De como Dom Silvério chegou à glória com a Palavra – Oswaldo de Camargo

Em 30 de agosto de 2017 comemora-se 95 anos da passagem de Dom Silvério Gomes Pimenta.

Um Negro, imortal da Academia Brasileira de Letras!

Em memória de Dom José Maria Pires, falecido dia 27 de agosto de 2017.

De como Dom Silvério chegou à glória com a Palavra

Oswaldo de Camargo

Houve quem chamasse Dom Silvério Gomes Pimenta, teólogo, historiador e primeiro bispo de Mariana, de “Bernardes brasileiro”.

Não é pouco. Mas a par dessa comparação de Dom Silvério com um dos maiores escritores da língua de Sá Miranda, Camões e Vieira, marcam a vida e a história do bispo negro de Mariana enredos de fato estupendos.

São já passados 150 anos de seu nascimento, em Congonhas do Campo (província de Minas Gerais). Dia 12 de janeiro de 1840, o lar paupérrimo de Antônio Alves Pimenta e Porcina Gomes de Araújo assistiu ao nascimento do primogênito Silvério, mais um menino negro, no século XIX, a pisar o chão da Pátria em tempo de escravidão. Aparentemente pura irrelevância. O relho e os berros de mando alcançavam o País de ponta a ponta. O menino Luiz Gama, que vai iniciar mais tarde, com ruído e alma inteira, a campanha abolicionista, neste mesmo ano está sendo vendido pelo pai, para pagar uma dívida de jogo, e é levado de Salvador para o Rio de Janeiro. Nessa cidade, o mulatinho Machado de Assis está para fazer um ano no dia 21 de junho. Com os três acontecerá o milagre da inteligência e da Palavra, desviando para os lados da respeitabilidade e da glória os caminhos da obscuridade, mas Silvério será também marcado, a claro lume visto, pela mão de Deus.

Fatos estupendos.

O luzir da inteligência de Silvério salta e faísca muito cedo em Congonhas do Campo. Com olhos fechados, pode ser visto… Manuel Seabra e Antônio Gurgel, gente da terra e mestres-escolas, enxergam esse luzir imediatamente e o proclamam. Aos nove anos o menino já tem concluído o curso primário.

É certo que a fome e a miséria disputam tolher desde cedo o brilho precoce de Silvério e é certo também que, com a morte do pai – conforme escreverá mais tarde o autor da Vida de Dom Viçoso, quando já vigário geral –, “a família ficou reduzida às angustias da pobreza, e não qualquer pobreza, senão indigência, na qual ocorreu parelhas a fome, a nudez, o desagasalho”.

Clemente Luz, no seu livro Infância Humilde de Grandes Homens, narra, de maneira deliciosa, essa fase da vida de Dom Silvério. O menino, aos dez anos, trabalha em uma casa de secos e molhados. E, nas palavras de Luz,

à noite, estava moído, com dor nos braços e nas pernas, tão pesado era o serviço que fazia. Mas, mesmo assim, não desanimava. Estudava em todos os momentos que podia. Para ler alguma coisa, saía de casa, porque ali não havia querosene o suficiente para acender a lamparina, e ia para a rua. Encostava-se aos postes, de onde pendiam os lampiões da cidade. Abria o livro e sem se incomodar com o frio e com o vento, nem com os bêbados que iam e vinham, lia, lia, até que seus olhos estivessem cansados e doloridos. Fechava o livro e voltava para dormir, pensando no que lera.”

O destino de Dom Silvério – vê-se – foi endireitado, nesses anos, à força dos livros. E com ajuda e com aceno de Deus – acrescentarão a mãe Porcina e os contemporâneos em Congonhas.

Há na vida de Dom Silvério, sobretudo na infância, um claro cerco de pessoas, humildes todas, que o socorrem nas horas extremas. Uma delas é o alferes Manuel Alves Pimenta, tio e padrinho do filho de Porcina. A pedido deste, o menino começa a frequentar as aulas no Colégio de Congonhas, dirigido pelos padres lazaristas, que funcionava ao lado do Santuário de Bom Jesus. É esse menino Silvério, negrinho indigente em Congonhas da Província de Minas Gerais, em tempo de escravidão, relho e mando, que se tornará padre em 1862, ordenado na matriz de Sabará, com 22 anos e meio, e bispo, com o título de Câmaco, em 26 de junho de 1890.

Dom Silvério, “Bernardes brasileiro”, foi um sábio. E conta a lenda – uma das várias que cercam a sua vida – que, quando já bispo, teria pronunciado um discurso em latim, na presença de numerosos cardeais, arcebispos e bispos de todo o mundo, em certo banquete em Roma. E, nessa ocasião, um cardeal que intimamente menoscabara da sua cor, teria murmurado cheio de pasmo:

Niger, sed sapiens! (Negro, mas sábio!).

Não resta a menor dúvida de que o prelado podia discursar em latim e noutras línguas – observa Fernando Pereira de Castro, S.J., biógrafo de Dom Silvério –, mas que o houvesse feito nas circunstâncias atrás supostas é pura fantasia.

Em 28 de maio de 1920, Dom Silvério entrou para a Academia Brasileira de Letras, sucedendo a Alcindo Guanabara. Recebeu-o Carlos de Laet, com estas palavras: “Sem aguardar a vossa iniciativa, a Academia Brasileira de Letras pediu-vos aspirásseis a ser um de nós”.

Levou-o à Casa de Machado de Assis, sobretudo o livro A Vida de Dom Viçoso, publicado quando o autor contava 37 anos. Uma obra que “não só aos devotos, como obra de edificação cristã, e aos homens de letras, pelo estilo vernaculíssimo, oferece real interesse. Também aos olhos dos sociólogos e filósofos é um livro precioso…” (Ivan Lins).

Tornou-se antológico o seu discurso de posse na Academia e que tem sido publicado sob o título “A Palavra”. Dele extraímos:

A nós, acostumados com as coisas grandes pela substância, grandes pelos efeitos, mas comuns pela frequente repetição, passam-nos muitas vezes despercebidas maravilhas estupendas. Assim acontece com a palavra do homem. Maravilha que só não espanta por ser comum a todos os homens. Leva a palavra ao entendimento, ao coração, à imaginação dos outros, os mais recônditos segredos de nossa alma. Grandes, variados, estupendos, os efeitos da palavra!”

Foi a palavra que determinou o rumo da vida de Dom Silvério, até sua morte, 30 de agosto de 1922. E Deus – acrescentariam ainda os contemporâneos de Congonhas do Campo, de Mariana das Minas Gerais.

(Publicado em “Caderno de Sábado” do Jornal da Tarde, 27/01/1979)

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