria na centralidade dos temas da subjetividade e dos complexos psíquicos provocados pela “epidermização” do olhar (HALL, 1996: 17). O pensador jamaicano visualiza ainda, na própria estrutura textual da obra fanoniana, uma ambiguidade que caracterizaria um “diálogo inter-relacionado e não concluído” entre Fanon, Césaire, Sartre e Hegel. Hall argumenta que essa ambiguidade de Fanon desviaria a dialética em uma direção distinta dos seus predecessores, a saber: a différance pós-estruturalista. Assim, segundo ele, o “tropo Senhor/Escravo” e as “circunvoluções hegelianas e sartreanas” que circundam o texto de Fanon importariam apenas na medida em que contextualizam a trajetória de vida do autor e não como chave analítica para a com- preensão do seu trabalho.

A biografia teórica oferecida nesse livro está em consonância com os apontamentos feito por Hall, mas, aqui, o link teórico identificado não se resume aos debates sobre a subjetividade, embora não possa prescindir deles (FAUSTINO, 2015). Como veremos, a premissa que orientou esse trabalho, como eixo estruturante do pensamento fanoniano, foi a sociogenia (sociogénie). Essa premissa pressupõe um sociodiagnóstico que conceba a subjetividade sempre em relação com os seus determinantes históricos e sociais:

Antes de abrir o dossiê, queremos dizer certas coisas. A análise que empreendemos é psicológica. No entanto, permanece evidente que a verdadeira desalienação do negro implica uma súbita tomada de consciência das realidades econômicas e sociais. Só há complexo de inferioridade após um duplo processo – inicialmente econômico – seguido pela interiorização, ou melhor, pela epidermização dessa inferioridade (FANON, 2008: 28).

A posição aqui assumida se aproxima de Silvia Wynter (1999; 2001) quando identifica no “sociogenic principle” o núcleo estruturante do estatuto teórico fanoniano; no argumento de Lewis Gordon (2015) a respeito do caráter abrangente da teoria fanoniana, abarcando os aspectos psicológicos, sociais e culturais; e na classificação de Fanon como oxímoro radical, oferecida por Ato Sekyi-Otu (1996). Para este último, o empreendimento de Fanon é marcado por uma dupla exigência: a preocupação em manter a tensão crítica em relação ao “drama absurdo” da condição colonial e as vicissitudes cristalinas do dilema humano que esse drama procura violentamente reprimir e usurpar e, por isso, a luta anticolonial, como ato político de rebelião, não se apresenta como o m da história e nem mesmo como retorno a alguma forma pretensamente original que tenha sido tolhida pela colonização, mas, sim, como abertura a novas possibilidades de solidariedade e autocompreensão.

Isso significa, ainda com Sekyi-Otu, que Fanon aponta, por um lado, para a defesa de uma dialética crítica que rejeita o essencialismo implícito no coletivismo forçado da raça e da nação e, por outro lado, recusa o universalismo abstrato próprio ao humanismo europeu para afirmar um novo humanismo, voltado à desracialização da experiência por meio da afirmação aberta e conjuntural de particularidades universais. É nesse sentido que Sekyi-Otu retoma o termo “oxímoro” empregado por Gramsci para descrever Maquiavel como um partidário do universal. Para Sekyi-Otu, Fanon, assim como Maquiavel, expressar-se-ia como “oxímoro radical” que aponta para a possibilidade de articulação dialética de interesses particulares e universais. Retomando Gordon (2015), pode-se acrescentar à lista de elementos articulados em Fanon as dimensões sociais, econômicas, culturais e subjetivas.

É verdade, como argumenta Hall (1996), que as preocupações psicanalíticas estão presentes em toda a reflexão fanoniana, expressando a sua originalidade e, ao mesmo tempo, a profundidade de sua abordagem. Entretanto, a articulação dessa dimensão a partir da perspectiva da sociogenia sugere serem os fatores sociais os elementos que tornam inteligíveis tanto a interdição (colonial) da dialética do reconhecimento quanto as possibilidades de superação dessa interdição. Ao mesmo tempo, sugere que essa superação não pode ser concebida sem a devida atenção aos aspectos culturais e subjetivos da existência humana.

Como veremos a seguir, as escolhas políticas, teóricas – e, por vezes, pessoais – de Fanon apontam para um esforço em dimensionar a complexidade da existência humana, sem, contudo, desconsiderar as expressões particulares que essa existência assume no tempo e no espaço socialmente dado (FAUSTINO, 2015). Não encontraremos um super-homem, no sentido hollywoodiano, e muito menos um sujeito miticamente atormentado por algum trauma edípico não revelado, mas apenas uma pessoa que procurou dar respostas aos desafios que a história lhe impôs, em uma época em que as respostas pareciam possíveis de serem dadas.

Para reconstruir a trajetória pessoal e política de Fanon, bem como para oferecer maiores subsídios para o entendimento dos contextos sobre os quais escreveu, foram utilizadas aqui as biografias e notas biográficas oferecidas por Pardo (1971), Geismar (1972), Gendizer (1974), Macey (2000), Faustino (2013, 2015), Ortiz (2014) e Gordon (2015). E, ao longo das reflexões, o leitor familiarizado com a literatura contemporânea a respeito de Fanon notará a influência de autores como Sekyi-Otu (1996), Gibson (1999), Henry (2000), Gordon (1995; 2015) e Silvério (1999; 2013) no enquadramento aqui oferecido.

Esse sucinto ensaio que ora apresento têm o objetivo de estimular a curiosidade e pesquisa a respeito da vida e obra de Frantz Fanon e fortalecer para o debate sobre a contribuição do pensamento de autore(a)s negro(a)s para o entendimento da sociedade contemporânea.

 

Título | Frantz Fanon – Um revolucionário, particularmente negro.
Autor | Deivison Mendes Faustino
Editora | Ciclo Contínuo Editorial
Páginas | 144
Ano | 2018
$43,00
ISBN | 978-85-68660-35-5

Link para compra: goo.gl/vE75Bb

 

[PRÉ-VENDA] FRANTZ FANON – UM REVOLUCIONÁRIO, PARTICULARMENTE NEGRO

[PRÉ-VENDA] FRANTZ FANON – UM REVOLUCIONÁRIO, PARTICULARMENTE NEGRO

Próximo lançamento da Ciclo Contínuo Editorial, o livro ‘FRANTZ FANON – UM REVOLUCIONÁRIO, PARTICULARMENTE NEGRO‘, de Deivison Mendes Faustino, já está em pré-venda! Reserve o seu exemplar!

PREVISÃO DE ENVIO: 13/05/2018

Link de compra: goo.gl/vE75Bb

“A potência deste conciso ensaio sobre a vida e o pensamento revolucionário de Frantz Fanon está, sem sombra de dúvidas, na extraordinária amplitude de estudos de Deivison Mendes Faustino, na clareza da apresentação e na sobriedade da análise. Este texto maravilhoso é um presente de grande valor não só para o Brasil, mas também para todo o mundo lusófono.” Lewis Gordon, autor de Wath Fanon Said

SOBRE O LIVRO | Há mais de cinco décadas de seu falecimento, Frantz Fanon, publicado em diversos países e analisado por destacados estudiosos do pensamento crítico contemporâneo, é, sem dúvidas, um dos intelectuais negros mais importantes do século XX, que atuou como psiquiatra, filósofo, cientista social e militante anti-colonial.

Sua obra influenciou movimentos políticos e teóricos em todo o mundo e suas reflexões seguem reverberando em nossos dias como referência obrigatória em diversos campos de estudo. Por isso, em Frantz Fanon – Um revolucionário, particularmente negro, Deivison Mendes Faustino apresenta a trajetória política e teórica de Fanon desde a sua infância na Martinica até a sua participação nos movimentos de libertação na África. Trata-se de uma rigorosa investigação, em que a obra do intelectual martinicano é revisitada com vistas à sua biografia, de forma a oferecer ao leitor brasileiro um panorama mais amplo a respeito do contexto e dos dilemas enfrentados por Fanon no momento de cada escrito seu.

O presente ensaio aqui apresentado é, nesse sentido, corolário de uma séria atividade intelectual e se constitui como uma fundamental contribuição para o debate sobre a presença do pensamento negro e sua resistência política e intelectual na sociedade contemporânea. Que seja este, portanto, um livro para ler e refletir.

SOBRE O AUTOR | Deivison Mendes Faustino, também  conhecido como Deivison Nkosi, possui doutorado em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos.É Professor Adjunto da Universidade Federal de São Paulo – Campus Baixada Santista, onde também atua como pesquisador do Núcleo Reflexos de Palmares e do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros – NEAB da UNIFESP e integrante do instituto Amma Psique e Negritude e do Grupo Kilombagem. Recebeu, em 2015, a Menção Honrosa do Prêmio CAPES pela tese intitulada Por que Fanon, por que agora? Franz Fanon e os fanonismos no Brasil.

