Gasometria – um conto de Gerson Salvador

Gasometria

Quem quer passar além do Bojador Tem que passar além da dor.”

(Fernando Pessoa)

Era estudante do quinto ano, estava de plantão noturno na Unidade de Terapia Intensiva, a maior do Hospital Geral, que recebe quase todos os pacientes cirúrgicos nos pós-operatórios. Curioso, queria saber dos casos, mas o residente, que na ocasião era o meu chefe, não tinha a menor condição de discutir, tinha muito trabalho. O meu era mais ameno, só precisava colher gasometrias arteriais de todos os pacientes.

Gasometria é um exame que dá informações importantes sobre o funcionamento principalmente dos pulmões e rins, fundamental na terapia intensiva onde se colhe de quase todos os pacientes ao menos uma vez ao dia. Como é obtida por punção de artéria, na maioria das vezes a radial (do pulso), tem que entrar fundo com a agulha, costuma ser doloroso.

No começo ficamos com dó dos pacientes, quando fazemos a punção profunda na pele eles fazem aquelas caras de dor e entramos bem devagarinho. É a pior coisa que se pode fazer, porque a artéria contrai e nunca mais se acha, dói muito mais. Aprendi que se colhesse com a mão dura e sem dó o procedimento se fazia com maior rapidez e menor trauma. Acabei achando que era um bom coletor de gaso.

Ali na UTI quase todos os doentes estavam sedados e intubados, respirando com auxílio de aparelhos que chamamos ventiladores mecânicos, eram dez pacientes, dez gasometrias. Colhi as nove primeiras sem dificuldades.

A décima seria em um paciente que me foi passado como um caso de câncer de pulmão em fase terminal. Perguntei ao residente se precisava colher o exame desse paciente. Ele achou que eu estava correndo de trabalho. Minha impressão era que em uma pessoa sem possibilidade de tratamentos era melhor não fazer procedimentos dolorosos. Ele disse que de manhã quando passasse o plantão para o seu chefe ele perguntaria das gasometrias e que ele precisaria passar todos os resultados. Discordei, vacilei, acabei acatando.

Cheguei ao leito dez onde estava Francisco. Ele usava uma máscara bem vedada que envolvia a boca e o nariz com oxigênio e ar comprimido sendo oferecidos em pressão. Estava acordado.

Ajeitei na bandeja de aço inoxidável: algodão com álcool, agulha e seringa.

– Boa noite seu Francisco.

Ele não pode falar por causa da máscara. Respondeu olhando em meus olhos. Olhar de ternura. Pegou na minha mão com certo carinho também.

– Eu sou estudante do quinto ano, estou fazendo estágio nessa UTI, preciso colher uma gasometria do senhor.

Balançou a cabeça consentindo.

Fiz uma punção no antebraço direito. Procurei a artéria radial. Ele fez cara de dor. Não achei. Lacrimejou. Fiquei com dó! Não podia, mas fiquei. Fiz uma segunda punção no antebraço esquerdo e não achei nada. Ele gemeu e se contorceu.

– Seu Francisco, eu não consegui! Vou chamar o residente para fazer a punção. Ele sabe fazer isso melhor do que eu. Não quero machucar o senhor.

Afastava-me do leito. Ele me puxou pelo avental. Balançou o dedo indicador direito fazendo um sinal de negativo. Olhou-me de uma maneira que não soube decifrar se era de raiva ou tristeza. Apontou duas vezes o mesmo dedo para meu peito. Mirou meu olho. Apontou a artéria radial direita. Deu três toques bem de leve próximo ao local que eu tinha puncionado. Afastou o dedo. Mostrou a palma da mão balançando suavemente, como quem pede calma. Pegou o meu indicador direito e colocou em um local bem delimitado com o pulso bem cheio, ele mesmo pressionou meu antebraço para que eu tocasse bem de leve, tocasse com minha delicadeza costumeira não sentiria nada. Introduzi a agulha com confiança exatamente onde ele me mostrou. Sangue fluiu. Vermelho vivo. Pulsante. Os olhos do homem brilhavam e ele ria!

O senhor é profissional de saúde?

Balança a cabeça fazendo sim.

O senhor é médico?

Levanta o polegar num gesto afirmativo.

Obrigado, professor, por sua generosidade. Eu nunca vou esquecer do senhor.

Ele apontou para mim depois girou a mão apontando um a um todos os pacientes da UTI.

Eu entendi que ele insistira que eu fizesse o procedimento, atravessando além de sua dor, não só por mim, mas por todos os outros pacientes da unidade, tomei a liberdade de interpretar que era por todos os meus futuros pacientes. Em poucos dias ele já não existia, cruzara o seu Bojador, deixara para traz suas tormentas. Todas as vezes que colho ou ensino a colher gasometria até hoje de certa maneira eu o visito.

Gerson Salvador é de Cansanção, sertão da Bahia. Vive em São Paulo desde os oitos anos. É médico infectologista e professor de Propedêutica Clínica na Universidade de São Paulo. Recebeu o prêmio “Centenário Mário de Andrade” em 1993, modalidade poesia, da Prefeitura de São Paulo quando era estudante da rede pública municipal. Em 2013 publicou “O anjinho do vendedor de sonhos” na antologia Sobrenome Liberdade.

Publicou o livro de contos O pior médico do mundo – Ciclo Contínuo Editorial, 2014.

Contato | gersonsalvador@gmail.com

Publicado no livro O pior médico do mundo (2014).

Link para compra: https://temporario-ciclocontinuo.lojaintegrada.com.br/none-10430712

Posted in Sem categoria.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *