Oswaldo de Camargo, um breve perfil biográfico | Flávio Carrança

Foto | Avelino Regicida

Oswaldo de Camargo: elo entre gerações

Flávio Carrança*

Questão de circunstância, de acaso, é a explicação que Oswaldo de Camargo dá para o fato de ser visto por muitos autores negros mais jovens do que ele como um elo entre as gerações. E, acrescenta, com sua modéstia habitual, que talvez isso se deva também ao fato de ter sobrevivido em relação a vários de seus companheiros de lida literária, já falecidos: “Muita gente vai antes do tempo. Eu não morri, segui escrevendo, comparecendo e informando, enquanto vários de meus companheiros se transfiguraram em lembrança… Que eu podia fazer?“, explica, sobre esse epíteto, em entrevista concedida a Thiara de Filippo1. Outro estudioso da literatura negra, Luiz Silva, o Cuti, diz que Camargo

no contexto estritamente literário, é o mais importante elo de gerações (grifo meu), pois sua dedicação à vertente negro-brasileira tem se dado não só pela acolhida aos jovens autores como também pela elaboração de ensaios, palestras acerca do assunto, prefácios, organização de antologias, livros histórico-literários, além da obra em prosa e verso.”2

A primeira obra publicada por Oswaldo de Camargo foi o livro de poesias Um Homem Tenta ser Anjo, de 1959. Depois desse, em 1961, vem 15 Poemas Negros, seguido de O Carro do Êxito: contos, de 1972, e da novela A Descoberta do Frio, de 1979. Também merecem destaque a organização de A Razão da Chama: Antologia de Poetas Negros Brasileiros, de 1986, e O Negro Escrito: Apontamentos Sobre a Presença do Negro na Literatura Brasileira, de 1987, que inclui uma antologia com textos de diversos autores; e, ainda, Solano Trindade, Poeta do Povo – Aproximações, de 2009. No ano seguinte, participa da coletânea Paula Brito: Editor, Poeta e Artífice das Letras, publicada pela Edusp, da qual foi o idealizador. Somam-se a esses títulos inúmeras participações em coletâneas, revistas e outras publicações, além do relançamento de A Descoberta do Frio pela Ateliê Editorial em 2011.

Mas, para entender um pouco melhor como se construiu esse escritor negro brasileiro, vamos voltar ao século passado, mais precisamente em 1936, na cidade de Bragança Paulista, quando e onde nasceu Oswaldo de Camargo. Filho de lavradores muito pobres, ficou órfão quando ainda era criança. Por conta disso, passou três anos no Preventório Imaculada Conceição, em Bragança, e outros dois anos em Poá, município situado a 34 quilômetros da capital e hoje integrado à Grande São Paulo. Ali, no Reino da Garotada Dom Bosco de Poá – dirigido pelo padre holandês Simão Switzar -, foi onde começou a desenvolver o gosto pela leitura, mergulhando em romances infanto-juvenis, como Genoveva, Duquesa de Brabante e Tom PLayfair. Com 13 anos, entrou no Seminário Menor Nossa Senhora da Paz, em São José do Rio Preto (SP), onde aos 16 anos começou a escrever.

Oswaldo de Camargo com 10 anos de idade. Praça da República, 1946.

No seminário, leu Casimiro de Abreu, Castro Alves, Gonçalves Dias e Cruz e Sousa em livros didáticos ou paradidáticos, como a Antologia Nacional, de Carlos de Laet e Fausto Barreto e também O Português Prático, do professor Marques da Cruz, além de Páginas Floridas, de Silveira Bueno. “É bom lembrar que nesse tempo existia ainda – diz em entrevista a Eduardo de Assis Duarte – um parnasianismo tardio, que ditava as regras do bem escrever. No meu caso, o que eu fazia (tenho até hoje guardadas essas páginas) era copiar os poemas que me interessavam. Porque no Seminário em que estudei não nos permitiam ler nenhum poeta por inteiro. Havia veto aos poetas, possivelmente porque eram insinuadores de sensualidade”3.

Oswaldo avalia que, na verdade, o fato de o Seminário ter vedado a leitura das obras completas dos poetas acabou sendo bom, pois lhe deu mais “gana” de ler e o levou à disciplina:

Primeiro os poetas; depois os prosadores. Eu não misturei escolas. Egresso do Seminário, me nutri literariamente dos românticos – Castro Alves, Casimiro de Abreu, Fagundes Varela; dos parnasianos – Olavo Bilac, Alberto de Oliveira, Raimundo Correia; simbolistas – Cruz e Sousa inteiro, Alphonsus de Guimarães. Depois, em livros de minha propriedade ou emprestados, Drummond e outros modernistas.”4

Passado esse período de iniciação literária, entre os 16 e os 18 anos de idade, Oswaldo enfrenta uma crise, em parte desencadeada pelo ingresso na adolescência, mas causada, principalmente, pelo racismo. É o momento em que resolve sair do Seminário. Antes disso, no entanto, estava convicto de que tinha uma real vocação para o sacerdócio, e o padre Miguel Switzar, irmão de Padre Simão, aquele de Poá, começou a procurar um Seminário para ele prosseguir os estudos eclesiásticos. Mas as instituições consultadas não abriram as portas:

Não era questão de aproveitar o status dado pelo conhecimento de latim, francês, grego, conhecimentos de canto e música, como acontecia com tantos meninos do meu tempo. No meu caso, não era. Eu acreditava que tinha vocação; os padres que me educaram no Seminário em Rio Preto também acreditavam. E a noção de que existia, sim, preconceito na sociedade brasileira mostrou-se clara para mim nos meus 16 anos, idade em que comecei a escrever.”5

Nessa época, entra em profundo estado de melancolia, talvez mesmo depressão, mas produz, às vezes, dois ou mais textos em versos por dia, exercitando-se na técnica do soneto, com a necessária chave de ouro e tudo o mais: “Foi uma iluminação na minha vida de adolescente negro e pobre. E, naquele ano luminoso, tive a sorte excepcional de começar a estudar harmônio, um tipo de órgão pequeno, com palhetas em lugar de tubos”6. Aos 17 anos, tocava muitas vezes esse instrumento na catedral de São José do Rio Preto. O fato de ter se tornado um organista explica por que, em alguns contos que escreveu, aparecem situações envolvidas com a música, até no título, como se verifica em “Oboé”, de O Carro do Êxito. “A música que estudei, e continuo estudando, me tornou receptivo a algumas obras, como A Montanha Mágica, de Thomas Mann, em que há uma passagem famosa que se refere à importância política da música, da qual transponho um pequeno trecho para meu conto Oboé”. 7

Em 1954, aos 18 anos, frustrada a vocação eclesiástica, Oswaldo vem para a capital do Estado tentar uma vida nova. Já havia escrito um caderno de versos denominado “Vozes da Montanha”, com poemas em que usava a métrica de redondilha maior ou menor (versos de 5 ou 7 sílabas) ou sonetos, que mantém guardado até hoje por mera lembrança, mas que poderia ter sido seu primeiro livro. Depois de várias andanças à procura de emprego, resolve tentar a sorte no jornal O Estado de S. Paulo. Aproximou-se da família Mesquita, à época proprietária do jornal, devido ao fato de sua madrinha, Maria Esther Silva, prima de sua mãe, ser, havia já alguns anos, empregada na casa de dona Alice Vieira de Carvalho Mesquita, mãe de Luiz e de José Mesquita, diretores do grande jornal. Faz, no entanto, questão de esclarecer não ter sido muito beneficiado por esse laço. Conta que foi submetido a um rigoroso teste de português e passou. Em 1955, com 19 anos, começa a trabalhar como revisor, cargo de prestígio na época, porta de entrada para a redação do maior jornal do país, ainda funcionando no velho prédio da rua Major Quedinho.

Quando está na revisão do Estadão, em 1959, publica seu primeiro livro de poemas, chamado Um Homem Tenta Ser Anjo, bem acolhido pela crítica. Thiara Vasconcellos de Filippo8 afirma que a precariedade da vida e o mito da “queda do homem” são referências constantes a envolver toda a obra, prefaciada por José Pedro Galvão de Souza, naquele tempo professor de Ética na PUC. “Em Um Homem Tenta Ser Anjo – escreve a pesquisadora – predominam os sentimentos de angústia e desalento, solidão e desamparo, e podem-se notar tanto a sua formação católica quanto os diálogos estabelecidos com Rainer Maria Rilke e Augusto Frederico Schmidt.” Em artigo publicado no livro Reflexões Sobre a Literatura Afro-brasileira (Quilombhoje, 1985), Cuti detecta na obra uma visão fatalista da história: “(…) Achar que Deus nos esqueceu é um desencanto que a religiosidade, sobretudo católica, nos legou diante da exploração do homem sobre o homem. Oswaldo de Camargo no seu livro de estreia (…) mostra, em meio a versos, uma forte tentativa de atingir o céu da sublimação que:

Ser anjo, em verdade, é coisa triste…

Pesa o corpo, Senhor, e cada nuvem

é inimiga chovendo exaustão…

Tédio grosso pingando em minha testa,

por pensar que o céu é tão distante…9

Em 1961, lança 15 Poemas Negros, livro que, segundo Thiara Vasconcelos, não se diferencia muito do anterior, uma vez que também se caracteriza pela presença marcante dos valores católicos, sobretudo da ideia da salvação da alma por meio do sofrimento da carne. “No entanto – alerta a autora – distancia-se de Um Homem Tenta Ser Anjo no que diz respeito à sua proposta, revelada no título. Em 15 Poemas Negros, introduz a reflexão que irá nortear toda a sua produção posterior, sobre o significado de ser negro em uma sociedade que nega a marginalização ao disseminar o mito da “democracia racial”. No prefácio, Florestan Fernandes destaca a ligação espiritual com os ancestrais africanos escravizados, manifestada em alguns de seus versos:

Dê-me a mão.

Meu coração pode mover o mundo

com uma pulsação…

Eu tenho dentro em mim anseio e glória

que roubaram a meus pais.

Meu coração pode mover o mundo,

porque é o mesmo coração dos congos,

bantos e outros desgraçados,

é o mesmo.

No Estadão, ganhava salário acima da média em outros jornais e tinha contato com intelectuais e artistas que frequentavam o jornal. Aproximou-se de “modernos” como Guilherme de Almeida, Sérgio Milliet, Domingos Carvalho da Silva, Luiz Martins (cronista), Paulo Bomfim, Ruy Apocalipse, Lygia Fagundes Telles, Hilda Hilst… No escritório de sua casa, no bairro de Lauzane Paulista, exibe com orgulho seus retratos feitos por Darcy Penteado e Clóvis Graciano. Declamava versos no programa A Hora do Livro, da Rádio Gazeta, dirigido pelo intelectual e radialista Fernando Soares. Nessa mesma época, com 22 anos, começa a frequentar o meio negro da capital e ingressa na Associação Cultural do Negro (ACN), onde conhece figuras como o poeta Solano Trindade, o escritor Fernando Góes, o tenente Rosário, pai de Theodosina Ribeiro, Henrique Cunha e o jornalista José Correia Leite, figura ímpar para a história da Imprensa Negra. Estes dois últimos, Henrique Cunha e Correia Leite, eram remanescentes da geração que construiu a Frente Negra Brasileira. Conhece também intelectuais brancos que frequentavam aquele espaço em alguns momentos, como Afonso Schimdt, autor do romance abolicionista A Marcha, a Colombina (Yde Schloenbach Blumenschein), fundadora da Casa do Poeta, um reduto romântico e parnasiano, além de conhecer Florestan Fernandes e Henrique L. Alves.

Inicia, nessa época, sua colaboração com a Imprensa Negra, no jornal O Novo Horizonte, onde se torna redator-chefe. Ainda nesse período, colabora com Mutirão, jornal fundado em 1959; com Niger, revista que surge entre 1959 e 1960; e com Ébano, de 1961. Com 23 anos, torna-se diretor de cultura da ACN, organizando saraus literários, criando um coral que se apresenta não só em São Paulo, mas também em várias cidades do interior paulista. No entanto, todas as noites, às 22 horas, tinha que estar no Estadão para o seu trabalho de revisor.

Arrisco um palpite: aquele rapaz magro, de óculos, certamente bem vestido e cortês, que estudara e foi muito bem recebido no meio negro paulistano, tornando-se presença constante em saraus e em reuniões, nas quais recitava suas poesias, além de conhecer literatura e música clássica, ter um bom emprego, sendo respeitado pela elite intelectual branca, encarnava um ideal de “bom moço negro” que habitava o imaginário de homens e mulheres da intelectualidade afrodescendente, em grande parte voltada para uma integração harmônica do negro na sociedade brasileira.