Foto: Felipe Choco

Meu sonho é escrever: um brinde à Carolina como escritora – Fernanda Sousa

Meu sonho é escrever: um brinde à Carolina como escritora

Fernanda Sousa*

Cada vez mais conhecida pelo público brasileiro nos últimos anos, em especial pelo seu livro de maior sucesso, Quarto de Despejo: diário de uma favelada, publicado em 1960, Carolina Maria de Jesus tem despontado como uma das referências negras mais proeminentes e inspiradoras no cenário cultural e literário nacional, sobretudo no seio de movimentos, estudos e iniciativas tocadas por homens e mulheres negras. Nascida no dia 14 de março de 1914, na cidade de Sacramento, no interior de Minas Gerais, a trajetória de Carolina é marcada por inúmeras dificuldades materiais e experiências de racismo, comuns à população negra no contexto pós-abolição e ainda hoje.

No entanto, de modo insólito aos olhos e às expectativas da sociedade brasileira em relação aos indivíduos negrosi, Carolina consegue se fazer e se tornar escritora, tornando-se um fenômeno nacional e internacional com a publicação de Quarto de despejo, tendo sua imagem divulgada e espetacularizada como a “favelada” que escrevia. Foi com essa expressão que sua principal obra veio a público e que continua sendo bastante empregada para se referir a ela, subsumindo suas complexas facetas artísticas a um termo com o qual ela nunca se identificou, uma vez que Carolina se via, acima de tudo, como “poetisa”ii. Admirada, de um lado, pela sua trajetória inspiradora, que nos deixa curiosos e desejosos de saber mais sobre sua vida e, de outro, reduzida a uma espécie de olhar exotificante, que sublinha sua origem social e sua identidade racial como diferença absoluta, seu trabalho literário é, muitas vezes, obscurecido, e perdemos de vista a escritora Carolina, isto é, deixamos de efetivamente mergulhar nos seus textos e de conhecê-la a partir do que ela criou, reinventou e formalizou em seus tantos cadernos, onde costumava escrever.

É por esta e tantas outras razões que o lançamento do livro Meu sonho é escrever – Contos inéditos e outros escritosiii, pela Ciclo Contínuo Editorial, merece ser saudado como um acontecimento que confere a Carolina, mais do que nunca, o lugar de escritora, principalmente pelo trabalho cuidadoso de organização, preparação e revisão dos textos. Fruto de uma extensa pesquisa de Raffaella Fernandeziv, organizadora da obra, Meu sonho é escrever reúne contos inéditos e outros escritos da autora, reveladores da criatividade, do senso crítico e da inteligência de uma figura que manejava a linguagem em toda sua potência, borrando as fronteiras entre os gêneros literários e tendo a experiência como ponto de partida para a criação literária. Esta, por sua vez, se faz presente nessa obra de um modo tão fascinante e complexo que torna difícil pensar sua escrita como resultado de mera espontaneidade, ou seja, como se Carolina escrevesse impulsivamente, sem planejar e depurar seus textos. Não à toa, saltam aos olhos as inúmeras figuras de linguagem, o vasto vocabulário, os enredos e desenredos tecidos por por ela nos que textos que compõem esse livro, dando forma literária a um emaranhado de ações, memórias, experiências, sonhos, discursos, fatos e personagens, sejam reais ou não.

O livro apresenta uma Carolina com sua conhecida verve crítica, ainda tão atual, ao dizer que “é horrível conviver com o homem da atualidade, que está se desumanizando. É impiedoso e, quando se finge protetor de alguém, é visando interesse próprio”, mas que convive, de modo ambivalente, com sua fé e esperança no ser humano como alguém que tem o dever de “polir o caráter”, afirmando que “a maior superioridade nesse mundo é ser amável e proporcionar uns momentos de alegria aos nossos semelhantes”. Esses dizeres que, num primeiro momento, podem parecer ingênuos, são acompanhados por uma Carolina que pensa nos problemas do país e propõe soluções que vão desde reformas no campo e na cidade à defesa de trabalho e salário dignos, em um país que, segundo ela, “ainda está engatinhando, deitado eternamente em berço esplêndido”, liderado por homens que deixam muito a desejar. Por isso, ela afirma: “Se as mulheres governassem não fariam um governo abstrato. O nosso governo seria concreto porque o mundo governado pelos homens está decepcionando”.

