Ciclo Contínuo Editorial se manifesta | 40 anos de Cadernos Negros!

Ciclo Contínuo Editorial se manifesta | 40 anos de Cadernos Negros!!!

No dia 16 de dezembro de 2017 o Quilombhoje Literatura estará lançando o quadragésimo volume da série Cadernos Negros, que traz literatura afro-brasileira contemporânea. Criada em 1978, a série tem um volume lançado anualmente, alternando entre poesia e contos.

O volume 40 trará contos de 42 autorxs de vários Estados brasileiros. O livro foi feito de forma cooperativa, como todos os volumes anteriores, e marcará o quadragésimo ano de existência da série, que é pioneira no Brasil e continua a ser organizada pelo coletivo Quilombhoje, coordenado por Márcio Barbosa e Esmeralda Ribeiro.

Pelas páginas de Cadernos Negros passaram e passam autorxs cujo trabalho adquire crescente relevância no cenário literário brasileiro, como Conceição Evaristo e Cuti, dentre muitos outros, mostrando que a força do trabalho coletivo pode superar as barreiras impostas pelo mercado editorial à expressão literária negra, barreiras que vêm sendo crescentemente derrubadas.

Lançamento do livro

CADERNOS NEGROS VOLUME 40 – CONTOS AFRO-BRASILEIROS

Dia 16 de dezembro de 2017 – sábado – a partir das 17h30

Na Academia Paulista de Letras – Largo do Arouche, 324 (próx. Metrô República)

Entrada grátis (sujeita à lotação do auditório – chegar antes).

Autores e autoras do CN40: Adegmar Candiero, Adilson Augusto, Akins Kintê, Alcidéa Miguel, Alessandra Sampaio, Aline Soares Negríndia, Ana dos Santos, Ana Fátima, Beatriz Lima, Benedita Lopes, Benicio dos Santos Santos, Boris Calazans dos Santos, Bruno Gabiru, Carlos Santos, Claudia Walleska, Cristiane Sobral, Cuti, D’Ilemar Monteiro, Edenice Fraga, Elaine Marcelina, Eliana Alves Cruz, Esmeralda Ribeiro, Fernando Gonzaga, Gabriel Messias, Jairo Pinto, Joceval Nascimento (Layê), Júlia Costa, Kasabuvu, Leandro Passos, Léo O’Bento, Lepê Correia, Lidiane Ferreira, Márcio Barbosa, Mari Vieira, Miriam Alves, Nana Martins, Paulo Vicente Cruz, Rosa Gabriela, Ruimar Batista, Sacolinha, Samuel Neri, Vina Di Abreu

 

Link do evento | https://www.facebook.com/events/1112418678861305/

___________________________________________

Texto: Divulgação Quilombhoje

 

Para viver nos séculos | Edimilson de Almeida Pereira [publicado em “Luz & Breu”, de Oswaldo de Camargo]

Para viver nos séculos

Edimilson de Almeida Pereira

Escrever uma apresentação para a presente antologia de Oswaldo de Camargo é tornar pública uma admiração que dialoga com o pertencimento do autor ao complexo da Literatura Brasileira. Ao considerar a sua trajetória – iniciada com a publicação de Um homem tenta ser anjo (poemas, 1959) – penso no poeta, no ficcionista, no crítico, no jornalista, enfim, no amigo que, por compreender as tensões do meio social e literário brasileiro, mostrou-se capaz de confrontar e de ultrapassar as restrições que esse meio impõe, desde sempre, aos herdeiros da afrodiáspora em nosso território.

A admiração aqui declarada reforça os laços entre dois companheiros de São Paulo e de Minas Gerais, mas vai além dessa experiência pessoal porque se alia a um esforço coletivo, que aposta no direito à vida, sobretudo quando nos damos conta de nos relacionarmos num país onde o risco de morte assedia, de forma incisiva, crianças, jovens e adultos negros. Viver para criar e dialogar, como o faz Oswaldo de Camargo, há seis décadas, constitui o testemunho de um sujeito que cobra, para si e para os excluídos, um olhar justo e interessado por parte da sociedade brasileira.

No que diz respeito aos poemas desta edição, há dois movimentos, simultâneos, que merecem atenção: um desenhado pelas mãos do poeta ao visitar o seu próprio campo semeado e, outro, cifrado pelas mesmas mãos que reconhecem o gosto álacre imposto aos frutos pela ação do tempo e das circunstâncias históricas.

Através do primeiro movimento, Oswaldo de Camargo seleciona – dentre a série de seus poemas publicados – aqueles que, segundo o seu parecer, mantêm a sua ductibilidade. Sob esse aspecto, o poeta enfatiza os poemas que se referem aos dilemas da sociedade brasileira ainda não solucionados, particularmente aqueles relacionados à vida diária do sujeito negro.

O segundo poema desta antologia descortina uma questão de ordem filosófica: ao perguntar-se “que posso dizer à vida?” (Eh, coisas), o poeta cria o mote para tecer uma série de respostas, que decorrem do substrato histórico-social desfavorável às populações negras cerceadas pela violência do sistema escravista e suas infindáveis rearticulações contemporâneas. A par disso, o poeta tensiona o seu discurso para criticar a exclusão étnico-social (“a Liberdade que desce às praças/ nos meados de maio,/ pedindo rumores,/ é uma senhora esquálida, seca, desvalida/e nada sabe de nossa vida.” – Em maio), convocar os oprimidos à resistência social (“Os vossos doces punhais/ recolho-os com meu disfarce/ e atrás do muro de um riso/ escondo o meu pensamento…” – Adendo) e denunciar a violência praticada contra as populações negras (“A bala…/ chispou rumo a um espaço aberto,/ onde não estava ninguém, /raspou na trave de um campo,/ apitando como trem,/ seguiu, trombou com o vento,/ entrou nele como alguém/ que tem pressa na viagem,/ e, zunindo, foi além.” – A bala que matou Ninico)

Um dos resultados do retorno da mão àquilo que ela mesma semeou pode ser, em certa medida, a confirmação de uma linha de força que atravessa a obra de Oswaldo de Camargo. Essa linha se alarga e se aprofunda de modo a nos oferecer uma perspectiva das complexas relações que envolvem a sociedade brasileira e as populações negras no âmbito da diáspora. Uma das contribuições marcantes de Oswaldo de Camargo, que faz coro com nomes como Langston Hughes e Aimé Césaire, por exemplo, consiste na recusa dos valores impostos pelo modelo cultural derivado do colonialismo e do escravismo. Tal recusa se resolve como uma abordagem crítica do discurso oficial, que “escreve” as narrativas das populações negras na diáspora e, simultaneamente, como uma rasura dessas narrativas. Nesse ponto, Hughes, Césaire e Camargo encontraram, cada um à sua maneira, os instrumentos específicos para transformar a rasura numa outra textualidade, tensionada entre as heranças culturais que constituem as suas dicções literárias.