Como se percebe, sua vida cultural não se restringe ao meio negro. No final da década de 1950, frequenta também, assiduamente, o saguão da Biblioteca Municipal Mário de Andrade e os bares próximos, pontos de encontro de uma juventude intelectualizada – em grande parte candidatos a escritores e escritoras – que discutia literatura, chegando mesmo, em 1962, a organizar um movimento literário de breve duração, o Desagregacionismo, que tinha a pouco modesta pretensão, natural da juventude, de “revolucionar” a poesia do modernismo brasileiro. “Nessa época, entre os dois primeiros livros – conta Oswaldo – estou lendo bastante teoria, como O Amador de Poemas, de Péricles Eugênio da Silva Ramos, que foi grande influência na minha vida. E também Cartas a um Jovem Poeta, de Rilke, leitura obrigatória dos poetas que se reuniam no saguão da biblioteca municipal”.

Oswaldo de Camargo na Associação Cultural do Negro, 1959.

É nesse contexto que Oswaldo de Camargo se torna um poeta brasileiro assumidamente negro, que sofre influências de Drummond, Bandeira, Sá-Carneiro, Fernando Pessoa, Rilke e, arrisco-me a dizer, o primeiro modernista da poesia negra do país, um poeta que já não faz mais da rima “a salvação da seara poética”, como diz Drummond. Usa verso livre, verso branco, sim, mas em termos. Oswaldo, na verdade, segue os paradigmas da Geração de 45, que tem suas maiores expressões em Péricles Eugênio da Silva Ramos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari:

É uma reação contra a forma de Mário de Andrade. A Geração de 45 vai trabalhar com extremo esmero a forma (seus integrantes chegam a ser tachados de neoparnasianos). Eu estou, como ideário poético, nesse grupo que se contrapõe a um certo relaxamento do pessoal de 22, usado para enfrentar o Parnasianismo de Olavo Bilac, ‘ourives da forma’.”

Interessante observar que o tema do “elo”, que dá título a este texto, ressurge em O Negro Escrito (1987), quando Oswaldo de Camargo analisa o lugar de sua própria produção na história da poesia negra brasileira: “Elo – por uma questão cronológica – necessário para a ‘Nova Poesia Negra’, que para nós começa a partir de Oliveira Silveira, é a nossa produção. Elo apenas. Por termos estreado já em 1959, nos consideramos um ‘antigo’. Para alguns críticos, somos ‘novíssimos’ da Geração de 45, ao lado de Lindolph Bell, Ruth Maria Chaves, Lélia Coelho Frota, Fernando Py, Hermínio Bello de Carvalho, Afonso Romano de Santana”10.

É também nessa época que começa a voltar os olhos para a prosa. Já tinha bom conhecimento do romantismo e dos poetas do simbolismo, passando a ler os prosadores lá pelos 24 anos de idade. Devora não só os autores brasileiros como Adonias Filho e Gerardo de Mello Mourão, mas também os mais citados no meio jovem que frequentava, como Hermann Hesse, de O Lobo da Estepe, e Thomas Mann, de A Montanha Mágica. A partir daí, era natural que tentasse a prosa. Depois de algumas frustrações, o primeiro texto que deu certo foi o conto “Civilização”, que teve até agora o maior número de traduções entre tudo o que escreveu neste gênero. Ele revela ter escrito “Civilização” quase com um ímpeto poético. Foi esse texto que abriu caminho para a elaboração dos outros contos, que formariam O Carro do Êxito. Vale um pequeno tira-gosto:

Subi na “Neurotic’s House”, porque Fred foi com a minha cara. Foi, pousou a mão no meu ombro, falou logo:

Gostei de você, preto, gostei mesmo…

O mundo bravo comigo, o desencanto reinava na minha vida. Exemplo: o maestro Borino, que me alugara o quarto, me enxotou e largou nos meus ouvidos umas palavras, com jeito sofrido, mas largou:

Assim não dá, Paulinho, a gente quer ajudar, mas vocês…

Aí está, vocês, pretos, pessoal de côr… Se traiu o maestro, claro, se traiu. (…)

Conhecemos até agora um pouco da formação do poeta e do prosador, mas o ensaísta se amplifica, sobretudo a partir de 1975, quando Oswaldo sai da revisão e passa a editar a seção São Paulo Pergunta, do Jornal da Tarde (JT). Ao mesmo tempo, também tem como cargo fazer a revisão e preparação dos textos dos jornalistas e escritores que publicam na página 4, entre eles Luiz Carlos Lisboa e Frederico Branco. Vale lembrar que a página 4 era a página do patrão, Ruy Mesquita: “Isso me pôs em um corpo a corpo maior com o texto. Podia conversar com os autores, colocando os problemas que detectava“. Começa, também, nesse período, a escrever resenhas para o JT, em que sua face de ensaísta se mostra mais nitidamente. Privilegia a presença negra no jornal conservador ao falar de personagens como Dom Silvério Gomes Pimenta, primeiro bispo de Mariana, Cruz e Sousa, Lino Guedes, José Correia Leite, tratando de eventos que envolvem o negro com a literatura, como a página inteira sobre o Perfil da Literatura Negra, em 1987, ao mesmo tempo em que apura o estilo e a profundidade, chegando a fazer uma resenha do Dicionário de Música, obra póstuma de Mário de Andrade.

Na década de 1970, desenvolve grande atividade. Além das resenhas e artigos de crítica literária que escreve para o JT, colabora com o jornal da Imprensa Negra O Quadro, fundado em 1974, e participa da Antologia dos Poetas da Cacimba (1976), da primeira edição dos Cadernos Negros (1978), ano em que também escreve a introdução de Memória da Noite, livro de estreia de Abelardo Rodrigues. Em 1979, lança a novela A Descoberta do Frio, reeditada em 2011 pela Ateliê Editorial. No prefácio, o grande estudioso da questão racial no Brasil, Clóvis Moura, classifica o livro como desconcertante e explica:

Oswaldo de Camargo procura, com muita habilidade, usar de um elemento – o frio – como contraponto dramático e simbólico de toda a obra. Em determinado momento um personagem aparece com frio. Esse frio não é apenas um fenômeno meteorológico, mas um elemento que o autor aproveita para poder desenvolver o seu recado e articular a sua trama. Um negro com frio. Mas, esse frio não vem apenas da atmosfera – outros não o sentem -, porém de uma situação existencial e social.”

Aqui talvez seja um bom momento para falar de outra característica desse escritor bragantino, que é a constante reelaboração dos textos publicados. Na orelha da nova edição de A Descoberta do Frio, Eduardo de Assis Duarte nos informa que “cotejando-se essa edição com a publicada em 1979 (que teve tiragem mínima, mal chegou às livrarias), ressalta-se, diante de quem leu a primeira, o trabalho fundo de reformulação, acréscimos e novas reflexões trazidas às páginas da nova versão.” De acordo com o pesquisador, na primeira edição, o “frio” cobriu-se de diferentes camadas “e uma explicação surge, polêmica, para justificar por que ele chegou solto, fácil, ao território negro “. Na nova edição, no entanto, segundo Assis Duarte, o “frio” ganha também feição de personagem, a Indiferença, “que pode abraçar brancos e negros”.

