Histórias de Tio Alípio e Kauê – O beabá do Berimbau – por Oswaldo Faustino

Jogo? Luta? Dança? Três artes numa só… a capoeira é, sem dúvida, uma parte fundamental da grande mancha negra, na brancura eurocêntrica que muitos imaginam ser a cultura brasileira.

E, apesar de algumas invencionices, como “mestres” que “modernizam” suas aulas ao som de CD player ou MP3, exempli cando os movimentos com DVD e imagens do Youtube, via internet; os fundamentos da capoeira ainda são transmitidos pela tradição ancestral da oralidade. Seus sons e ritmos ainda se originam de instrumentos rústicos – berimbaus, atabaques, pandeiros, agogôs e outros que possam dar mais vida às cantorias – produzidos pelas mãos calejadas de velhos artesãos.

Aí, me caem às mãos os originais de um livro, em processo de elaboração, assinado pelo jovem Marcio Folha, autor de outros trabalhos em HQ (história em quadrinhos) e que objetiva despertar a paixão de crianças e adolescentes – e por que não também nos adultos? – por um instrumento imprescindível à capoeira, que é o berimbau.

Logo nas primeiras linhas, o autor me pega pela sensibilidade, pela riqueza de uma viagem à imaterialidade: “O som abaloado do berimbau fala com espíritos encantados. Nos envolve como crianças nos braços da mãe…” Ouví-lo é sentir sua voz entrar na carne, cavucando e garimpando sentimentos profundos, fervendo o sangue. A alma vibra e o corpo treme. Fruto da diáspora, me embalo ao som do berimbau, envolvido e acolhido pelos braços e coração negros de Mama África.

Me vejo em Tio Alípio e em Kauê, perpetuadores da tradição oral: um conta o que ouviu e o outro escuta, sente, pensa, reelabora e reconta. De geração a geração. Não me canso de repetir a frase fundamental da cultura africana Dogom: “Trago dentro de mim toda a minha ancestralidade e a minha descendência”. Ora, é justamente a oralidade que mantém esse elo. O mestre conta e o discípulo (tornado mestre) reconta.

Marcio Folha escolheu uma forma juvenil para recontar. Sempre reverenciando o próprio mestre, ele deixa claro que essas história não são invencionices dele. Foram ouvidas e reouvidas por séculos, até chegar a sua vez de contar. E esse contador de histórias escolheu o HQ para chegar aos corações e às mentes de outros jovens e ali plantar o amor à capoeira, através do amor ao berimbau.

E é lindo, ver que a primeira imagem é inspirada na lenda da mulher que se transformou na árvore cujos galhos servirão de matéria-prima aos instrumentos que acompanharão as rodas de capoeira. Mulher-mãe, de voz canora e ecoante, sensibilizando com som e ritmo cada um dos futuros amantes dessa dança-jogo-luta.

Outras histórias e lendas des lam por esta centena de páginas, como se fossem um enredo magistral, desses que, se não vencem carnavais por incompreensão dos jurados, conquistam o grande público e anos a o são relembrados e cantados. O panteão afro-brasileiro desfila majestoso e é muito bom vê-lo, finalnalmente, chegando livre às mãos de crianças e adolescentes de nossas escolas.

Se Luana, personagem principal dos livros infantis que escrevi com Aroldo Macedo, vive num remanescente de Quilombo, os de Marcio Folha vivem num Quilombo contemporâneo na periferia paulistana, na Cohab de Cidade Tiradentes. Kauê é um garoto de vida urbana e está aprendendo com Tio Alípio a sua própria história de luta, de dança, de jogo, que o levará a se comunicar com os encantados, com a próprias ancestralidade e mesmo com sua descendência.

A linguagem textual é a da periferia, mas precisa chegar a cada casa e mente de qualquer bairro, de qualquer cidade, de qualquer estado ou província de qualquer país do mundo. O som deste berimbau vai ecoar em cada coração, cujos olhos percorrerem estas páginas.

Ilustrações simples e ao mesmo tempo detalhadas fazem dessa obra um HQ cativante e desperta a vontade de reproduzir os sons do berimbau; “Tim Tom Tom – Tom Tiiiim”, inter- meados pelo som do caxixi “Tchi Tchi … Tchi Tchi”. Banhado por estas onomatopéias, o corpo, instintivamente, quer gingar e a alma nos faz mergulhar na lenda que ocorre no Leste da África, que coincidentemente (ou não) é recontada na extremidade da região Leste da cidade de São Paulo.

Marcio Folha escreve, desenha, produz a obra completa, sem nunca deixar de consultar seu mestre. Uma necessidade de quem acredita ser fundamental não fugir da tradição, respeitar a hierarquia. É admirável, num tempo em que a palavra respeito não frequenta um vocabulário de uma parte significativa da nossa juventude.

Nesta obra ele viaja ao Continente Africano, há alguns séculos, e generosamente nos leva de carona para vermos nossos antepassados viverem livres e jogando-dançando-lutando o que seriam as origens da capoeira de hoje, que não os impediu de serem escravizados.

Porém, a tradição oral garantiu a sobrevivência desses fundamentos e, com eles, esses guerreiros, artistas e jogadores puderam trazer até os dias de hoje a luta pela resistência cultural, a dança que lhes embala a alma negra e o jogo da própria vivência, que os tem transformado, cada dia mais, em quilombolas do presente e do futuro.

A generosidade de Tio Alípio se confunde com a generosidade do próprio autor que nos toma pela mão e nos leva nesse mergulho na história de povos negros. Isso, na certeza de que baianos, ou não, tocamos e sempre tocaremos o berimbau, não “porque só tem uma corda” – como afirmou o insensível e revoltado coordenador do curso de Medicina da Universidade Federal da Bahia –, mas porque esta corda reata nossa existência tanto com nossa ancestralidade quanto com nossa descendência.

Folha sabe que nada melhor do que uma boa história, requinte de aventura, para cativar os jovens. Por isso, seu HQ, utiliza uma narrativa ao melhor estilo das Grafic Novels. Uma linguagem universal. E, com ele, vamos ver a capoeira perseguida, capoeiristas reprimidos, terreiros depredados e, em meio a tudo isso, a resistência cultural da semente dessa arte que já está no mundo todo. Ao lado do samba, ela é a cara, a voz e os movimentos do Brasil.

E ele não esquece de homenagear os grandes nomes tanto da luta-jogo-dança quanto da produção de berimbaus, como Tio Alípio, Espinho Remoso, Neco Canário Pardo, Tonha, Maria Pau Virou, Besouro Preto, Traíra, Pedro Mineiro, Noronha, Leó, Bobó, Samuel Querido de Deus, Benedito, Pastinha, Cobrinha Verde, Bimba, Caiçara, Tonho de Maré, Paulo dos Anjos, Limão, Bom Cabrito, Gato Preto e tantos que honraram o título de mestre.

Prepare seus olhos, ouvidos e, principalmente, seu coração e sua mente. Deixe esta semente cair nesse terreno fértil e nele florescerá a capoeira. Aí, nunca mais nada nem ninguém, seja pessoa, fato ou circunstância será capaz de arrancá-la de dentro de você. Só me resta, humildemente, fazer o que meu coração pede nesse momento e meus lábios anseiam dizer: “Muito obrigado, Marcio Folha!”

Histórias de Tio Alípio e Kauê – O beabá do Berimbau

Marcio Folha

Ciclo Contínuo Editorial

2a edição | 2018

152 páginas

Textos anexos (mediação de leitura): 

Elis Regina Feitosa do Vale (org); Vanísio Luiz da Silva; Leila Maria de Oliveira; Deivison Nkosi

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Oswaldo Faustino é jornalista e escritor. É autor da biografia do compositor, pesquisador e escritor carioca Nei Lopes (Ed. Summus), A Legião Negra (Ed. Summus), A luz de Luiz (Córrego) e, em parceira com Aroldo Macedo, A Cor do Sucesso (Ed. Gente), Luana a Menina que Viu o Brasil Nenem (FTD), Luana e as Sementes de Zumbi (FTD) e Luana Capoeira e Liberdade (FTD), entre outros livros.

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