No segundo movimento, algumas das estratégias escolhidas pelo poeta para confrontar a exclusão social e estética dos afrodescendentes são testadas pela própria realidade histórica que as fundamenta. Ou seja, contra a agressão às heranças das matrizes africanas, o poeta reage adotando o processo arqueológico de escavação da memória, com enfoque específico em determinados sítios, a exemplo da retomada de um norte cultural africano (“Que farei do meu reino: um terreno/ no peito,/ onde pensei pôr minha África” – Oferenda) ou da recuperação das cenas cotidianas do trabalho árduo nas áreas derivadas do sistema escravista de produção (“A messe de sons errantes/ no tempo em que nos andamos/ por dentro deitou raízes/ por fora nuvens e ramos” – Cantilena dos negros da Fazenda Soledade).

A reavaliação dos frutos recolhidos, depois de afetados pelas incisões do tempo e das circunstâncias históricas, constitui um desafio para as tendências poéticas que elegem determinados territórios como fontes de certos modelos identitários. Essas poéticas nos recolocam diante do processo de reinvenção da África como o locus de identidade das populações negras na diáspora. Essa África, que o discurso literário reescreve sob várias perspectivas, funciona como uma referência capaz de suprir as demandas de reconhecimento que a sociedade brasileira nega aos sujeitos afrodescendentes. Contudo, ao convocar seus interlocutores para essa viagem ao lugar da origem (“Ainda vamos embora, vamos embora,/ viver na terra do Congo!” – Festança), o poeta e ensaísta Oswaldo de Camargo nos impele a analisar as contradições que perpassam essa cena reconstruída através da memória. Ou seja, a idealização de África como um recurso de enfrentamento da exclusão das populações negras não nos exime da responsabilidade de pensarmos criticamente sobre esse território, considerando as suas reais contradições.

Desse modo, a antologia recoloca em cena poemas escritos num determinado período em que a idealização do continente africano significava um processo de afirmação da afrodescendência no território da diáspora. Todavia, à luz da contemporaneidade, o recurso da idealização não pode nos impedir de ressaltar o seu caráter restritivo. Em face dos dilemas que colocam em risco muitas das sociedades africanas – tomadas de assalto pelas forças do neocolonialismo econômico, político e cultural – não há como acreditarmos na resolução de nossas contradições mediante o ocultamento das contradições específicas do próprio continente africano. Sob esse aspecto, Oswaldo de Camargo reinaugura para as novas gerações e para a sua própria geração o desafio de repensarmos os modos de relações objetivas e subjetivas que estabelecemos com as muitas Áfricas.

Muito do que há para ser dito sobre a obra de Oswaldo de Camargo pode ser encontrado na presente antologia, a exemplo de sua preocupação com os destinos históricos das populações negras e com a articulação de uma perspectiva literária erigida pelas vozes de poetas negros e negras. Além disso, perpassam essas páginas cifradas pelo autor de O carro do êxito algumas das estratégias de resistência que as populações negras articularam e articulam, apesar das condições desfavoráveis que as ameaçam. De maneira sutil e marcante, Oswaldo de Camargo aponta para um campo epistemológico que, se por um lado, permaneceu imperceptível para a sociedade brasileira, por outro, infiltrou-se nela de modo a constituir, com outros fios culturais, um tecido social tensionado, cujos valores, ao longo tempo, são negociados no fio da navalha.

Enfim, há muito para dizermos sobre a poética de Oswaldo de Camargo, porém, o mais importante é ouvirmos as vozes que lhe dão forma e sentido. Ou seja, as vozes do poeta e as vozes dos outros eus com os quais ele se identifica. No momento em que a sociedade brasileira se vê novamente ameaçada pelo retrocesso político, a voz de Oswaldo de Camargo ressoa como um chamado ao tempo presente, irmão do futuro: “Súbito um grito – ô ! – cresceu depressa/ ante as portas do ouvido, um ‘ô!’ tão longo/ para viver nos séculos.” (Lembro-me, sim, estive lá!)

Ouçamos esse chamado, a poesia de Oswaldo de Camargo insiste.

_______________________________________

Edimilson de Almeida Pereira é poeta, antropólogo, ensaísta e professor de Literatura na Universidade Federal de Juiz de Fora/MG.

Uma leitura de Luz & Breu | Matheus Gato

 

Ilustração | Bruno Gabiru

Uma leitura de Luz & Breu | Matheus Gato*

(texto publicado na orelha da antologia Luz & Breu)

A leitura desta obra implica não esperar alguma solução de palavras como “negro” e “preto”, que insistentemente se repetem nestes versos. Oswaldo de Camargo nos mostra o breu. O escuro mais escuro, quarto fechado sem frestas, onde o corpo se dissolve no espaço ao compartilhar, com as coisas e os objetos, a única cor que ali se permite aos olhos. “Sou a luta entre o ser nada e o ser demais”, disse o poeta ainda jovem. Nossa imagem e semelhança se refletem no único espelho que temos à mão: aquele que foi quebrado. A negritude e sua estética não constituem, nessa perspectiva, nenhum porto seguro para o ser:

Recolho o pensamento, me debruço

nessa contemplação, assim me largo,

e preso ao ser que sou, soluço e babo

na terra preta de meu corpo amargo.

Porém na hora exata cantarei…

Eu venho vindo, ainda não cheguei…

A violência calou fundo na história e fez de termos como “negro” e “preto” o registro de uma experiência marcada pelo descompasso entre o corpo, o tempo e o espaço. Problema particularmente expresso na enorme relevância do tema do “atraso” nesses poemas, da estrada pela qual se vem e não se chega nunca, da sensação de estar no lugar errado, no rumo certeiro de uma bala perdida, do desejo irrealizado de quem parece sempre perder as horas:

De manhã quis ver o sol

cuspir moedas, já cedo,

forjadas com luz bem clara.

Preto saiu da neblina,

olhou o dia: – que nada!

Chegou tarde!?

Esse tempo da raça, da subordinação, atrasado para a luz do dia, desencontrado da realização pessoal e coletiva, marca o ritmo da narrativa oficial da história brasileira. No poema Em maio, um dos mais conhecidos do autor, apresenta-se o hiato entre a apresentação grandiloquente e salvacionista da Abolição nas propagandas e cerimônias do Estado e a liberdade precária da gente negra nos campos, subúrbios e favelas do país:

A Liberdade que sei é uma menina sem jeito,

vem montada no ombro dos moleques

ou se esconde

no peito em fogo dos que jamais irão

à praça.

Esses homens e mulheres estranhos, mal identificados com o mundo público, transformam seus parcos recursos na fonte de um outro tempo. Os poemas que evocam a vida dos pretos do campo paulista na primeira metade do século XX, como Festa do Juvenal, Ao pé do fogo, À Senhora Aparecida, nos falam da construção de espaços alternativos (a festa, a roda, a fogueira) que permitem a audácia de uma memória própria, a ousadia de pretender, em meio ao absurdo de nossa indigência, algum sentido para a história. Entre as coisas mais bonitas que o leitor encontrará por aqui está a representação da África como futuro:

Ainda vamos embora, vamos embora,

viver na terra do Congo!

O autor converte o espaço originário da captura e da escravidão numa forma de esperança. África é o nome do amanhã. Talvez um dia no espelho cristalino dos relógios do mundo o rosto do negro estará por inteiro.

____________________________________________

.

Matheus Gato

Doutor em sociologia pela Universidade de São Paulo. Desenvolve pesquisas sobre intelectuais negros, literatura, racismo e o pós-abolição no Brasil.

Oswaldo de Camargo – Breve perfil biográfico | Flávio Carrança

Foto | Avelino Regicida

Oswaldo de Camargo: elo entre gerações

Flávio Carrança*

Questão de circunstância, de acaso, é a explicação que Oswaldo de Camargo dá para o fato de ser visto por muitos autores negros mais jovens do que ele como um elo entre as gerações. E, acrescenta, com sua modéstia habitual, que talvez isso se deva também ao fato de ter sobrevivido em relação a vários de seus companheiros de lida literária, já falecidos: “Muita gente vai antes do tempo. Eu não morri, segui escrevendo, comparecendo e informando, enquanto vários de meus companheiros se transfiguraram em lembrança… Que eu podia fazer?“, explica, sobre esse epíteto, em entrevista concedida a Thiara de Filippo1. Outro estudioso da literatura negra, Luiz Silva, o Cuti, diz que Camargo

no contexto estritamente literário, é o mais importante elo de gerações (grifo meu), pois sua dedicação à vertente negro-brasileira tem se dado não só pela acolhida aos jovens autores como também pela elaboração de ensaios, palestras acerca do assunto, prefácios, organização de antologias, livros histórico-literários, além da obra em prosa e verso.”2

A primeira obra publicada por Oswaldo de Camargo foi o livro de poesias Um Homem Tenta ser Anjo, de 1959. Depois desse, em 1961, vem 15 Poemas Negros, seguido de O Carro do Êxito: contos, de 1972, e da novela A Descoberta do Frio, de 1979. Também merecem destaque a organização de A Razão da Chama: Antologia de Poetas Negros Brasileiros, de 1986, e O Negro Escrito: Apontamentos Sobre a Presença do Negro na Literatura Brasileira, de 1987, que inclui uma antologia com textos de diversos autores; e, ainda, Solano Trindade, Poeta do Povo – Aproximações, de 2009. No ano seguinte, participa da coletânea Paula Brito: Editor, Poeta e Artífice das Letras, publicada pela Edusp, da qual foi o idealizador. Somam-se a esses títulos inúmeras participações em coletâneas, revistas e outras publicações, além do relançamento de A Descoberta do Frio pela Ateliê Editorial em 2011.

Mas, para entender um pouco melhor como se construiu esse escritor negro brasileiro, vamos voltar ao século passado, mais precisamente em 1936, na cidade de Bragança Paulista, quando e onde nasceu Oswaldo de Camargo. Filho de lavradores muito pobres, ficou órfão quando ainda era criança. Por conta disso, passou três anos no Preventório Imaculada Conceição, em Bragança, e outros dois anos em Poá, município situado a 34 quilômetros da capital e hoje integrado à Grande São Paulo. Ali, no Reino da Garotada Dom Bosco de Poá – dirigido pelo padre holandês Simão Switzar -, foi onde começou a desenvolver o gosto pela leitura, mergulhando em romances infanto-juvenis, como Genoveva, Duquesa de Brabante e Tom PLayfair. Com 13 anos, entrou no Seminário Menor Nossa Senhora da Paz, em São José do Rio Preto (SP), onde aos 16 anos começou a escrever.

Oswaldo de Camargo com 10 anos de idade. Praça da República, 1946. (Foto: Guerra – Arquivo do autor)

No seminário, leu Casimiro de Abreu, Castro Alves, Gonçalves Dias e Cruz e Sousa em livros didáticos ou paradidáticos, como a Antologia Nacional, de Carlos de Laet e Fausto Barreto e também O Português Prático, do professor Marques da Cruz, além de Páginas Floridas, de Silveira Bueno. “É bom lembrar que nesse tempo existia ainda – diz em entrevista a Eduardo de Assis Duarte – um parnasianismo tardio, que ditava as regras do bem escrever. No meu caso, o que eu fazia (tenho até hoje guardadas essas páginas) era copiar os poemas que me interessavam. Porque no Seminário em que estudei não nos permitiam ler nenhum poeta por inteiro. Havia veto aos poetas, possivelmente porque eram insinuadores de sensualidade”3.

