De como Dom Silvério chegou à glória com a Palavra – Oswaldo de Camargo

Em 30 de agosto de 2017 comemora-se 95 anos da passagem de Dom Silvério Gomes Pimenta.

Um Negro, imortal da Academia Brasileira de Letras!

Em memória de Dom José Maria Pires, falecido dia 27 de agosto de 2017.

De como Dom Silvério chegou à glória com a Palavra

Oswaldo de Camargo

Houve quem chamasse Dom Silvério Gomes Pimenta, teólogo, historiador e primeiro bispo de Mariana, de “Bernardes brasileiro”.

Não é pouco. Mas a par dessa comparação de Dom Silvério com um dos maiores escritores da língua de Sá Miranda, Camões e Vieira, marcam a vida e a história do bispo negro de Mariana enredos de fato estupendos.

São já passados 150 anos de seu nascimento, em Congonhas do Campo (província de Minas Gerais). Dia 12 de janeiro de 1840, o lar paupérrimo de Antônio Alves Pimenta e Porcina Gomes de Araújo assistiu ao nascimento do primogênito Silvério, mais um menino negro, no século XIX, a pisar o chão da Pátria em tempo de escravidão. Aparentemente pura irrelevância. O relho e os berros de mando alcançavam o País de ponta a ponta. O menino Luiz Gama, que vai iniciar mais tarde, com ruído e alma inteira, a campanha abolicionista, neste mesmo ano está sendo vendido pelo pai, para pagar uma dívida de jogo, e é levado de Salvador para o Rio de Janeiro. Nessa cidade, o mulatinho Machado de Assis está para fazer um ano no dia 21 de junho. Com os três acontecerá o milagre da inteligência e da Palavra, desviando para os lados da respeitabilidade e da glória os caminhos da obscuridade, mas Silvério será também marcado, a claro lume visto, pela mão de Deus.

Fatos estupendos.

O luzir da inteligência de Silvério salta e faísca muito cedo em Congonhas do Campo. Com olhos fechados, pode ser visto… Manuel Seabra e Antônio Gurgel, gente da terra e mestres-escolas, enxergam esse luzir imediatamente e o proclamam. Aos nove anos o menino já tem concluído o curso primário.

É certo que a fome e a miséria disputam tolher desde cedo o brilho precoce de Silvério e é certo também que, com a morte do pai – conforme escreverá mais tarde o autor da Vida de Dom Viçoso, quando já vigário geral –, “a família ficou reduzida às angustias da pobreza, e não qualquer pobreza, senão indigência, na qual ocorreu parelhas a fome, a nudez, o desagasalho”.

Clemente Luz, no seu livro Infância Humilde de Grandes Homens, narra, de maneira deliciosa, essa fase da vida de Dom Silvério. O menino, aos dez anos, trabalha em uma casa de secos e molhados. E, nas palavras de Luz,

à noite, estava moído, com dor nos braços e nas pernas, tão pesado era o serviço que fazia. Mas, mesmo assim, não desanimava. Estudava em todos os momentos que podia. Para ler alguma coisa, saía de casa, porque ali não havia querosene o suficiente para acender a lamparina, e ia para a rua. Encostava-se aos postes, de onde pendiam os lampiões da cidade. Abria o livro e sem se incomodar com o frio e com o vento, nem com os bêbados que iam e vinham, lia, lia, até que seus olhos estivessem cansados e doloridos. Fechava o livro e voltava para dormir, pensando no que lera.”

O destino de Dom Silvério – vê-se – foi endireitado, nesses anos, à força dos livros. E com ajuda e com aceno de Deus – acrescentarão a mãe Porcina e os contemporâneos em Congonhas.

Há na vida de Dom Silvério, sobretudo na infância, um claro cerco de pessoas, humildes todas, que o socorrem nas horas extremas. Uma delas é o alferes Manuel Alves Pimenta, tio e padrinho do filho de Porcina. A pedido deste, o menino começa a frequentar as aulas no Colégio de Congonhas, dirigido pelos padres lazaristas, que funcionava ao lado do Santuário de Bom Jesus. É esse menino Silvério, negrinho indigente em Congonhas da Província de Minas Gerais, em tempo de escravidão, relho e mando, que se tornará padre em 1862, ordenado na matriz de Sabará, com 22 anos e meio, e bispo, com o título de Câmaco, em 26 de junho de 1890.

Dom Silvério, “Bernardes brasileiro”, foi um sábio. E conta a lenda – uma das várias que cercam a sua vida – que, quando já bispo, teria pronunciado um discurso em latim, na presença de numerosos cardeais, arcebispos e bispos de todo o mundo, em certo banquete em Roma. E, nessa ocasião, um cardeal que intimamente menoscabara da sua cor, teria murmurado cheio de pasmo:

Niger, sed sapiens! (Negro, mas sábio!).

Não resta a menor dúvida de que o prelado podia discursar em latim e noutras línguas – observa Fernando Pereira de Castro, S.J., biógrafo de Dom Silvério –, mas que o houvesse feito nas circunstâncias atrás supostas é pura fantasia.

Em 28 de maio de 1920, Dom Silvério entrou para a Academia Brasileira de Letras, sucedendo a Alcindo Guanabara. Recebeu-o Carlos de Laet, com estas palavras: “Sem aguardar a vossa iniciativa, a Academia Brasileira de Letras pediu-vos aspirásseis a ser um de nós”.

Levou-o à Casa de Machado de Assis, sobretudo o livro A Vida de Dom Viçoso, publicado quando o autor contava 37 anos. Uma obra que “não só aos devotos, como obra de edificação cristã, e aos homens de letras, pelo estilo vernaculíssimo, oferece real interesse. Também aos olhos dos sociólogos e filósofos é um livro precioso…” (Ivan Lins).

Tornou-se antológico o seu discurso de posse na Academia e que tem sido publicado sob o título “A Palavra”. Dele extraímos:

A nós, acostumados com as coisas grandes pela substância, grandes pelos efeitos, mas comuns pela frequente repetição, passam-nos muitas vezes despercebidas maravilhas estupendas. Assim acontece com a palavra do homem. Maravilha que só não espanta por ser comum a todos os homens. Leva a palavra ao entendimento, ao coração, à imaginação dos outros, os mais recônditos segredos de nossa alma. Grandes, variados, estupendos, os efeitos da palavra!”

Foi a palavra que determinou o rumo da vida de Dom Silvério, até sua morte, 30 de agosto de 1922. E Deus – acrescentariam ainda os contemporâneos de Congonhas do Campo, de Mariana das Minas Gerais.

(Publicado em “Caderno de Sábado” do Jornal da Tarde, 27/01/1979)

O poema que é ferro e ferramenta – Ele Semog escreve sobre o livro “Desakato lírico”, de Cizinho Afreeka

O poema que é ferro e ferramenta

por Éle Semog*

Poetas e poemas sempre estão na moda, mas desde o princípio deste terceiro milênio da Era Comum, na segunda década particularmente, tem sido possível experimentar uma verdadeira avalanche de poesias e de poemas, difundidos por meio de diversas mídias, e produzidos por poetas e artistas tão heterogêneos em seus estilos e temários, que leitores e críticos de literatura e de outras artes são obrigados a desenvolver novas formas de percepção sobre o que esses artistas expressam.

Identificar, perceber a poesia e transformá-la, escrevê-la na forma de poema é sempre um momento difícil, de inquietação, de pulsão de vida e morte da palavra e do eu. Então vem a percepção desse mundo que não se completa mas, que ainda assim, nos faz buscar compreendê-lo, como se tudo que nele esta contido fosse pleno, embora efêmero, fosse começo, embora contínuo. Isto é o contrário do diletantismo, cuja proposição é a semi-inércia, a compreensão amena do que a existência nos dita e do que é possível ocultar da dialética entre a poesia e o poema, entre o poema e a realidade que o habita.

Não existe diletantismo ou descaso nos poemas de Cizinho Afreeka reunidos neste livro de ‘Desakato Lírico’, cujo título já é um convite à inquietação e à mobilidade. Os textos, organizados em 7 intervenções, ou ações, ou capítulos, comunicam um eu poético que de vez em quando se manifesta lírico (melhor lúdico) mas, quando o faz, descarta a lira grega e exige o ressoar de atabaques, djembes, agogôs e só, quando muito ameno, marimbas.

Assassino o português/(…) não quero a sua língua na minha boca”. Para muito além de negar o fálico, que se apresenta explicito em outros movimentos do livro, eis ai, o poeta escreve para dizer que não quer acordo. Puxa o gatilho no poema ‘Mato’, falando que chegou e que produz literatura afrobrasileira, literatura negra de combate ao racismo. Caso ele próprio não se identifique com esses, ou tema enfrentar os cânones hegemônicos da literatura nacional e os acadêmicos, sua própria sociabilidade o denuncia pela luta que empreende contra o racismo e pelas mesmas razões de pele escritas por Lino Guedes, Luis Gama, Abdias Nascimento, Solano Trindade, Esmeralda Ribeiro, Miriam Alves, Lia Vieira, Conceição Evaristo e muitos de nós anônimos.

O gatilho permanece travado e Cizinho Afreeka solta o dedo nervoso no teclado: “Vamos cortar tudo que é branco?/(…) Cortar a carne/Açúcar/Farinha/Sal/Aspirina/Leite/Pó/Arroz/Tudo que faz mal”.

Toda poesia engajada em causas sociais resulta de uma consciência da necessidade de transformação, de mudança de determinado status quo, para uma situação de bem-estar desejada. Então, também o poeta é passível de transformação enquanto sujeito que comunica o que trabalha como matéria de consciência crítica. O poema não fica inerte: seja ele amor, exploração, infância, saudade, frustração, certeza, violência, exclusão, sexo, amizade. A questão no trato literário é como o poeta se utiliza dos recursos estilísticos para deixar fluir a construção de seu próprio estilo.

Pergunta de retórica, sinestesia, metáforas, oximoro são alguns dos recursos que aparecem no texto de Cizinho Afreeka, não como se buscasse um permanente conflito com o idioma de Camões, mas sim a sua plena denúncia, de quem é obrigado a se expressar em português quando sente as emoções ferverem, atavicamente, numa das centenas de línguas africanas: “Eu puto/Ela puta” – é obvio que se estivesse escrito numa das línguas bantu, o poeta não seria tão contido no seu dissentir.

Antropofágico, sedutor, polêmico, acusador e obsceno, ‘Desakato Lírico’ não se enquadra em nada disso. Seria simples demais, mole e rude demais para o leitor. É também um livro para ser discutido em grupos de formação de jovens, para refletir sobre posturas no enfrentamento ao racismo, para falar de amor e de luta à maneira da nossa gente negra. (…)“Infalíveis são os poemas ministrados em doses/cavalares”. É livro para levar nas viagens, ou para aproveitarmos quando nos sentirmos solitários.

Nas ações de pretalhagem, o poeta se debate. Sofre inconformado sentindo que a vida lhe arranca nacos da carne e do espírito. Reage e fala confidência pra dentro de si, mas deixando que todo mundo ouça e se sinta confortável nos seus segredos confelados: (…) “Quero algo sólido/Que me leve, leve às nuvens.”

Poeta desses tempos não pode negligenciar o elogio a mulher negra (e os reclamos também), mas se é para expressar a entrega, no que a poesia (mulher) pode ser escrita pelo nu do poeta, ou o poeta nu de fingimentos, aqui a ação do amorcentricidade é preta: “As curvas perfeitas das suas ideias/Os olhos atentos da sua alma amor/E a boca carnuda dos seus argumentos/O cabelo que encrespa com tudo que é dor.”

As outras intervenções e movimentos do livro: luz negra, transe, multilaços e melaminados, matem os ritmos, as provocações e a consciência da função do poema: “(…)boca que é pele da minha pele/boca que meu povo não repele”.

Certa vez um importante intelectual e escritor negro brasileiro, foi muito mal interpretado quando fez uma comparação, bastante inquietante, afirmando que uma mulher negra equivaleria a um Fusca e uma mulher branca a um Monza. Coitado dele, o coro comeu. Li este ‘Desakato Lírico’ umas quatro ou cinco vezes bisbilhotando as almas dos poemas. Lá pelas tantas concluí que gosto quando o poeta expõe suas vidraças. Veja só caro leitor o que tem no movimento transe: “(,,,)Não encontra rima na vida para subserviência/Muito menos para violência/Sabe ler os olhares e manter a postura”.

Ah. Leitor… não se iluda, a palavra de Cizinho Afreeka não é leve, é pedra. É ferro e ferramenta.

* Ele Semog – Escritor, poeta

 

Lançamento: Flisamba (FliSamba – Festa Literária do Samba).

Dia 16/07/2017 – 14:30h – Mesa de autógrafos: Cizinho Afreeka. Lançamento do livro: “Desakato Lírico”

Local: Renascença Clube (Rua Barão de São Francisco, 54). Contatos: (21) 3253-2322 – Marcia Renault (99713-0764) e José Reinaldo (97108-1000).

O Instituto de Estudos Avançados/USP recebe a Jornada Luiz Gama & Machado de Assis | 21 de junho (quarta-feira)

No dia 21 de junho participe da Jornada Luiz Gama & Machado de Assis, que marca a data de aniversário de nascimento de duas figuras decisivas na história da cultura brasileira do século XIX. A jornada tem como objetivo conhecer e compreender divergências e convergências na atuação desses dois homens de letras no seu tempo, bem como os modos como foram lidos e ressignificados na posteridade.

 A partir do exame de textos de Luiz Gama e Machado de Assis, e também de escritos sobre eles, a proposta do evento é comparar suas trajetórias, que se desenvolveram em paralelo (até onde se sabe, os dois não tiveram contato direto, pessoal ou por meio de correspondência pública ou privada), apesar das muitas amizades e atividades comuns. 

 Também serão focalizadas na jornada as estratégias de cada um para se inserir no ambiente letrado e se firmar como intelectual e escritor, bem como suas atuações na imprensa, como autores de crônicas, textos de intervenção e poemas satíricos.

 A Jornada Luiz Gama & Machado de Assis será realizada no dia 21 de junho, das 9h às 17h, na Sala de Eventos do Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP). 

O evento é gratuito e possui vagas limitadas. A participação é condicionada à realização de inscrição prévia pelo e-mail jornadagamamachado@gmail.com. As vagas são limitadas. Serão emitidos certificados de participação de ouvinte. A jornada é organizada pelos professores Hélio de Seixas Guimarães (USP) e Ligia Fonseca Ferreira (Unifesp).

  

QUA | 21.06.2017 | das 9h às 17h00

Sala de Eventos do Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP). Rua da Praça do Relógio, nº 109, 5º andar, Cidade Universitária, São Paulo

 Confira a programação completa do evento:

 9h – Abertura da Jornada com saudação de Alfredo Bosi

 9h30 – 12h – MESA 1

 Escravos letrados, senhores ‘embatucados’: a escrita educada de Luiz Gama e do Clube Literário de Bragança” – Maria Helena P. T. Machado (USP)

 Luiz Gama, a vida como prova inconcussa da história” – Diego Molina (USP)

 As leis e as letras: as trajetórias de Luiz Gama e Machado de Assis” – Angela Alonso (USP)

  

14h às 16h – MESA 2

 O caramujo e o carcará: vozes negras na luta antiescravista” – Eduardo de Assis Duarte (UFMG)

 Do ouvir e ler poemas: Luiz Gama e Machado de Assis” – Pedro Marques (Unifesp)

 “‘A melindrosa presunção das cores humanas’: notas sobre a recepção de Machado de Assis” – Hélio de Seixas Guimarães (USP)

 Luiz Gama ‘autor’, Luiz Gama ‘editor’: o que dizem as primeiras edições de Primeiras Trovas Burlescas” – Ligia Fonseca Ferreira (Unifesp)

  

16h30 – DEPOIMENTOS

 

A palavra de Luiz Gama no processo de criação de Um defeito de cor” – Ana Maria Gonçalves

  

17h – 17h30 – ENCERRAMENTO

Fonte | Comunicação Social FFLCH/USP

Resenha do livro “Lino Guedes – seu tempo e seu perfil”, de Oswaldo de Camargo | Ricardo Riso

Foto | Rua Poeta Lino Guedes, município de Socorro/SP – Marciano Ventura

*Ricardo Riso

A editora paulistana Ciclo Contínuo inicia um importante trabalho de publicar fortuna crítica de intelectuais negros brasileiros, preenchendo, assim, uma lacuna em nosso mercado editorial. A coleção Con_textura Negra, elaborada por Marciano Ventura, possui formato de bolso e paginação reduzida, contribuindo para a proposta introdutória ao autor contemplado sem perda de qualidade e aprofundamento em razão dos nomes selecionados de notório saber para confecção de cada volume.