Destacam-se também as memórias e as experiências da escritora, reconstruídas com contornos ficcionais de modo extremamente sensível e poético, nos aproximando, por exemplo, de sua infância, de sua primeira experiência de leitura, do início da sua paixão pelos livros, de sua autodescoberta como “poetisa”, de seu avô, conhecido como Sócrates africano, de suas tias, tios e primos, em textos que acionam nossa memória afetiva e nos permitem lembrar de tantas outras histórias familiares parecidas com as quais ela conta, principalmente quando se trata de famílias negras. Nesse aspecto, “Minha madrinha”, “Tia Geronima” e “Sócrates africano” são textos que se sobressaem no que diz respeito a uma dimensão memorialista, pois neles desfilam lembranças sinestésicas da escritora em torno de acontecimentos que, ao olhar de muitos, podem parecer simples e destituídos de importância, mas para ela transbordam de significados: a primeira vez que comeu banana frita com canela e sardinha com pão; o primeiro vestido que ganhara de presente; a madrinha que trançava e penteava seus cabelos e de quem pedia “bença” constantemente; o avô que, no leito de morte e no alto de seu caráter ilibado, pediu para os filhos pagarem uma dívida que tinha; a tia que só tinha uma panela e, por isso, despertava as três horas da madrugada para começar a preparar a comida. Estes são alguns de tantos outros eventos e experiências que a escritora reconstitui a partir de uma dicção que conjuga o olhar dela como criança com o seu olhar de uma mulher mais velha, promovendo um encontro de temporalidades que figura como um espelho no qual podemos enxergar também vivências e memórias de nossos pais, mães, avós, avôs, bisavós, bisavôs, tias e tios.

Em relação aos contos, “Onde estás, Felicidade?” aparece como um exemplo emblemático da inventividade de Carolina como escritora ao conceber uma história que não deixa a desejar em termos de caracterização de tempo, lugar, espaço e personagem, nos brindando com um bonito, profundamente humano e, ao mesmo tempo, dramático, (des)encontro amoroso, cujo desfecho nos emociona de um modo visceralmente ligado à ambiguidade do título do conto e que nos permite aproximá-lo ao famoso conto “Sôroco, sua mãe, sua filha”, de João Guimarães Rosa, ao tematizar questões como perda, abandono, solidão e loucura. Vale a pena citar o início, em que Carolina descreve graciosamente os personagens principais:

Não existe neste mundo quem não acalenta um sonho intimamente. Quem não aspire possuir algo que lhe proporcione uma existência isenta de sacrifícios. E o José dos Anjos era mesmo angelical nos modos de falar e tratar o próximo. Era piedoso. Antes de tomar uma resolução refletia profundamente. Um dia, ele viu a Maria da Felicidade e ficou cativo dos seus encantos. Ela era esbelta, com uns olhos negros e ovais, os cílios longos e arqueados, a boca pequena e os dentes níveos e retos. Foi na festa de Santo Antônio que eles dançaram ao redor da fogueira. Ela era a mais graciosa aos olhos de Jose dós Anjos.

Este é apenas um excerto dos tantos contos e outros escritos que compõe Meu sonho é escrever, um convite a uma experiência de leitura que nos permite conhecer as diferentes facetas e talentos de Carolina Maria de Jesus como escritora. Ela, com seu repertório imenso de leituras, suas visões de mundo e suas experiências, nos provoca, nos faz refletir, nos faz rir – há uma parte no livro chamada “Humorismos”, em que Carolina faz graça e nos desperta boas risadas –, nos faz chorar e, acima de tudo, nos torna mais humanos ao abordar e representar, em tantos momentos, as nossas limitações e fragilidades, mas sem deixar de acreditar no ideal como “combustível do corpo humano que impulsiona o nosso espírito a lutar”. Carolina, nos mais de quarenta textos e excertos que fazem parte do livro, se revela como uma hábil escritora, que aborda diferentes temas e vai muito além de uma “favelada” que escreveu sobre a favela ao fazer da literatura uma “nova possibilidade de existir” já que, com o fim da escravidão, “o negro passou de um modo de vida a outro, mas não de uma vida a outra”, como afirma Frantz Fanonv. Carolina, com seu sonho e ideal de ser escritora, realizado nas tantas histórias presentes em Meu sonho é escrever, nos ajuda a seguir sonhando com outra vida, mesmo quando “não há coisa pior na vida do que a própria vida”.vi

i Ver mais em: SILVA, Mário Augusto Medeiros. A descoberta do insólito: literatura negra e literatura periférica no Brasil (1960-2000). Rio de Janeiro: Aeroplano, 2013.