Oswaldo avalia que, na verdade, o fato de o Seminário ter vedado a leitura das obras completas dos poetas acabou sendo bom, pois lhe deu mais “gana” de ler e o levou à disciplina:

Primeiro os poetas; depois os prosadores. Eu não misturei escolas. Egresso do Seminário, me nutri literariamente dos românticos – Castro Alves, Casimiro de Abreu, Fagundes Varela; dos parnasianos – Olavo Bilac, Alberto de Oliveira, Raimundo Correia; simbolistas – Cruz e Sousa inteiro, Alphonsus de Guimarães. Depois, em livros de minha propriedade ou emprestados, Drummond e outros modernistas.”4

Passado esse período de iniciação literária, entre os 16 e os 18 anos de idade, Oswaldo enfrenta uma crise, em parte desencadeada pelo ingresso na adolescência, mas causada, principalmente, pelo racismo. É o momento em que resolve sair do Seminário. Antes disso, no entanto, estava convicto de que tinha uma real vocação para o sacerdócio, e o padre Miguel Switzar, irmão de Padre Simão, aquele de Poá, começou a procurar um Seminário para ele prosseguir os estudos eclesiásticos. Mas as instituições consultadas não abriram as portas:

Não era questão de aproveitar o status dado pelo conhecimento de latim, francês, grego, conhecimentos de canto e música, como acontecia com tantos meninos do meu tempo. No meu caso, não era. Eu acreditava que tinha vocação; os padres que me educaram no Seminário em Rio Preto também acreditavam. E a noção de que existia, sim, preconceito na sociedade brasileira mostrou-se clara para mim nos meus 16 anos, idade em que comecei a escrever.”5

Nessa época, entra em profundo estado de melancolia, talvez mesmo depressão, mas produz, às vezes, dois ou mais textos em versos por dia, exercitando-se na técnica do soneto, com a necessária chave de ouro e tudo o mais: “Foi uma iluminação na minha vida de adolescente negro e pobre. E, naquele ano luminoso, tive a sorte excepcional de começar a estudar harmônio, um tipo de órgão pequeno, com palhetas em lugar de tubos”6. Aos 17 anos, tocava muitas vezes esse instrumento na catedral de São José do Rio Preto. O fato de ter se tornado um organista explica por que, em alguns contos que escreveu, aparecem situações envolvidas com a música, até no título, como se verifica em “Oboé”, de O Carro do Êxito. “A música que estudei, e continuo estudando, me tornou receptivo a algumas obras, como A Montanha Mágica, de Thomas Mann, em que há uma passagem famosa que se refere à importância política da música, da qual transponho um pequeno trecho para meu conto Oboé”. 7

Em 1954, aos 18 anos, frustrada a vocação eclesiástica, Oswaldo vem para a capital do Estado tentar uma vida nova. Já havia escrito um caderno de versos denominado “Vozes da Montanha”, com poemas em que usava a métrica de redondilha maior ou menor (versos de 5 ou 7 sílabas) ou sonetos, que mantém guardado até hoje por mera lembrança, mas que poderia ter sido seu primeiro livro. Depois de várias andanças à procura de emprego, resolve tentar a sorte no jornal O Estado de S. Paulo. Aproximou-se da família Mesquita, à época proprietária do jornal, devido ao fato de sua madrinha, Maria Esther Silva, prima de sua mãe, ser, havia já alguns anos, empregada na casa de dona Alice Vieira de Carvalho Mesquita, mãe de Luiz e de José Mesquita, diretores do grande jornal. Faz, no entanto, questão de esclarecer não ter sido muito beneficiado por esse laço. Conta que foi submetido a um rigoroso teste de português e passou. Em 1955, com 19 anos, começa a trabalhar como revisor, cargo de prestígio na época, porta de entrada para a redação do maior jornal do país, ainda funcionando no velho prédio da rua Major Quedinho.

Quando está na revisão do Estadão, em 1959, publica seu primeiro livro de poemas, chamadoUm Homem Tenta Ser Anjo, bem acolhido pela crítica. Thiara Vasconcellos de Filippo8 afirma que a precariedade da vida e o mito da “queda do homem” são referências constantes a envolver toda a obra, prefaciada por José Pedro Galvão de Souza, naquele tempo professor de Ética na PUC. “Em Um Homem Tenta Ser Anjo – escreve a pesquisadora – predominam os sentimentos de angústia e desalento, solidão e desamparo, e podem-se notar tanto a sua formação católica quanto os diálogos estabelecidos com Rainer Maria Rilke e Augusto Frederico Schmidt.” Em artigo publicado no livro Reflexões Sobre a Literatura Afro-brasileira(Quilombhoje, 1985), Cuti detecta na obra uma visão fatalista da história: “(…) Achar que Deus nos esqueceu é um desencanto que a religiosidade, sobretudo católica, nos legou diante da exploração do homem sobre o homem. Oswaldo de Camargo no seu livro de estreia (…) mostra, em meio a versos, uma forte tentativa de atingir o céu da sublimação que:

Ser anjo, em verdade, é coisa triste…

Pesa o corpo, Senhor, e cada nuvem

é inimiga chovendo exaustão…

Tédio grosso pingando em minha testa,

por pensar que o céu é tão distante…9

Em 1961, lança 15 Poemas Negros, livro que, segundo Thiara Vasconcelos, não se diferencia muito do anterior, uma vez que também se caracteriza pela presença marcante dos valores católicos, sobretudo da ideia da salvação da alma por meio do sofrimento da carne. “No entanto – alerta a autora – distancia-se de Um Homem Tenta Ser Anjo no que diz respeito à sua proposta, revelada no título. Em 15 Poemas Negros, introduz a reflexão que irá nortear toda a sua produção posterior, sobre o significado de ser negro em uma sociedade que nega a marginalização ao disseminar o mito da “democracia racial”. No prefácio, Florestan Fernandes destaca a ligação espiritual com os ancestrais africanos escravizados, manifestada em alguns de seus versos:

Dê-me a mão.

Meu coração pode mover o mundo

com uma pulsação…

Eu tenho dentro em mim anseio e glória

que roubaram a meus pais.

Meu coração pode mover o mundo,

porque é o mesmo coração dos congos,

bantos e outros desgraçados,

é o mesmo.

No Estadão, ganhava salário acima da média em outros jornais e tinha contato com intelectuais e artistas que frequentavam o jornal. Aproximou-se de “modernos” como Guilherme de Almeida, Sérgio Milliet, Domingos Carvalho da Silva, Luiz Martins (cronista), Paulo Bomfim, Ruy Apocalipse, Lygia Fagundes Telles, Hilda Hilst… No escritório de sua casa, no bairro de Lauzane Paulista, exibe com orgulho seus retratos feitos por Darcy Penteado e Clóvis Graciano. Declamava versos no programa A Hora do Livro, da Rádio Gazeta, dirigido pelo intelectual e radialista Fernando Soares. Nessa mesma época, com 22 anos, começa a frequentar o meio negro da capital e ingressa na Associação Cultural do Negro (ACN), onde conhece figuras como o poeta Solano Trindade, o escritor Fernando Góes, o tenente Rosário, pai de Theodosina Ribeiro, Henrique Cunha e o jornalista José Correia Leite, figura ímpar para a história da Imprensa Negra. Estes dois últimos, Henrique Cunha e Correia Leite, eram remanescentes da geração que construiu a Frente Negra Brasileira. Conhece também intelectuais brancos que frequentavam aquele espaço em alguns momentos, como Afonso Schimdt, autor do romance abolicionista A Marcha, a Colombina (Yde Schloenbach Blumenschein), fundadora da Casa do Poeta, um reduto romântico e parnasiano, além de conhecer Florestan Fernandes e Henrique L. Alves.

Inicia, nessa época, sua colaboração com a Imprensa Negra, no jornal O Novo Horizonte, onde se torna redator-chefe. Ainda nesse período, colabora com Mutirão, jornal fundado em 1959; com Niger, revista que surge entre 1959 e 1960; e com Ébano, de 1961. Com 23 anos, torna-se diretor de cultura da ACN, organizando saraus literários, criando um coral que se apresenta não só em São Paulo, mas também em várias cidades do interior paulista. No entanto, todas as noites, às 22 horas, tinha que estar no Estadão para o seu trabalho de revisor.

Arrisco um palpite: aquele rapaz magro, de óculos, certamente bem vestido e cortês, que estudara e foi muito bem recebido no meio negro paulistano, tornando-se presença constante em saraus e em reuniões, nas quais recitava suas poesias, além de conhecer literatura e música clássica, ter um bom emprego, sendo respeitado pela elite intelectual branca, encarnava um ideal de “bom moço negro” que habitava o imaginário de homens e mulheres da intelectualidade afrodescendente, em grande parte voltada para uma integração harmônica do negro na sociedade brasileira.

Como se percebe, sua vida cultural não se restringe ao meio negro. No final da década de 1950, frequenta também, assiduamente, o saguão da Biblioteca Municipal Mário de Andrade e os bares próximos, pontos de encontro de uma juventude intelectualizada – em grande parte candidatos a escritores e escritoras – que discutia literatura, chegando mesmo, em 1962, a organizar um movimento literário de breve duração, o Desagregacionismo, que tinha a pouco modesta pretensão, natural da juventude, de “revolucionar” a poesia do modernismo brasileiro. “Nessa época, entre os dois primeiros livros – conta Oswaldo – estou lendo bastante teoria, como O Amador de Poemas, de Péricles Eugênio da Silva Ramos, que foi grande influência na minha vida. E também Cartas a um Jovem Poeta, de Rilke, leitura obrigatória dos poetas que se reuniam no saguão da biblioteca municipal”.

Oswaldo de Camargo na Associação Cultural do Negro, 1959. (Foto: Não identificado – Arquivo do autor)

É nesse contexto que Oswaldo de Camargo se torna um poeta brasileiro assumidamente negro, que sofre influências de Drummond, Bandeira, Sá-Carneiro, Fernando Pessoa, Rilke e, arrisco-me a dizer, o primeiro modernista da poesia negra do país, um poeta que já não faz mais da rima “a salvação da seara poética”, como diz Drummond. Usa verso livre, verso branco, sim, mas em termos. Oswaldo, na verdade, segue os paradigmas da Geração de 45, que tem suas maiores expressões em Péricles Eugênio da Silva Ramos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari:

É uma reação contra a forma de Mário de Andrade. A Geração de 45 vai trabalhar com extremo esmero a forma (seus integrantes chegam a ser tachados de neoparnasianos). Eu estou, como ideário poético, nesse grupo que se contrapõe a um certo relaxamento do pessoal de 22, usado para enfrentar o Parnasianismo de Olavo Bilac, ‘ourives da forma’.”

Interessante observar que o tema do “elo”, que dá título a este texto, ressurge em O Negro Escrito (1987), quando Oswaldo de Camargo analisa o lugar de sua própria produção na história da poesia negra brasileira: “Elo – por uma questão cronológica – necessário para a ‘Nova Poesia Negra’, que para nós começa a partir de Oliveira Silveira, é a nossa produção. Elo apenas. Por termos estreado já em 1959, nos consideramos um ‘antigo’. Para alguns críticos, somos ‘novíssimos’ da Geração de 45, ao lado de Lindolph Bell, Ruth Maria Chaves, Lélia Coelho Frota, Fernando Py, Hermínio Bello de Carvalho, Afonso Romano de Santana”10.

É também nessa época que começa a voltar os olhos para a prosa. Já tinha bom conhecimento do romantismo e dos poetas do simbolismo, passando a ler os prosadores lá pelos 24 anos de idade. Devora não só os autores brasileiros como Adonias Filho e Gerardo de Mello Mourão, mas também os mais citados no meio jovem que frequentava, como Hermann Hesse, de O Lobo da Estepe, e Thomas Mann, de A Montanha Mágica. A partir daí, era natural que tentasse a prosa. Depois de algumas frustrações, o primeiro texto que deu certo foi o conto “Civilização”, que teve até agora o maior número de traduções entre tudo o que escreveu neste gênero. Ele revela ter escrito “Civilização” quase com um ímpeto poético. Foi esse texto que abriu caminho para a elaboração dos outros contos, que formariam O Carro do Êxito. Vale um pequeno tira-gosto:

Subi na “Neurotic’s House”, porque Fred foi com a minha cara. Foi, pousou a mão no meu ombro, falou logo:

– Gostei de você, preto, gostei mesmo…

O mundo bravo comigo, o desencanto reinava na minha vida. Exemplo: o maestro Borino, que me alugara o quarto, me enxotou e largou nos meus ouvidos umas palavras, com jeito sofrido, mas largou:

– Assim não dá, Paulinho, a gente quer ajudar, mas vocês…

– Aí está, vocês, pretos, pessoal de côr… Se traiu o maestro, claro, se traiu. (…)

Conhecemos até agora um pouco da formação do poeta e do prosador, mas o ensaísta se amplifica, sobretudo a partir de 1975, quando Oswaldo sai da revisão e passa a editar a seção São Paulo Pergunta, do Jornal da Tarde (JT). Ao mesmo tempo, também tem como cargo fazer a revisão e preparação dos textos dos jornalistas e escritores que publicam na página 4, entre eles Luiz Carlos Lisboa e Frederico Branco. Vale lembrar que a página 4 era a página do patrão, Ruy Mesquita: “Isso me pôs em um corpo a corpo maior com o texto. Podia conversar com os autores, colocando os problemas que detectava“. Começa, também, nesse período, a escrever resenhas para o JT, em que sua face de ensaísta se mostra mais nitidamente. Privilegia a presença negra no jornal conservador ao falar de personagens como Dom Silvério Gomes Pimenta, primeiro bispo de Mariana, Cruz e Sousa, Lino Guedes, José Correia Leite, tratando de eventos que envolvem o negro com a literatura, como a página inteira sobre o Perfil da Literatura Negra, em 1987, ao mesmo tempo em que apura o estilo e a profundidade, chegando a fazer uma resenha do Dicionário de Música, obra póstuma de Mário de Andrade.