O escritor e crítico literário Oswaldo de Camargo é o responsável pelo volume Lino Guedes – seu tempo e seu perfil (2016). O título já é bastante sugestivo, pois é essencial termos como perspectiva de análise da obra de Lino Guedes o contexto do pós-abolição e todas as adversidades para a população negra e como este intelectual se insere e se destaca nesse período.

Concordamos com o crítico quando afirma que Lino Guedes é um autor que merece destaque na literatura negra e na literatura brasileira como um todo. Nascido em 1897 e morto em 1951, Guedes atuou em Campinas e na cidade de São Paulo, época em que ocorria um racismo segregacionista e costumeiro (DOMINGUES, 2004) de fortes tensões raciais entre brancos e negros na capital paulista e com reflexos no interior. Esse racismo à paulista diferia do racimo brasileiro, pois, enquanto este procurava manter uma suposta cordialidade, dissimulação e informalidade, aquele era explícito e hostil. O racismo à paulista mantinha uma série de mecanismo para justificar a desigualdade costumeira do tempo da escravidão, mantendo os negros inferiorizados e submetidos a uma hierarquia racial, além da aversão da elite paulista aos ex-escravos, reforçada pelo separatismo desenvolvido pelos imigrantes brancos. Estes se consideravam superiores aos negros e aqui encontraram um ambiente no qual negros não podiam representar papéis de brancos, apoiado por códigos legais, costumes e uma segregação étnico-racial atuante no mercado de trabalho, instituições, escolas, lazer, áreas da cidade, práticas religiosas e desportivas, relações conjugais, ou seja, normativo no cotidiano das cidades.

Esse foi o contexto de atuação de Lino Guedes e para Camargo não há como “entender o verdadeiro Lino Guedes sem pelo menos uma vez entrar no reduto miserável do negro paulistano quarenta e poucos anos após a Abolição” (CAMARGO, 2016, p. 47).

Guedes tornou-se um dos protagonistas da chamada Imprensa Negra, foi um dos fundadores do jornal Getulino e colaborou em Progresso, tendo também trabalhado em diversos jornais da “imprensa branca”. Na literatura, publicou livros em diversos gêneros, mas sua importância se dá no âmbito da poesia, uma vez que Guedes foi o primeiro autor negro a escrever contemplando um público negro, ainda que a maioria desses leitores não dominasse a leitura como ficou registrado em dedicatória do livro O canto do cysne preto: “O que aqui está escrito/ não conseguirá saber/ porque ninguém sabe ler” (p. 43).

A respeito de sua poética, Camargo sinaliza a recorrência do verso em sete sílabas, o uso da redondilha maior como forma de favorecer a compreensão para uma “comunidade na maioria carente, mas pela qual ele quer ser entendido” (p. 23). Camargo destaca que essa poesia se propõe ser testemunho de seu tempo, registrando as adversidades do negro brasileiro, sendo, assim, um “propósito de salvação” (p. 23), o que diferencia Guedes de autores como Luís Gama e Cruz e Sousa, pois ainda que estes tenham realizados poemas nos quais a questão racial era contemplada, eles não visualizaram um público negro, aliás, lia-se pouco no país, inclusive entre os brancos (p. 25). Destacamos, em Guedes, a valorização da mulher negra no poema “Dictinha”, posição extremamente distante dos estereótipos do negrismo e de um modelo de beleza idealizado na mulher branca, aqui subvertida: “és a mais bela pretinha/ se não fosse profanar-te,/ chamar-te-ia… francesinha!” (p. 48).