ii Ver mais em: MIRANDA, Fernanda Rodrigues de. Os caminhos literários de Carolina Maria de Jesus: experiência marginal e construção estética. São Paulo, 2013. Dissertação de Mestrado – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo.

iii JESUS, Carolina Maria de. Meu sonho é escrever – Contos inéditos e outros escritos. São Paulo: Ciclo Contínuo Editorial, 2018.

iv Ver mais em: FERNANDEZ, Raffaella A. Processo criativo nos manuscritos do espólio literário de Carolina Maria de Jesus. Campinas, 2015. Tese (Doutorado em Teoria e História Literária) – Universidade Estadual de Campinas.

v FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: UFBA, 2008.

vi JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. 8ª ed. São Paulo: Ática, 2004.

Disponível na PRÉ-VENDA: https://goo.gl/To6EcZ

___________________________________

Fernanda Sousa é professora, revisora, bacharela em Letras e mestranda em Teoria Literária e Literatura Comparada na Universidade de São Paulo, onde desenvolve uma pesquisa comparativa em torno dos diários de Lima Barreto e de Carolina Maria de Jesus a partir da noção de negro drama.

 

 

A escritora Heloisa Pires Lima recomenda o livro “No reino da Carapinha”, de Fausto Antonio

 

 

No Reino da Carapinha – uma apresentação

Heloisa Pires Lima

A sociedade brasileira demorou um tanto para integrar personagens negros nas bibliotecas dirigidas ao jovem leitor. Esta ausência ou presença auxilia na percepção positiva ou negativa acerca da origem africana e suas descendências ao longo de nossas histórias. Afinal, o modelo de humanidade que habita a ficção é um mediador para como a realidade é percebida. Nesta perspectiva, o livro No Reino da Carapinha assinado por Fausto Antônio oferece elementos de muita qualidade para o Imaginário dessa faixa etária em formação. O humor será uma estratégia a desafiar curiosos irrequietos. Também as imagens poéticas cativam. Mas, a qualidade singular do projeto está na arquitetura que alude outro clássico, o reino das águas claras de M. Lobato. Porém, da interlocução muito bem realizada, resulta o alto valor das carapinhas. Como um o da navalha, preciso no corte de nada aquém e nada além, Fausto Antônio inverte a posição desprestigiada dos personagens negros, tão marcada nas obras do escritor consagrado. Desta vez, o reino, ou aldeia ou república vai deixando pistas que referem figuras ou acontecimentos históricos relacionados à população negra. Esta passagem entre informar, aludir e encaixar a referência na fluidez do texto têm, da mesma forma, muito acerto. Sobretudo, por não recair no didatismo que interrompe a fantasia. Trata-se de uma aventura bem estruturada e dimensionada em aspectos filosóficos, linguísticos, históricos. Porém, com a singeleza e a alegria de um texto delicioso. Fisgado pela trama o leitor irá conhecer o nome do personagem só quando ele entrar na história. E se divertirá com a hábil sonoridade executado na pena do tin tin por tin tin.

E nada mais atual do que o assunto das carapinhas. Tema representativo da inversão cultural necessária à eliminação de racismos naturalizados é quando o ponto de virada da vulnerabilidade empodera o sentimento de pertencimento. Há uma demanda alta por materiais de apoio à questão. E como é importante a garantia de escritore(a)s negros estarem nas estantes para serem descobertos para uma leitura. As tão negras carapinhas vão revelando um ponto de vista existencial e original nessa autoria. A cartografia a dos nomes e fatos que aparecem no enredo poderá ser reconhecida pela comunidade negra ou por quem a conhece muito bem. Por isso, este autor se torna um memorialista que refaz o elo entre gerações. Talvez, a obra tenha nascido pressupondo um momento de narrar, de ler para os mais novos abrindo conversas sobre as passagens citadas. Todavia, isto não é imprescindível para quem adentrar nesse reino tão especial. A obra poderá ser lida e relida muitas vezes e por toda a vida, pois já nasce clássica. Portanto, recomendo, vivamente, a sua leitura.

____________________

Heloisa Pires Lima é antropóloga, autora de inúmeros títulos para crianças e adolescentes, dentre outros, Histórias da Preta Cia das Letrinhas, 1998) e Capulana, o pano estampado de histórias (Scipione, 2015).

Foto | Nabor Jr.