Na década de 1970, desenvolve grande atividade. Além das resenhas e artigos de crítica literária que escreve para o JT, colabora com o jornal da Imprensa Negra O Quadro, fundado em 1974, e participa da Antologia dos Poetas da Cacimba (1976), da primeira edição dosCadernos Negros (1978), ano em que também escreve a introdução de Memória da Noite, livro de estreia de Abelardo Rodrigues. Em 1979, lança a novela A Descoberta do Frio, reeditada em 2011 pela Ateliê Editorial. No prefácio, o grande estudioso da questão racial no Brasil, Clóvis Moura, classifica o livro como desconcertante e explica:

Oswaldo de Camargo procura, com muita habilidade, usar de um elemento – o frio – como contraponto dramático e simbólico de toda a obra. Em determinado momento um personagem aparece com frio. Esse frio não é apenas um fenômeno meteorológico, mas um elemento que o autor aproveita para poder desenvolver o seu recado e articular a sua trama. Um negro com frio. Mas, esse frio não vem apenas da atmosfera – outros não o sentem -, porém de uma situação existencial e social.”

Aqui talvez seja um bom momento para falar de outra característica desse escritor bragantino, que é a constante reelaboração dos textos publicados. Na orelha da nova edição de A Descoberta do Frio, Eduardo de Assis Duarte nos informa que “cotejando-se essa edição com a publicada em 1979 (que teve tiragem mínima, mal chegou às livrarias), ressalta-se, diante de quem leu a primeira, o trabalho fundo de reformulação, acréscimos e novas reflexões trazidas às páginas da nova versão.” De acordo com o pesquisador, na primeira edição, o “frio” cobriu-se de diferentes camadas “e uma explicação surge, polêmica, para justificar por que ele chegou solto, fácil, ao território negro “. Na nova edição, no entanto, segundo Assis Duarte, o “frio” ganha também feição de personagem, a Indiferença, “que pode abraçar brancos e negros”.

Outro exemplo de reelaboração está no poema “Em maio”, presente em O Estranho, muito declamado pelos jovens do grupo Quilombhoje por fazer crítica ao 13 de maio da Princesa Isabel:

Já não há mais razão para chamar as lembranças
e mostrá-las ao povo
em maio.
Em maio sopram ventos desatados
por mãos de mando, turvam o sentido
do que sonhamos.
Em maio uma tal senhora Liberdade se alvoroça
e desce às praças das bocas entreabertas
e começa:
“Outrora, nas senzalas, os senhores…”
Mas a Liberdade que desce à praça
nos meados de maio,
pedindo rumores,
é uma senhora esquálida, seca, desvalida,
e nada sabe de nossa vida.
A Liberdade que sei é uma menina sem jeito,
vem montada no ombro dos moleques
ou se esconde
no peito, em fogo, dos que jamais irão
à praça.
Na praça estão os fracos, os velhos, os decadentes
e seu grito: “Ó bendita Liberdade!”
E ela sorri e se orgulha, de verdade,
do muito que tem feito!

Na nova versão, Oswaldo alterou três versos finais do seu poema, talvez agora considerados um pouco pesados ou mesmo grosseiros:

Na praça, a Esperança se encolhe

ante o grito “Ó bendita Liberdade!”

E esta sorri, e se orgulha, de verdade,

do muito que tem feito…

Vamos permanecer um pouco mais nessa década tão importante, que marca uma inflexão na linha de desenvolvimento das relações raciais no país. É nesse momento que o papel de elo entre gerações, atribuído a Oswaldo, mostra toda sua importância. No mesmo quadro de efervescência que levou à construção do Movimento Negro Unificado (MNU), surge, principalmente em São Paulo, uma nova geração de escritores negros que se aglutinam em torno do grupo Quilombhoje. Durante o ano de 1978, existiu, em São Paulo, no bairro do Bexiga, o Centro de Cultura e Arte Negra (CECAN), onde se reuniam pessoas ligadas às letras, entre as quais o poeta Cuti e o advogado Hugo Ferreira que, juntos, decidiram lançar osCadernos Negros, pequenas coletâneas de poemas.

Paralelamente, Cuti participava de um grupo formado por Oswaldo de Camargo, Abelardo Rodrigues, Jorge Lescano e o falecido poeta Paulo Colina, que se reunia no bar Mutamba, no centro de São Paulo, para discutir literatura e que, por volta de 1980, resolveu batizar-se Quilombhoje. O grupo assumiu a publicação dos Cadernos Negros, recebeu adesões, mas, em seguida, sofreu uma ruptura, com a saída de Camargo, Colina e Abelardo, que criticavam principalmente a qualidade do material publicado: “Essa literatura que o negro produz surge exatamente das experiências particulares dele, mas tem de ser sancionada por um texto literário”, afirmou certa vez Oswaldo em entrevista a este repórter.

Os Cadernos Negros, no entanto, prosseguiriam, agora com Cuti, Abílio Ferreira, Sônia Fátima Conceição, Miriam Alves, Jamu Minka, Oubi Inaê Kibuko, Esmeralda Ribeiro e Márcio Barbosa. Na avaliação de Oswaldo de Camargo, a formação do Quilombhoje, sobretudo depois do surgimento dos Cadernos Negros, foi uma experiência necessária para que se formasse um coletivo que tornou possível reunir – como acontece até hoje – autores de todos os cantos do país, definindo um método de trabalho que deixou mapeada a maneira de escrever do negro, suas temáticas e suas buscas.