Camargo possui um acervo vasto da Imprensa Negra e de autores negros brasileiros, o que o facilita traçar um panorama breve de autores que antecederam e foram contemporâneos de Lino Guedes, casos, além dos supracitados, dentre outros, Francisco de Paula Brito, Gervásio de Morais e Arlindo Veiga dos Santos. Expõe, com certa angústia, o silêncio de uma poesia com dicção negra desde a morte de Cruz e Sousa até a publicação dos livros de Guedes. Salienta que mesmo durante o período fértil da Imprensa Negra, dos grêmios recreativos e associações de homens de cor, principalmente na década de 1920, poucos poetas surgiram ou não deixaram maiores registros, caso de Natalino Carneiro.

Camargo expõe a boa relação de Guedes com intelectuais paulistas, como Coelho Neto, João Ribeiro e Silveira Bueno, frisa que sua obra não passou despercebida pela crítica literária, ainda que com equívocos, como considera-lo um “neossimbolista” (p. 31). Por outro lado, Camargo também expõe importantes ensaios sobre a obra de Lino Guedes realizados por Petrônio Domingues e David Brookshaw.

Destacamos as considerações importantes de Camargo acerca das escolhas de Guedes no meio literário, “com quem queria e com quem devia ficar” (p. 32). Conforme Camargo, Guedes foi contemporâneo do movimento modernista que “veio para quebrar, demolir, zombar dos figurões, refazer a mentalidade gasta”, por outro lado, os negros no geral “não tinham nada para quebrar, mas tudo ainda por fazer. O negro passou ao lado do que não lhe interessava; passou ao lado do movimento de 1922. Não era aquele o caminho de sua subida, a subida da coletividade negra, ao menos a de São Paulo” (p. 33). Completamos, conforme Oliveira (2014, p. 53-54, grifos do autor), que o modernismo brasileiro manteve os estereótipos do negrismo e do racismo europeu, a imagem do negro não rompeu a primazia do indígena, ou seja, a “literatura brasileira do século XX apenas troca o racismo do século XIX por uma ‘simpatia diluída’ que tendia a acumular o ‘pai João’, com os estereótipos e epítetos da simplicidade, da bondade e da alegria naturais.”

Lino Guedes era conservador, defensor da moral, dos bons costumes, do casamento e da família negra, da necessidade do estudo para os negros, crítico ferrenho do alcoolismo, ou seja, considerava que os negros deveriam absorver padrões brancos para se integrar à sociedade. Em seu livro Ressureição Negra, Guedes prega, exaltado, a necessidade de mudança de postura dos negros: “Estudemos. Eduquemos os nossos filhos. Selecionemos as nossas sociedades” (GUEDES, 1929, p. 15-16 apud CAMARGO, p. 45). Essa seria a Segunda Abolição. Esses posicionamentos o levaram a ter embates entre ativistas da Imprensa Negra, da Frente Negra Brasileira e com amigos como Gervásio Moraes.

Foi nessa época complexa do pós-Abolição, de dificuldades extremas para os negros, de segregação imposta, obrigando-os a unirem-se, a enquadrarem-se no ideal de branqueamento ou a rejeitarem este ideal, que Lino Guedes atuou e escreveu seu nome na história da literatura brasileira ao protagonizar os negros em sua poesia, ao se posicionar como negro e escrevendo para os negros. Uma referência obrigatória para os estudos da literatura negro-brasileira e da literatura brasileira de uma forma ampla. Para finalizar, elogiamos a inclusão, ao final do livro, do “Dossiê Lino Guedes – seleta de imagens” com diversas capas de livros, jornais e revistas com a escrita desse importante intelectual negro oriundas dos acervos particulares de Oswaldo de Camargo e Marciano Ventura.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

CAMARGO, Oswaldo de. Lino Guedes: seu tempo e seu perfil. São Paulo: Ciclo Contínuo, 2016. Coleção Con_textura Negra.

DOMINGUES, Petrônio. Uma história não contada: Negro, racismo e branqueamento em São Paulo no pós-abolição. São Paulo: Senac São Paulo, 2004.

OLIVEIRA, Luiz Henrique Silva de. Negrismo: percursos e configurações em romances brasileiros do século XX (1928-1984). Belo Horizonte: Mazza Edições, 2014.

Link para compra do livro

_____________________________________

*Ricardo Riso é Mestre em Relações Étnico-Raciais (CEFET/RJ). Com Henrique de Freitas organizou Afro-Rizomas na Diáspora Negra: as literaturas africanas na encruzilhada brasileira (Kitabu Editora, 2013). Autor do blog Riso – sonhos não envelhecem. Pesquisador e crítico literário, tem diversos artigos publicados em revistas especializadas no Brasil e na África. 

Dia 26 de maio acontece o lançamento do livro Ajeum – O Sabor das Deusas

O Coletivo Mulheres de Ori e o Ilê Asé Osun Obá Oshe Boiadeiro Sete Montanha e Bara Toco Preto convidam todas e todos para o lançamento do livro Ajeum – o sabor das deusas.

O lançamento será realizado no dia 26 de maio – sexta-feira -, às 19h, no Ilê Asé Osun Obá Oshe Boiadeiro Sete Montanha e Bara Toco Preto, localizado na Rua Tomaz de Aquino Pereira 111, Alto da Ponte Rasa.

PROGRAMAÇÃO
Abertura com o Babaloorisa Jorge Lúcio de Sàngó e a Mãe Dofonitinha D’Òsùn e o Coletivo Mulheres de Orí.

INTERVENÇÃO POÉTICA COM
Gabriela Martins
Suilan de Sá 
Nica 
Akins kintê
Cafuso

DISCOTECAGEM
Bia Sankofa

 

SOBRE O COLETIVO MULHERES DE ORÍ
Coletivo de mulheres que lutam em prol de melhores condições de vida das mulheres pretas da classe trabalhadora. Utilizam as artes integradas como ferramenta para promover o debate sobre questões de gênero, raça/etnia e classe. Trabalham com gastronomia, dança afro, artes visuais, estética e moda.

SOBRE O LIVRO
“O livro é pensado como uma ação coletiva que conta com a contribuição de pesquisadoras exclusivamente negras na sua elaboração. É composto por seis artigos, sendo eles: “Herdeiras do Ganho”, de Priscila Novaes, no qual demonstra o poder socioeconômico das “quitandeiras” na sociedade colonial brasileira; Tabuleiro de direitos: o registro do Ofício das Baianas de Acarajé pelo IPHAN, de Adriana Rodrigues, em que relata a luta pela visibilidade política e reconhecimento do ofício das baianas de acarajé como patrimônio imaterial brasileiro; “O poder feminino no culto aos orixás”, de Sueli Carneiro e Cristiane Cury, que defende a importância da figura feminina na religião de matriz africana; “Nação Efon”, de Taís Teles, o qual relata a história da Nação Efon no Brasil; “Mulheres de Efon”, de Adriana Rodrigues, por sua vez revela a história de Yá Dofonitinha D´Osun; e por último o artigo “Olórun abá um se – Olorun vos abençoe”, de Priscila Novaes, discorre sobre o significado do ajeum no candomblé.
A reverência e honra aos mais velhos é um dos pilares éticos da religião, o livro obedece a esta lógica quando presta homenagem e reaviva em nossas mentes o caminho de luta e sucesso percorrido por essas guerreiras do passado e que, ainda no tempo presente, na vida de suas netas e bisnetas, tecem os caminhos de liberdade, autoestima e emancipação da mulher negra. Esta obra se consolida tendo a função primordial de contribuir para a valorização daquelas que se dedicam à cozinha e ao culto de matriz africana.
Com a benção e licença de nossas deusas, registramos aqui nossa vida, nossa história e nossa luta!

Àse!! – Mãe Maria d´ Sàngó – ILÉ ÒGÚN ANAEJI ÌGBELE NI OMAN – ÀSE PANTANAL”

 

Textos de Priscila Novaes, Adriana Rodrigues, Tais Teles, Mãe Dofonitinha d’Osun, Sueli Carneiro e Cristiane Cury.

Realização | Coletivo Mulheres de Ori e Ilê Asé Osun Obá Oshe Boiadeiro Sete Montanha e Bara Toco Preto.

 

Realização | Coletivo Mulheres de Orí
Edição | Ciclo Contínuo Editorial
Projeto gráfico | Marciano Ventura
Fotos da Capa | Dadá Jaques (Barabô Editora)
Capa | Marcus Guellwaar Adún Gonçalves/ Dadá Jaques
Patrocínio | Vai/SMC