Outro exemplo de reelaboração está no poema “Em maio”, presente em O Estranho, muito declamado pelos jovens do grupo Quilombhoje por fazer crítica ao 13 de maio da Princesa Isabel:

Já não há mais razão para chamar as lembranças
e mostrá-las ao povo
em maio.
Em maio sopram ventos desatados
por mãos de mando, turvam o sentido
do que sonhamos.
Em maio uma tal senhora Liberdade se alvoroça
e desce às praças das bocas entreabertas
e começa:
“Outrora, nas senzalas, os senhores…”
Mas a Liberdade que desce à praça
nos meados de maio,
pedindo rumores,
é uma senhora esquálida, seca, desvalida,
e nada sabe de nossa vida.
A Liberdade que sei é uma menina sem jeito,
vem montada no ombro dos moleques
ou se esconde
no peito, em fogo, dos que jamais irão
à praça.
Na praça estão os fracos, os velhos, os decadentes
e seu grito: “Ó bendita Liberdade!”
E ela sorri e se orgulha, de verdade,
do muito que tem feito!

Na nova versão, Oswaldo alterou três versos finais do seu poema, talvez agora considerados um pouco pesados ou mesmo grosseiros:

Na praça, a Esperança se encolhe

ante o grito “Ó bendita Liberdade!”

E esta sorri, e se orgulha, de verdade,

do muito que tem feito…

Vamos permanecer um pouco mais nessa década tão importante, que marca uma inflexão na linha de desenvolvimento das relações raciais no país. É nesse momento que o papel de elo entre gerações, atribuído a Oswaldo, mostra toda sua importância. No mesmo quadro de efervescência que levou à construção do Movimento Negro Unificado (MNU), surge, principalmente em São Paulo, uma nova geração de escritores negros que se aglutinam em torno do grupo Quilombhoje. Durante o ano de 1978, existiu, em São Paulo, no bairro do Bexiga, o Centro de Cultura e Arte Negra (CECAN), onde se reuniam pessoas ligadas às letras, entre as quais o poeta Cuti e o advogado Hugo Ferreira que, juntos, decidiram lançar os Cadernos Negros, pequenas coletâneas de poemas.

Paralelamente, Cuti participava de um grupo formado por Oswaldo de Camargo, Abelardo Rodrigues, Jorge Lescano e o falecido poeta Paulo Colina, que se reunia no bar Mutamba, no centro de São Paulo, para discutir literatura e que, por volta de 1980, resolveu batizar-se Quilombhoje. O grupo assumiu a publicação dos Cadernos Negros, recebeu adesões, mas, em seguida, sofreu uma ruptura, com a saída de Camargo, Colina e Abelardo, que criticavam principalmente a qualidade do material publicado: “Essa literatura que o negro produz surge exatamente das experiências particulares dele, mas tem de ser sancionada por um texto literário”, afirmou certa vez Oswaldo em entrevista a este repórter.

Os Cadernos Negros, no entanto, prosseguiriam, agora com Cuti, Abílio Ferreira, Sônia Fátima Conceição, Miriam Alves, Jamu Minka, Oubi Inaê Kibuko, Esmeralda Ribeiro e Márcio Barbosa. Na avaliação de Oswaldo de Camargo, a formação do Quilombhoje, sobretudo depois do surgimento dos Cadernos Negros, foi uma experiência necessária para que se formasse um coletivo que tornou possível reunir – como acontece até hoje – autores de todos os cantos do país, definindo um método de trabalho que deixou mapeada a maneira de escrever do negro, suas temáticas e suas buscas.

Outro episódio que reforça a característica de elo entre gerações de Oswaldo de Camargo, neste caso no âmbito do jornalismo, é a criação do “Caderno Afro-Latino-América”, no jornal Versus, da chamada imprensa alternativa, que se opunha à ditadura militar. Quando criou a publicação, em 1975, o jornalista Marcos Faerman trabalhava no Jornal da Tarde e era amigo de Oswaldo. Quando a equipe, que dirigia a publicação, resolveu tomar a iniciativa de criar uma seção dedicada à questão do negro, Faerman perguntou a Oswaldo se ele poderia chamar algumas pessoas que pudessem colaborar. Foi a partir daí que entraram em Versus jornalistas e intelectuais negros, como Neusa Pereira, Hamilton Cardoso, Jamu Minka, Tânia Regina Pinto e Wanderley José Maria.

A vida segue e, em 1984, Oswaldo publica novo volume de poesias, O Estranho, no qual, segundo ele, se nota muito mais a presença dos processos da Geração de 45. Thiara Vasconcelos afirma que essa obra é centralizada na tentativa de entender a experiência ambivalente do pertencimento a dois universos culturais, enquanto Zilá Bernd identifica a “experiência do exílio no interior de si próprio e do próprio país”, como fio condutor da obra. O poema Escolha faz parte do volume:

Eu tenho a alma voando

no encalço de uma ave cega:

Se escolho o rumo do escuro

me apoio à sombra do muro

pousado na minha testa.

Se elejo o rumo da alvura

falseio os passos da vida

e me descubro gritando

um grito que não é meu.

A antologia A Razão da Chama sai do prelo em 1986, com uma epígrafe na qual se utiliza do pseudônimo Benedito Antunes: “Eu tenho na minh’alma a angústia de todas as raças. Só há um pormenor: sou um negro”. Justificando plenamente o subtítulo Antologia de Poetas Negros Brasileiros, a obra mostra a linha evolutiva de uma escrita sobre o negro produzida pelo próprio negro, que recebeu o nome, às vezes contestado, de Literatura Negra.

A Razão da Chama abriga autores que chegam do século 18, como o cantador de lundus Domingos Caldas Barbosa, passando por Luiz Gama, Cruz e Sousa, Lino Guedes, Solano Trindade, Oswaldo de Camargo, Eduardo de Oliveira, Carlos de Assumpção, Oliveira Silveira, Geni Mariano Guimarães, Paulo Colina, Cuti, Miriam Alves e muitos outros. Na apresentação da coletânea, que selecionou e organizou, Camargo escreve:

Possivelmente a proposta mais válida e renovadora desta soma de poetas – adentrando em várias gerações de autores – desde árcades, até a poesia moderna escrita hoje no País – é a junção, que, até onde sabemos, jamais foi feita com poetas ‘registrados’ já na história literária do Brasil. Pois é da obra de Caldas Barbosa, Luiz Gama, Gonçalves Crespo, Cruz e Sousa – negros – às correntes literárias posteriores, com poetas negros e mulatos que se revelam negros, que escorre esta seiva poética, alento, reivindicação, consolo, e afirmação de que nós também somos literatura.

Considerado, de acordo com Eduardo de Assis Duarte, um dos 20 livros mais importantes para a construção de uma consciência negra no Brasil, O Negro Escrito foi lançado em 1987, com preâmbulo de Paulo Colina, que ressalta a importância do trabalho do autor para “a depuração da bibliografia afro-brasileira”. É um livro, segundo Thiara Vasconcelos, “indispensável por fornecer uma visão abrangente do panorama histórico da produção literária afro-brasileira, com informações biográficas e apreciações críticas (de vários críticos e do próprio Camargo) e reproduzir poesias e/ou contos na seção intitulada “Breve Antologia Temática”. Camargo diz que só pôde escrever essa obra por que começou a juntar livros sobre o negro em um tempo em que isso não era comum:

Houve um tempo em que eu era um dos poucos pesquisadores dessa literatura. E fui juntando isso devagar, bem antes da chegada da nova geração, que veio formar como que um coletivo de autores negros, formado por Paulo Colina, Cuti, Jônatas Conceição, Adão Ventura, e tantos outros. E os livros iam surgindo e eu ia guardando: textos da Associação Cultural do Negro, etc. Na hora em que fui redigir O Negro Escrito, 90% do material eu já tinha comigo…”

Vida que segue, em 1988 Camargo escreve A Mão Afro-brasileira em nossa literatura e tem alguns de seus poemas traduzidos para o alemão. Na verdade, vários de seus poemas, contos e artigos a respeito da trajetória do negro brasileiro foram traduzidos para o alemão, inglês, francês, espanhol. Em 1992, publica nas coletâneas Poesia negra brasileira, e em 1998 em Cadernos Negros: os melhores contos. No mesmo ano, recebe da Secretaria da Cultura de Santa Catarina a Medalha Cruz e Sousa, pelas publicações e estudos sobre a obra do poeta. Foi integrante do Conselho Editorial do jornal O Escritor, da União Brasileira dos Escritores e um dos fundadores, em 2001, da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira), do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo. Já aposentado no Grupo Estado, trabalhou sete anos na Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (IMESP) e é consultor de literatura do Museu Afro Brasil. Foi casado por 47 anos com Eunice (Florenice) Nascimento de Camargo, com quem teve seis filhos: Oswaldo, Sérgio, Maurício, Marcos, Márcia Helena e Daniel.

Para este jornalista, – que tem o privilégio de poder se dizer amigo de Oswaldo de Camargo –, ele executou com graça e leveza no piano de sua casa uma linda composição de sua autoria, revelando, em seguida, que é organista da igreja do bairro, Santo António de Lauzane Paulista, onde toca todos os sábados e domingos. Em meio às caixas e caixas de material acumulado ao longo dos anos, espalhadas por diversos cômodos de sua casa, falou também de um sonho que acalenta: reunir seu grande acervo de livros, quadros e partituras em um espaço cultural “para jovens que amem a literatura, a música, – diz ele – mas, sobretudo, os que desejem fazer do livro, como falou certa vez Marcel Proust, uma grande amizade”. E, com a realização desse sonho, digo eu, estaria se tornando um elo entre as futuras gerações de escritores e leitores da Literatura Negra brasileira.

*Flávio Carrança é jornalista, sócio-diretor da Flama Jornalismo Ltda, editor chefe da revista Angola Yetu (do Consulado de Angola em São Paulo) e Diretor do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo, onde coordena a Comissão de Jornalistas Pela Igualdade Racial – COJIRA/SP.

Texto publicado no livreto distribuído na entrega do Título de Cidadão Paulistano à Oswaldo de Camargo, em 27/10/2015.

1 Literatura e Afrodescendência no Brasil: antologia crítica. Vol. 2 Consolidação. / Eduardo de Assis Duarte, organizador – Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.

2 Literatura negro-brasileira / Cuti – São Paulo: Selo Negro, 2010.

3 Literatura e Afrodescendência no Brasil: antologia crítica. Vol. 4 História, teoria, polêmica. Eduardo de Assis Duarte, organizador – Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.

4 Idem

5 Idem

6 Idem

7 Idem

8 Literatura e Afrodescendência no Brasil: antologia crítica. Vol. 2 Consolidação. / Eduardo de Assis Duarte, organizador – Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.

9 Reflexões sobre a literatura afro-brasileira: Quilombhoje,1985.

10 Antologia da Geração de 45, organizada por Milton de Godoy Campos

Gasometria – um conto de Gerson Salvador

Gasometria

Quem quer passar além do Bojador Tem que passar além da dor.”

(Fernando Pessoa)

Era estudante do quinto ano, estava de plantão noturno na Unidade de Terapia Intensiva, a maior do Hospital Geral, que recebe quase todos os pacientes cirúrgicos nos pós-operatórios. Curioso, queria saber dos casos, mas o residente, que na ocasião era o meu chefe, não tinha a menor condição de discutir, tinha muito trabalho. O meu era mais ameno, só precisava colher gasometrias arteriais de todos os pacientes.

Gasometria é um exame que dá informações importantes sobre o funcionamento principalmente dos pulmões e rins, fundamental na terapia intensiva onde se colhe de quase todos os pacientes ao menos uma vez ao dia. Como é obtida por punção de artéria, na maioria das vezes a radial (do pulso), tem que entrar fundo com a agulha, costuma ser doloroso.

No começo ficamos com dó dos pacientes, quando fazemos a punção profunda na pele eles fazem aquelas caras de dor e entramos bem devagarinho. É a pior coisa que se pode fazer, porque a artéria contrai e nunca mais se acha, dói muito mais. Aprendi que se colhesse com a mão dura e sem dó o procedimento se fazia com maior rapidez e menor trauma. Acabei achando que era um bom coletor de gaso.

Ali na UTI quase todos os doentes estavam sedados e intubados, respirando com auxílio de aparelhos que chamamos ventiladores mecânicos, eram dez pacientes, dez gasometrias. Colhi as nove primeiras sem dificuldades.

A décima seria em um paciente que me foi passado como um caso de câncer de pulmão em fase terminal. Perguntei ao residente se precisava colher o exame desse paciente. Ele achou que eu estava correndo de trabalho. Minha impressão era que em uma pessoa sem possibilidade de tratamentos era melhor não fazer procedimentos dolorosos. Ele disse que de manhã quando passasse o plantão para o seu chefe ele perguntaria das gasometrias e que ele precisaria passar todos os resultados. Discordei, vacilei, acabei acatando.

Cheguei ao leito dez onde estava Francisco. Ele usava uma máscara bem vedada que envolvia a boca e o nariz com oxigênio e ar comprimido sendo oferecidos em pressão. Estava acordado.

Ajeitei na bandeja de aço inoxidável: algodão com álcool, agulha e seringa.

– Boa noite seu Francisco.

Ele não pode falar por causa da máscara. Respondeu olhando em meus olhos. Olhar de ternura. Pegou na minha mão com certo carinho também.

– Eu sou estudante do quinto ano, estou fazendo estágio nessa UTI, preciso colher uma gasometria do senhor.

Balançou a cabeça consentindo.

Fiz uma punção no antebraço direito. Procurei a artéria radial. Ele fez cara de dor. Não achei. Lacrimejou. Fiquei com dó! Não podia, mas fiquei. Fiz uma segunda punção no antebraço esquerdo e não achei nada. Ele gemeu e se contorceu.

– Seu Francisco, eu não consegui! Vou chamar o residente para fazer a punção. Ele sabe fazer isso melhor do que eu. Não quero machucar o senhor.

Afastava-me do leito. Ele me puxou pelo avental. Balançou o dedo indicador direito fazendo um sinal de negativo. Olhou-me de uma maneira que não soube decifrar se era de raiva ou tristeza. Apontou duas vezes o mesmo dedo para meu peito. Mirou meu olho. Apontou a artéria radial direita. Deu três toques bem de leve próximo ao local que eu tinha puncionado. Afastou o dedo. Mostrou a palma da mão balançando suavemente, como quem pede calma. Pegou o meu indicador direito e colocou em um local bem delimitado com o pulso bem cheio, ele mesmo pressionou meu antebraço para que eu tocasse bem de leve, tocasse com minha delicadeza costumeira não sentiria nada. Introduzi a agulha com confiança exatamente onde ele me mostrou. Sangue fluiu. Vermelho vivo. Pulsante. Os olhos do homem brilhavam e ele ria!

O senhor é profissional de saúde?

Balança a cabeça fazendo sim.

O senhor é médico?

Levanta o polegar num gesto afirmativo.

Obrigado, professor, por sua generosidade. Eu nunca vou esquecer do senhor.

Ele apontou para mim depois girou a mão apontando um a um todos os pacientes da UTI.

Eu entendi que ele insistira que eu fizesse o procedimento, atravessando além de sua dor, não só por mim, mas por todos os outros pacientes da unidade, tomei a liberdade de interpretar que era por todos os meus futuros pacientes. Em poucos dias ele já não existia, cruzara o seu Bojador, deixara para traz suas tormentas. Todas as vezes que colho ou ensino a colher gasometria até hoje de certa maneira eu o visito.

Gerson Salvador é de Cansanção, sertão da Bahia. Vive em São Paulo desde os oitos anos. É médico infectologista e professor de Propedêutica Clínica na Universidade de São Paulo. Recebeu o prêmio “Centenário Mário de Andrade” em 1993, modalidade poesia, da Prefeitura de São Paulo quando era estudante da rede pública municipal. Em 2013 publicou “O anjinho do vendedor de sonhos” na antologia Sobrenome Liberdade.

Publicou o livro de contos O pior médico do mundo – Ciclo Contínuo Editorial, 2014.

Contato | gersonsalvador@gmail.com

Publicado no livro O pior médico do mundo (2014).

Link para compra: https://temporario-ciclocontinuo.lojaintegrada.com.br/none-10430712

De como Dom Silvério chegou à glória com a Palavra – Oswaldo de Camargo

Em 30 de agosto de 2017 comemora-se 95 anos da passagem de Dom Silvério Gomes Pimenta.

Um Negro, imortal da Academia Brasileira de Letras!

Em memória de Dom José Maria Pires, falecido dia 27 de agosto de 2017.

De como Dom Silvério chegou à glória com a Palavra

Oswaldo de Camargo

Houve quem chamasse Dom Silvério Gomes Pimenta, teólogo, historiador e primeiro bispo de Mariana, de “Bernardes brasileiro”.

Não é pouco. Mas a par dessa comparação de Dom Silvério com um dos maiores escritores da língua de Sá Miranda, Camões e Vieira, marcam a vida e a história do bispo negro de Mariana enredos de fato estupendos.

São já passados 150 anos de seu nascimento, em Congonhas do Campo (província de Minas Gerais). Dia 12 de janeiro de 1840, o lar paupérrimo de Antônio Alves Pimenta e Porcina Gomes de Araújo assistiu ao nascimento do primogênito Silvério, mais um menino negro, no século XIX, a pisar o chão da Pátria em tempo de escravidão. Aparentemente pura irrelevância. O relho e os berros de mando alcançavam o País de ponta a ponta. O menino Luiz Gama, que vai iniciar mais tarde, com ruído e alma inteira, a campanha abolicionista, neste mesmo ano está sendo vendido pelo pai, para pagar uma dívida de jogo, e é levado de Salvador para o Rio de Janeiro. Nessa cidade, o mulatinho Machado de Assis está para fazer um ano no dia 21 de junho. Com os três acontecerá o milagre da inteligência e da Palavra, desviando para os lados da respeitabilidade e da glória os caminhos da obscuridade, mas Silvério será também marcado, a claro lume visto, pela mão de Deus.

Fatos estupendos.

O luzir da inteligência de Silvério salta e faísca muito cedo em Congonhas do Campo. Com olhos fechados, pode ser visto… Manuel Seabra e Antônio Gurgel, gente da terra e mestres-escolas, enxergam esse luzir imediatamente e o proclamam. Aos nove anos o menino já tem concluído o curso primário.

É certo que a fome e a miséria disputam tolher desde cedo o brilho precoce de Silvério e é certo também que, com a morte do pai – conforme escreverá mais tarde o autor da Vida de Dom Viçoso, quando já vigário geral –, “a família ficou reduzida às angustias da pobreza, e não qualquer pobreza, senão indigência, na qual ocorreu parelhas a fome, a nudez, o desagasalho”.

Clemente Luz, no seu livro Infância Humilde de Grandes Homens, narra, de maneira deliciosa, essa fase da vida de Dom Silvério. O menino, aos dez anos, trabalha em uma casa de secos e molhados. E, nas palavras de Luz,

à noite, estava moído, com dor nos braços e nas pernas, tão pesado era o serviço que fazia. Mas, mesmo assim, não desanimava. Estudava em todos os momentos que podia. Para ler alguma coisa, saía de casa, porque ali não havia querosene o suficiente para acender a lamparina, e ia para a rua. Encostava-se aos postes, de onde pendiam os lampiões da cidade. Abria o livro e sem se incomodar com o frio e com o vento, nem com os bêbados que iam e vinham, lia, lia, até que seus olhos estivessem cansados e doloridos. Fechava o livro e voltava para dormir, pensando no que lera.”