Outro episódio que reforça a característica de elo entre gerações de Oswaldo de Camargo, neste caso no âmbito do jornalismo, é a criação do “Caderno Afro-Latino-América”, no jornalVersus, da chamada imprensa alternativa, que se opunha à ditadura militar. Quando criou a publicação, em 1975, o jornalista Marcos Faerman trabalhava no Jornal da Tarde e era amigo de Oswaldo. Quando a equipe, que dirigia a publicação, resolveu tomar a iniciativa de criar uma seção dedicada à questão do negro, Faerman perguntou a Oswaldo se ele poderia chamar algumas pessoas que pudessem colaborar. Foi a partir daí que entraram em Versus jornalistas e intelectuais negros, como Neusa Pereira, Hamilton Cardoso, Jamu Minka, Tânia Regina Pinto e Wanderley José Maria.

A vida segue e, em 1984, Oswaldo publica novo volume de poesias, O Estranho, no qual, segundo ele, se nota muito mais a presença dos processos da Geração de 45. Thiara Vasconcelos afirma que essa obra é centralizada na tentativa de entender a experiência ambivalente do pertencimento a dois universos culturais, enquanto Zilá Bernd identifica a “experiência do exílio no interior de si próprio e do próprio país”, como fio condutor da obra. O poema Escolha faz parte do volume:

Eu tenho a alma voando

no encalço de uma ave cega:

Se escolho o rumo do escuro

me apoio à sombra do muro

pousado na minha testa.

Se elejo o rumo da alvura

falseio os passos da vida

e me descubro gritando

um grito que não é meu.

A antologia A Razão da Chama sai do prelo em 1986, com uma epígrafe na qual se utiliza do pseudônimo Benedito Antunes: “Eu tenho na minh’alma a angústia de todas as raças. Só há um pormenor: sou um negro”. Justificando plenamente o subtítulo Antologia de Poetas Negros Brasileiros, a obra mostra a linha evolutiva de uma escrita sobre o negro produzida pelo próprio negro, que recebeu o nome, às vezes contestado, de Literatura Negra.

Razão da Chama abriga autores que chegam do século 18, como o cantador de lundus Domingos Caldas Barbosa, passando por Luiz Gama, Cruz e Sousa, Lino Guedes, Solano Trindade, Oswaldo de Camargo, Eduardo de Oliveira, Carlos de Assumpção, Oliveira Silveira, Geni Mariano Guimarães, Paulo Colina, Cuti, Miriam Alves e muitos outros. Na apresentação da coletânea, que selecionou e organizou, Camargo escreve:

Possivelmente a proposta mais válida e renovadora desta soma de poetas – adentrando em várias gerações de autores – desde árcades, até a poesia moderna escrita hoje no País – é a junção, que, até onde sabemos, jamais foi feita com poetas ‘registrados’ já na história literária do Brasil. Pois é da obra de Caldas Barbosa, Luiz Gama, Gonçalves Crespo, Cruz e Sousa – negros – às correntes literárias posteriores, com poetas negros e mulatos que se revelam negros, que escorre esta seiva poética, alento, reivindicação, consolo, e afirmação de que nós também somos literatura.

Considerado, de acordo com Eduardo de Assis Duarte, um dos 20 livros mais importantes para a construção de uma consciência negra no Brasil, O Negro Escrito foi lançado em 1987, com preâmbulo de Paulo Colina, que ressalta a importância do trabalho do autor para “a depuração da bibliografia afro-brasileira”. É um livro, segundo Thiara Vasconcelos, “indispensável por fornecer uma visão abrangente do panorama histórico da produção literária afro-brasileira, com informações biográficas e apreciações críticas (de vários críticos e do próprio Camargo) e reproduzir poesias e/ou contos na seção intitulada “Breve Antologia Temática”. Camargo diz que só pôde escrever essa obra por que começou a juntar livros sobre o negro em um tempo em que isso não era comum:

Houve um tempo em que eu era um dos poucos pesquisadores dessa literatura. E fui juntando isso devagar, bem antes da chegada da nova geração, que veio formar como que um coletivo de autores negros, formado por Paulo Colina, Cuti, Jônatas Conceição, Adão Ventura, e tantos outros. E os livros iam surgindo e eu ia guardando: textos da Associação Cultural do Negro, etc. Na hora em que fui redigir O Negro Escrito, 90% do material eu já tinha comigo…”

Vida que segue, em 1988 Camargo escreve A Mão Afro-brasileira em nossa literatura e tem alguns de seus poemas traduzidos para o alemão. Na verdade, vários de seus poemas, contos e artigos a respeito da trajetória do negro brasileiro foram traduzidos para o alemão, inglês, francês, espanhol. Em 1992, publica nas coletâneas Poesia negra brasileira, e em 1998 emCadernos Negros: os melhores contos. No mesmo ano, recebe da Secretaria da Cultura de Santa Catarina a Medalha Cruz e Sousa, pelas publicações e estudos sobre a obra do poeta. Foi integrante do Conselho Editorial do jornal O Escritor, da União Brasileira dos Escritores e um dos fundadores, em 2001, da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira), do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo. Já aposentado no Grupo Estado, trabalhou sete anos na Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (IMESP) e é consultor de literatura do Museu Afro Brasil. Foi casado por 47 anos com Eunice (Florenice) Nascimento de Camargo, com quem teve seis filhos: Oswaldo, Sérgio, Maurício, Marcos, Márcia Helena e Daniel.

Para este jornalista, – que tem o privilégio de poder se dizer amigo de Oswaldo de Camargo –, ele executou com graça e leveza no piano de sua casa uma linda composição de sua autoria, revelando, em seguida, que é organista da igreja do bairro, Santo António de Lauzane Paulista, onde toca todos os sábados e domingos. Em meio às caixas e caixas de material acumulado ao longo dos anos, espalhadas por diversos cômodos de sua casa, falou também de um sonho que acalenta: reunir seu grande acervo de livros, quadros e partituras em um espaço cultural “para jovens que amem a literatura, a música, – diz ele – mas, sobretudo, os que desejem fazer do livro, como falou certa vez Marcel Proust, uma grande amizade”. E, com a realização desse sonho, digo eu, estaria se tornando um elo entre as futuras gerações de escritores e leitores da Literatura Negra brasileira.

__________________________________________________________

*Flávio Carrança é jornalista, sócio-diretor da Flama Jornalismo Ltda, editor chefe da revista Angola Yetu (do Consulado de Angola em São Paulo) e Diretor do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo, onde coordena a Comissão de Jornalistas Pela Igualdade Racial – COJIRA/SP.

