A grande Ruth Guimarães é a autora homenageada da Mostra de Literatura Negra – Ciclo Contínuo – Oswaldo de Camargo

Ruth Guimarães: breve roteiro de vida e escrita

Por: Oswaldo de Camargo

Ruth Guimarães nasceu em Cachoeira Paulista, em 1920.

Neste ano, o Brasil inteiro já se preparava para os festejos do centenário da independência do país, em 1922, e é nele que se vai dar em São Paulo a ruidosa tentativa de modernização na Arte, sobretudo na Literatura nacional. Fato é que em estética o Brasil não se soltara das amarras culturais da Europa, especialmente da França, que no século XIX era a grande influência na criação artística e na vida social (a moda chique vinha da França, livros, poucos se editavam aqui, imprimia-se muito na terra de Vitor Hugo, Baudelaire); era necessário criar o nosso modo brasileiro também na arquitetura, no resto.

Um dos jovens que atuam com mais entusiasmo na Semana de Arte Moderna é Mário de Andrade, nascido na Paulicéia, em 1893, e que terá imensa importância na vida intelectual da futura autora de Água Funda.

Ruth Guimarães começou a escrever cedo – com dez anos –, a princípio versos, experiência normal de todo candidato a escritor, espécie de afinação de instrumento para outros voos.

Sua estreia se dá em 1946, após ser aluna de Mário de Andrade, que, relata José Luiz Pasin em seu folheto Ruth Guimarães – Bio-Bibliografia, “a iniciou nos estudos de folclore e literatura popular.” O livro é Água Funda, notado desde o início: “Água Funda traz para o romance brasileiro não só o nome de uma notável estreante, como também uma contribuição literária de primeira linha”, foi a opinião geral da crítica.

Escrito por uma mulher negra, provavelmente, na época, a única com trânsito nos meios da intelectualidade paulistana, o livro, mesmo sem ter a intenção, atua fortemente na aventura de descobrir o Brasil, intento principal do que propunha o Movimento de 1922, em que estão fazendo a sua revolução inovadora o mestre Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti del Picchia (autor do longo poema Juca Mulato, de 1917), e tantos outros.

A autora surge pela mão de Edgard Cavalheiro, que viria a ser o mais dedicado e produtivo estudioso de Monteiro Lobato e – de causar espanto – escreveu Água Funda como que respondendo a um desafio, em tempo curtíssimo.

É bom ouvi-la em texto lido na Bienal Nestlé, da qual participou dando depoimento em 1988, no módulo “O Negro na Literatura Brasileira”:

“Acontece que eu era do grupo da Baruel*, onde pontificava o velho Amadeu de Queirós, a quem fui enviada para umas consultas folclóricas, por Mário de Andrade. O velho Amadeu já nessa ocasião tinha muitas queixas dos moços. Não fazem nada, não levam nada a sério. Eu tenho 77 anos e escrevo duas horas por dia.

Eu fui escutando aquela lenga-lenga. Não disse nada. Mineiro trabalha em silêncio. Saí e alguns dias depois apareci na Drogaria com os originais de Água Funda. Então ele me mandou para o Edgar Cavalheiro e a Globo editou meu 1º livro.”

O mundo em que, nesse tempo, transita Ruth Guimarães na Pauliceia é propício à criação literária dos que estão dispostos a escrever falando, sobretudo, e com paixão, de gente. Na época, podiam ser encontrados nas livrarias Praga de amor, de Amadeu de Queirós, “romance de análise”, ou “novela da vida”, de 1937; de Afonso Schmidt, O Dragão e as Virgens, de 1924 , ou A Marcha, romance da Abolição, publicado em 1941; de Mário de Andrade, O samba rural paulista, 1937, e O Baile das quatro artes (ensaios), 1943, além dos contos Os caboclos, 1920 – obrigatórios –, de Waldomiro Silveira (clássico da literatura regional no  Estado de São Paulo). Sem dúvida, havia inúmeros outros títulos; citamos esses por estarem, em vários sentidos, aproximados do universo da jovem escritora.

A seu modo, com a originalidade de colocar em um grande livro gente tida como pequena para matéria de ficção – o caipira –, escreve com as  premissas do humanismo. Literatura – prova Ruth Guimarães – tem de focar o homem, em sua pequena ou maior dimensão.

Se na sua juventude o mulato Fernando Góes, “jornalista de muitos méritos”, a levou a conhecer agremiações, clubes, sociedades negras, o ambiente em que  transitavam na época os afro-brasileiros em São Paulo, é, sem dúvida, nas pegadas de outro mulato, Terêncio (africano de Cartago – 150 – 190 antes de Cristo) que a autora vai criar seus multifacetados universos de escrita. De fato, é de Terêncio o verso famoso: “Sou homem, e julgo que nada de humano me é estranho”. Leiam-se Água Funda e tantos outros livros de Ruth e procurem-se neles indícios de seu humanismo.   

Percebe-se na escritora de Filhos do Medo – “ampla pesquisa folclórica sobre o diabo e todas as manifestações demoníacas no imaginário do homem valeparaibano” (José Luiz Pasin, folheto citado) – uma autora voltada excepcionalmente ao trabalho intelectual, em todas as fases de sua variegada atividade intelectual, criando os seus textos de ficção com gente miúda e anônima, escrevendo biografias, traduzindo. Desse modo, a par de Água Funda despontam títulos impossíveis de não serem citados, o acima mencionado, de 1950; As mães na lenda e na história, 1960; Líderes religiosos, 1961; Medicina mágica: as simpatias, 1986; Contos de cidadezinha, 1996.

Traduções, em bom número, notando-se predileção por Dostoievski: Contos de Dostoievski: introdução, seleção e tradução, 1987; Os melhores contos de F. Dostoievski: tradução, seleção e introdução, 1987; A mulher abandonada e outros contos de Balzac, 1992.

Junto a seu dom de contar, Ruth Guimarães conquistou a “sua linguagem”, criando com o romance Água Funda “uma obra revolucionária, sendo igualado do ponto de vista criativo a Sagarana de Guimarães Rosa” (Jorge Miguel Marinho, in Terra Paulista – histórias – arte – costumes, pág. 50).

Em 2008, entrou para a Academia Paulista de Letras, na qual ocupou a Cadeira n° 22.

Faleceu no dia 21 de maio de 2014, na sua cidade, Cachoeira Paulista.

Para além de nosso breve comentário, resta ler seus livros. Única forma de conhecer Ruth Guimarães em toda a sua dimensão  para a Literatura brasileira.

* Antiga farmácia localizada na Rua Direita com a Praça da Sé, no final dos anos 1940 e início de 1950. Montada por Amadeu de Queirós (1873-MG; 1955-SP), farmacêutico, romancista, contista e estudioso de folclore, tornou-se ponto de encontro de intelectuais por mais de dez anos e testemunho importante da vida literária na Pauliceia em que viveu Ruth Guimarães.

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Oswaldo de Camargo é jornalista e escritor. Hoje com 82 anos, é um dos mais importantes escritores da literatura negra brasileira. Contam-se entre alguns de seus livros O Negro Escrito - Apontamentos sobre a Presença do Negro na Literatura Brasileira; O Carro do Êxito; O Estranho; A Descoberta do Frio, Oboé, Raiz de um Negro Brasileiro e Lino Guedes – seu tempo e seu perfil. Oswaldo é também conselheiro do Museu Afro Brasil, em São Paulo.

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