O destino de Dom Silvério – vê-se – foi endireitado, nesses anos, à força dos livros. E com ajuda e com aceno de Deus – acrescentarão a mãe Porcina e os contemporâneos em Congonhas.

Há na vida de Dom Silvério, sobretudo na infância, um claro cerco de pessoas, humildes todas, que o socorrem nas horas extremas. Uma delas é o alferes Manuel Alves Pimenta, tio e padrinho do filho de Porcina. A pedido deste, o menino começa a frequentar as aulas no Colégio de Congonhas, dirigido pelos padres lazaristas, que funcionava ao lado do Santuário de Bom Jesus. É esse menino Silvério, negrinho indigente em Congonhas da Província de Minas Gerais, em tempo de escravidão, relho e mando, que se tornará padre em 1862, ordenado na matriz de Sabará, com 22 anos e meio, e bispo, com o título de Câmaco, em 26 de junho de 1890.

Dom Silvério, “Bernardes brasileiro”, foi um sábio. E conta a lenda – uma das várias que cercam a sua vida – que, quando já bispo, teria pronunciado um discurso em latim, na presença de numerosos cardeais, arcebispos e bispos de todo o mundo, em certo banquete em Roma. E, nessa ocasião, um cardeal que intimamente menoscabara da sua cor, teria murmurado cheio de pasmo:

Niger, sed sapiens! (Negro, mas sábio!).

Não resta a menor dúvida de que o prelado podia discursar em latim e noutras línguas – observa Fernando Pereira de Castro, S.J., biógrafo de Dom Silvério –, mas que o houvesse feito nas circunstâncias atrás supostas é pura fantasia.

Em 28 de maio de 1920, Dom Silvério entrou para a Academia Brasileira de Letras, sucedendo a Alcindo Guanabara. Recebeu-o Carlos de Laet, com estas palavras: “Sem aguardar a vossa iniciativa, a Academia Brasileira de Letras pediu-vos aspirásseis a ser um de nós”.

Levou-o à Casa de Machado de Assis, sobretudo o livro A Vida de Dom Viçoso, publicado quando o autor contava 37 anos. Uma obra que “não só aos devotos, como obra de edificação cristã, e aos homens de letras, pelo estilo vernaculíssimo, oferece real interesse. Também aos olhos dos sociólogos e filósofos é um livro precioso…” (Ivan Lins).

Tornou-se antológico o seu discurso de posse na Academia e que tem sido publicado sob o título “A Palavra”. Dele extraímos:

A nós, acostumados com as coisas grandes pela substância, grandes pelos efeitos, mas comuns pela frequente repetição, passam-nos muitas vezes despercebidas maravilhas estupendas. Assim acontece com a palavra do homem. Maravilha que só não espanta por ser comum a todos os homens. Leva a palavra ao entendimento, ao coração, à imaginação dos outros, os mais recônditos segredos de nossa alma. Grandes, variados, estupendos, os efeitos da palavra!”

Foi a palavra que determinou o rumo da vida de Dom Silvério, até sua morte, 30 de agosto de 1922. E Deus – acrescentariam ainda os contemporâneos de Congonhas do Campo, de Mariana das Minas Gerais.

(Publicado em “Caderno de Sábado” do Jornal da Tarde, 27/01/1979)

O poema que é ferro e ferramenta – Ele Semog escreve sobre o livro “Desakato lírico”, de Cizinho Afreeka

O poema que é ferro e ferramenta

por Éle Semog*

Poetas e poemas sempre estão na moda, mas desde o princípio deste terceiro milênio da Era Comum, na segunda década particularmente, tem sido possível experimentar uma verdadeira avalanche de poesias e de poemas, difundidos por meio de diversas mídias, e produzidos por poetas e artistas tão heterogêneos em seus estilos e temários, que leitores e críticos de literatura e de outras artes são obrigados a desenvolver novas formas de percepção sobre o que esses artistas expressam.

Identificar, perceber a poesia e transformá-la, escrevê-la na forma de poema é sempre um momento difícil, de inquietação, de pulsão de vida e morte da palavra e do eu. Então vem a percepção desse mundo que não se completa mas, que ainda assim, nos faz buscar compreendê-lo, como se tudo que nele esta contido fosse pleno, embora efêmero, fosse começo, embora contínuo. Isto é o contrário do diletantismo, cuja proposição é a semi-inércia, a compreensão amena do que a existência nos dita e do que é possível ocultar da dialética entre a poesia e o poema, entre o poema e a realidade que o habita.

Não existe diletantismo ou descaso nos poemas de Cizinho Afreeka reunidos neste livro de ‘Desakato Lírico’, cujo título já é um convite à inquietação e à mobilidade. Os textos, organizados em 7 intervenções, ou ações, ou capítulos, comunicam um eu poético que de vez em quando se manifesta lírico (melhor lúdico) mas, quando o faz, descarta a lira grega e exige o ressoar de atabaques, djembes, agogôs e só, quando muito ameno, marimbas.

Assassino o português/(…) não quero a sua língua na minha boca”. Para muito além de negar o fálico, que se apresenta explicito em outros movimentos do livro, eis ai, o poeta escreve para dizer que não quer acordo. Puxa o gatilho no poema ‘Mato’, falando que chegou e que produz literatura afrobrasileira, literatura negra de combate ao racismo. Caso ele próprio não se identifique com esses, ou tema enfrentar os cânones hegemônicos da literatura nacional e os acadêmicos, sua própria sociabilidade o denuncia pela luta que empreende contra o racismo e pelas mesmas razões de pele escritas por Lino Guedes, Luis Gama, Abdias Nascimento, Solano Trindade, Esmeralda Ribeiro, Miriam Alves, Lia Vieira, Conceição Evaristo e muitos de nós anônimos.

O gatilho permanece travado e Cizinho Afreeka solta o dedo nervoso no teclado: “Vamos cortar tudo que é branco?/(…) Cortar a carne/Açúcar/Farinha/Sal/Aspirina/Leite/Pó/Arroz/Tudo que faz mal”.

Toda poesia engajada em causas sociais resulta de uma consciência da necessidade de transformação, de mudança de determinado status quo, para uma situação de bem-estar desejada. Então, também o poeta é passível de transformação enquanto sujeito que comunica o que trabalha como matéria de consciência crítica. O poema não fica inerte: seja ele amor, exploração, infância, saudade, frustração, certeza, violência, exclusão, sexo, amizade. A questão no trato literário é como o poeta se utiliza dos recursos estilísticos para deixar fluir a construção de seu próprio estilo.

Pergunta de retórica, sinestesia, metáforas, oximoro são alguns dos recursos que aparecem no texto de Cizinho Afreeka, não como se buscasse um permanente conflito com o idioma de Camões, mas sim a sua plena denúncia, de quem é obrigado a se expressar em português quando sente as emoções ferverem, atavicamente, numa das centenas de línguas africanas: “Eu puto/Ela puta” – é obvio que se estivesse escrito numa das línguas bantu, o poeta não seria tão contido no seu dissentir.

Antropofágico, sedutor, polêmico, acusador e obsceno, ‘Desakato Lírico’ não se enquadra em nada disso. Seria simples demais, mole e rude demais para o leitor. É também um livro para ser discutido em grupos de formação de jovens, para refletir sobre posturas no enfrentamento ao racismo, para falar de amor e de luta à maneira da nossa gente negra. (…)“Infalíveis são os poemas ministrados em doses/cavalares”. É livro para levar nas viagens, ou para aproveitarmos quando nos sentirmos solitários.

Nas ações de pretalhagem, o poeta se debate. Sofre inconformado sentindo que a vida lhe arranca nacos da carne e do espírito. Reage e fala confidência pra dentro de si, mas deixando que todo mundo ouça e se sinta confortável nos seus segredos confelados: (…) “Quero algo sólido/Que me leve, leve às nuvens.”

Poeta desses tempos não pode negligenciar o elogio a mulher negra (e os reclamos também), mas se é para expressar a entrega, no que a poesia (mulher) pode ser escrita pelo nu do poeta, ou o poeta nu de fingimentos, aqui a ação do amorcentricidade é preta: “As curvas perfeitas das suas ideias/Os olhos atentos da sua alma amor/E a boca carnuda dos seus argumentos/O cabelo que encrespa com tudo que é dor.”

As outras intervenções e movimentos do livro: luz negra, transe, multilaços e melaminados, matem os ritmos, as provocações e a consciência da função do poema: “(…)boca que é pele da minha pele/boca que meu povo não repele”.

Certa vez um importante intelectual e escritor negro brasileiro, foi muito mal interpretado quando fez uma comparação, bastante inquietante, afirmando que uma mulher negra equivaleria a um Fusca e uma mulher branca a um Monza. Coitado dele, o coro comeu. Li este ‘Desakato Lírico’ umas quatro ou cinco vezes bisbilhotando as almas dos poemas. Lá pelas tantas concluí que gosto quando o poeta expõe suas vidraças. Veja só caro leitor o que tem no movimento transe: “(,,,)Não encontra rima na vida para subserviência/Muito menos para violência/Sabe ler os olhares e manter a postura”.

Ah. Leitor… não se iluda, a palavra de Cizinho Afreeka não é leve, é pedra. É ferro e ferramenta.

* Ele Semog – Escritor, poeta

 

Lançamento: Flisamba (FliSamba – Festa Literária do Samba).

Dia 16/07/2017 – 14:30h – Mesa de autógrafos: Cizinho Afreeka. Lançamento do livro: “Desakato Lírico”

Local: Renascença Clube (Rua Barão de São Francisco, 54). Contatos: (21) 3253-2322 – Marcia Renault (99713-0764) e José Reinaldo (97108-1000).

O Instituto de Estudos Avançados/USP recebe a Jornada Luiz Gama & Machado de Assis | 21 de junho (quarta-feira)

No dia 21 de junho participe da Jornada Luiz Gama & Machado de Assis, que marca a data de aniversário de nascimento de duas figuras decisivas na história da cultura brasileira do século XIX. A jornada tem como objetivo conhecer e compreender divergências e convergências na atuação desses dois homens de letras no seu tempo, bem como os modos como foram lidos e ressignificados na posteridade.

 A partir do exame de textos de Luiz Gama e Machado de Assis, e também de escritos sobre eles, a proposta do evento é comparar suas trajetórias, que se desenvolveram em paralelo (até onde se sabe, os dois não tiveram contato direto, pessoal ou por meio de correspondência pública ou privada), apesar das muitas amizades e atividades comuns. 

 Também serão focalizadas na jornada as estratégias de cada um para se inserir no ambiente letrado e se firmar como intelectual e escritor, bem como suas atuações na imprensa, como autores de crônicas, textos de intervenção e poemas satíricos.

 A Jornada Luiz Gama & Machado de Assis será realizada no dia 21 de junho, das 9h às 17h, na Sala de Eventos do Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP). 

O evento é gratuito e possui vagas limitadas. A participação é condicionada à realização de inscrição prévia pelo e-mail jornadagamamachado@gmail.com. As vagas são limitadas. Serão emitidos certificados de participação de ouvinte. A jornada é organizada pelos professores Hélio de Seixas Guimarães (USP) e Ligia Fonseca Ferreira (Unifesp).

  

QUA | 21.06.2017 | das 9h às 17h00

Sala de Eventos do Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP). Rua da Praça do Relógio, nº 109, 5º andar, Cidade Universitária, São Paulo

 Confira a programação completa do evento:

 9h – Abertura da Jornada com saudação de Alfredo Bosi

 9h30 – 12h – MESA 1

 Escravos letrados, senhores ‘embatucados’: a escrita educada de Luiz Gama e do Clube Literário de Bragança” – Maria Helena P. T. Machado (USP)

 Luiz Gama, a vida como prova inconcussa da história” – Diego Molina (USP)

 As leis e as letras: as trajetórias de Luiz Gama e Machado de Assis” – Angela Alonso (USP)

  

14h às 16h – MESA 2

 O caramujo e o carcará: vozes negras na luta antiescravista” – Eduardo de Assis Duarte (UFMG)

 Do ouvir e ler poemas: Luiz Gama e Machado de Assis” – Pedro Marques (Unifesp)

 “‘A melindrosa presunção das cores humanas’: notas sobre a recepção de Machado de Assis” – Hélio de Seixas Guimarães (USP)

 Luiz Gama ‘autor’, Luiz Gama ‘editor’: o que dizem as primeiras edições de Primeiras Trovas Burlescas” – Ligia Fonseca Ferreira (Unifesp)

  

16h30 – DEPOIMENTOS

 

A palavra de Luiz Gama no processo de criação de Um defeito de cor” – Ana Maria Gonçalves

  

17h – 17h30 – ENCERRAMENTO

Fonte | Comunicação Social FFLCH/USP