Texto publicado no livreto distribuído na entrega do Título de Cidadão Paulistano à Oswaldo de Camargo, em 27/10/2015.

1 Literatura e Afrodescendência no Brasil: antologia crítica. Vol. 2 Consolidação. / Eduardo de Assis Duarte, organizador – Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.

2 Literatura negro-brasileira / Cuti – São Paulo: Selo Negro, 2010.

3 Literatura e Afrodescendência no Brasil: antologia crítica. Vol. 4 História, teoria, polêmica. Eduardo de Assis Duarte, organizador – Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.

4 Idem

5 Idem

6 Idem

7 Idem

8 Literatura e Afrodescendência no Brasil: antologia crítica. Vol. 2 Consolidação. / Eduardo de Assis Duarte, organizador – Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.

9 Reflexões sobre a literatura afro-brasileira: Quilombhoje,1985.

10 Antologia da Geração de 45, organizada por Milton de Godoy Campos

Gasometria – um conto de Gerson Salvador

Gasometria

Quem quer passar além do Bojador Tem que passar além da dor.”

(Fernando Pessoa)

Era estudante do quinto ano, estava de plantão noturno na Unidade de Terapia Intensiva, a maior do Hospital Geral, que recebe quase todos os pacientes cirúrgicos nos pós-operatórios. Curioso, queria saber dos casos, mas o residente, que na ocasião era o meu chefe, não tinha a menor condição de discutir, tinha muito trabalho. O meu era mais ameno, só precisava colher gasometrias arteriais de todos os pacientes.

Gasometria é um exame que dá informações importantes sobre o funcionamento principalmente dos pulmões e rins, fundamental na terapia intensiva onde se colhe de quase todos os pacientes ao menos uma vez ao dia. Como é obtida por punção de artéria, na maioria das vezes a radial (do pulso), tem que entrar fundo com a agulha, costuma ser doloroso.

No começo ficamos com dó dos pacientes, quando fazemos a punção profunda na pele eles fazem aquelas caras de dor e entramos bem devagarinho. É a pior coisa que se pode fazer, porque a artéria contrai e nunca mais se acha, dói muito mais. Aprendi que se colhesse com a mão dura e sem dó o procedimento se fazia com maior rapidez e menor trauma. Acabei achando que era um bom coletor de gaso.

Ali na UTI quase todos os doentes estavam sedados e intubados, respirando com auxílio de aparelhos que chamamos ventiladores mecânicos, eram dez pacientes, dez gasometrias. Colhi as nove primeiras sem dificuldades.

A décima seria em um paciente que me foi passado como um caso de câncer de pulmão em fase terminal. Perguntei ao residente se precisava colher o exame desse paciente. Ele achou que eu estava correndo de trabalho. Minha impressão era que em uma pessoa sem possibilidade de tratamentos era melhor não fazer procedimentos dolorosos. Ele disse que de manhã quando passasse o plantão para o seu chefe ele perguntaria das gasometrias e que ele precisaria passar todos os resultados. Discordei, vacilei, acabei acatando.

Cheguei ao leito dez onde estava Francisco. Ele usava uma máscara bem vedada que envolvia a boca e o nariz com oxigênio e ar comprimido sendo oferecidos em pressão. Estava acordado.

Ajeitei na bandeja de aço inoxidável: algodão com álcool, agulha e seringa.

– Boa noite seu Francisco.

Ele não pode falar por causa da máscara. Respondeu olhando em meus olhos. Olhar de ternura. Pegou na minha mão com certo carinho também.

– Eu sou estudante do quinto ano, estou fazendo estágio nessa UTI, preciso colher uma gasometria do senhor.

Balançou a cabeça consentindo.

Fiz uma punção no antebraço direito. Procurei a artéria radial. Ele fez cara de dor. Não achei. Lacrimejou. Fiquei com dó! Não podia, mas fiquei. Fiz uma segunda punção no antebraço esquerdo e não achei nada. Ele gemeu e se contorceu.

– Seu Francisco, eu não consegui! Vou chamar o residente para fazer a punção. Ele sabe fazer isso melhor do que eu. Não quero machucar o senhor.

Afastava-me do leito. Ele me puxou pelo avental. Balançou o dedo indicador direito fazendo um sinal de negativo. Olhou-me de uma maneira que não soube decifrar se era de raiva ou tristeza. Apontou duas vezes o mesmo dedo para meu peito. Mirou meu olho. Apontou a artéria radial direita. Deu três toques bem de leve próximo ao local que eu tinha puncionado. Afastou o dedo. Mostrou a palma da mão balançando suavemente, como quem pede calma. Pegou o meu indicador direito e colocou em um local bem delimitado com o pulso bem cheio, ele mesmo pressionou meu antebraço para que eu tocasse bem de leve, tocasse com minha delicadeza costumeira não sentiria nada. Introduzi a agulha com confiança exatamente onde ele me mostrou. Sangue fluiu. Vermelho vivo. Pulsante. Os olhos do homem brilhavam e ele ria!

O senhor é profissional de saúde?

Balança a cabeça fazendo sim.

O senhor é médico?

Levanta o polegar num gesto afirmativo.

Obrigado, professor, por sua generosidade. Eu nunca vou esquecer do senhor.

Ele apontou para mim depois girou a mão apontando um a um todos os pacientes da UTI.

Eu entendi que ele insistira que eu fizesse o procedimento, atravessando além de sua dor, não só por mim, mas por todos os outros pacientes da unidade, tomei a liberdade de interpretar que era por todos os meus futuros pacientes. Em poucos dias ele já não existia, cruzara o seu Bojador, deixara para traz suas tormentas. Todas as vezes que colho ou ensino a colher gasometria até hoje de certa maneira eu o visito.

Gerson Salvador é de Cansanção, sertão da Bahia. Vive em São Paulo desde os oitos anos. É médico infectologista e professor de Propedêutica Clínica na Universidade de São Paulo. Recebeu o prêmio “Centenário Mário de Andrade” em 1993, modalidade poesia, da Prefeitura de São Paulo quando era estudante da rede pública municipal. Em 2013 publicou “O anjinho do vendedor de sonhos” na antologia Sobrenome Liberdade.

Publicou o livro de contos O pior médico do mundo – Ciclo Contínuo Editorial, 2014.

Contato | gersonsalvador@gmail.com

Publicado no livro O pior médico do mundo (2014).

Link para compra: https://temporario-ciclocontinuo.lojaintegrada.com.br/none-10430712