Meu sonho é escrever: um brinde à Carolina como escritora – Fernanda Sousa

Meu sonho é escrever: um brinde à Carolina como escritora

Fernanda Sousa*

Cada vez mais conhecida pelo público brasileiro nos últimos anos, em especial pelo seu livro de maior sucesso, Quarto de Despejo: diário de uma favelada, publicado em 1960, Carolina Maria de Jesus tem despontado como uma das referências negras mais proeminentes e inspiradoras no cenário cultural e literário nacional, sobretudo no seio de movimentos, estudos e iniciativas tocadas por homens e mulheres negras. Nascida no dia 14 de março de 1914, na cidade de Sacramento, no interior de Minas Gerais, a trajetória de Carolina é marcada por inúmeras dificuldades materiais e experiências de racismo, comuns à população negra no contexto pós-abolição e ainda hoje.

No entanto, de modo insólito aos olhos e às expectativas da sociedade brasileira em relação aos indivíduos negrosi, Carolina consegue se fazer e se tornar escritora, tornando-se um fenômeno nacional e internacional com a publicação de Quarto de despejo, tendo sua imagem divulgada e espetacularizada como a “favelada” que escrevia. Foi com essa expressão que sua principal obra veio a público e que continua sendo bastante empregada para se referir a ela, subsumindo suas complexas facetas artísticas a um termo com o qual ela nunca se identificou, uma vez que Carolina se via, acima de tudo, como “poetisa”ii. Admirada, de um lado, pela sua trajetória inspiradora, que nos deixa curiosos e desejosos de saber mais sobre sua vida e, de outro, reduzida a uma espécie de olhar exotificante, que sublinha sua origem social e sua identidade racial como diferença absoluta, seu trabalho literário é, muitas vezes, obscurecido, e perdemos de vista a escritora Carolina, isto é, deixamos de efetivamente mergulhar nos seus textos e de conhecê-la a partir do que ela criou, reinventou e formalizou em seus tantos cadernos, onde costumava escrever.

É por esta e tantas outras razões que o lançamento do livro Meu sonho é escrever – Contos inéditos e outros escritosiii, pela Ciclo Contínuo Editorial, merece ser saudado como um acontecimento que confere a Carolina, mais do que nunca, o lugar de escritora, principalmente pelo trabalho cuidadoso de organização, preparação e revisão dos textos. Fruto de uma extensa pesquisa de Raffaella Fernandeziv, organizadora da obra, Meu sonho é escrever reúne contos inéditos e outros escritos da autora, reveladores da criatividade, do senso crítico e da inteligência de uma figura que manejava a linguagem em toda sua potência, borrando as fronteiras entre os gêneros literários e tendo a experiência como ponto de partida para a criação literária. Esta, por sua vez, se faz presente nessa obra de um modo tão fascinante e complexo que torna difícil pensar sua escrita como resultado de mera espontaneidade, ou seja, como se Carolina escrevesse impulsivamente, sem planejar e depurar seus textos. Não à toa, saltam aos olhos as inúmeras figuras de linguagem, o vasto vocabulário, os enredos e desenredos tecidos por por ela nos que textos que compõem esse livro, dando forma literária a um emaranhado de ações, memórias, experiências, sonhos, discursos, fatos e personagens, sejam reais ou não.

O livro apresenta uma Carolina com sua conhecida verve crítica, ainda tão atual, ao dizer que “é horrível conviver com o homem da atualidade, que está se desumanizando. É impiedoso e, quando se finge protetor de alguém, é visando interesse próprio”, mas que convive, de modo ambivalente, com sua fé e esperança no ser humano como alguém que tem o dever de “polir o caráter”, afirmando que “a maior superioridade nesse mundo é ser amável e proporcionar uns momentos de alegria aos nossos semelhantes”. Esses dizeres que, num primeiro momento, podem parecer ingênuos, são acompanhados por uma Carolina que pensa nos problemas do país e propõe soluções que vão desde reformas no campo e na cidade à defesa de trabalho e salário dignos, em um país que, segundo ela, “ainda está engatinhando, deitado eternamente em berço esplêndido”, liderado por homens que deixam muito a desejar. Por isso, ela afirma: “Se as mulheres governassem não fariam um governo abstrato. O nosso governo seria concreto porque o mundo governado pelos homens está decepcionando”.

Destacam-se também as memórias e as experiências da escritora, reconstruídas com contornos ficcionais de modo extremamente sensível e poético, nos aproximando, por exemplo, de sua infância, de sua primeira experiência de leitura, do início da sua paixão pelos livros, de sua autodescoberta como “poetisa”, de seu avô, conhecido como Sócrates africano, de suas tias, tios e primos, em textos que acionam nossa memória afetiva e nos permitem lembrar de tantas outras histórias familiares parecidas com as quais ela conta, principalmente quando se trata de famílias negras. Nesse aspecto, “Minha madrinha”, “Tia Geronima” e “Sócrates africano” são textos que se sobressaem no que diz respeito a uma dimensão memorialista, pois neles desfilam lembranças sinestésicas da escritora em torno de acontecimentos que, ao olhar de muitos, podem parecer simples e destituídos de importância, mas para ela transbordam de significados: a primeira vez que comeu banana frita com canela e sardinha com pão; o primeiro vestido que ganhara de presente; a madrinha que trançava e penteava seus cabelos e de quem pedia “bença” constantemente; o avô que, no leito de morte e no alto de seu caráter ilibado, pediu para os filhos pagarem uma dívida que tinha; a tia que só tinha uma panela e, por isso, despertava as três horas da madrugada para começar a preparar a comida. Estes são alguns de tantos outros eventos e experiências que a escritora reconstitui a partir de uma dicção que conjuga o olhar dela como criança com o seu olhar de uma mulher mais velha, promovendo um encontro de temporalidades que figura como um espelho no qual podemos enxergar também vivências e memórias de nossos pais, mães, avós, avôs, bisavós, bisavôs, tias e tios.

Em relação aos contos, “Onde estás, Felicidade?” aparece como um exemplo emblemático da inventividade de Carolina como escritora ao conceber uma história que não deixa a desejar em termos de caracterização de tempo, lugar, espaço e personagem, nos brindando com um bonito, profundamente humano e, ao mesmo tempo, dramático, (des)encontro amoroso, cujo desfecho nos emociona de um modo visceralmente ligado à ambiguidade do título do conto e que nos permite aproximá-lo ao famoso conto “Sôroco, sua mãe, sua filha”, de João Guimarães Rosa, ao tematizar questões como perda, abandono, solidão e loucura. Vale a pena citar o início, em que Carolina descreve graciosamente os personagens principais:

Não existe neste mundo quem não acalenta um sonho intimamente. Quem não aspire possuir algo que lhe proporcione uma existência isenta de sacrifícios. E o José dos Anjos era mesmo angelical nos modos de falar e tratar o próximo. Era piedoso. Antes de tomar uma resolução refletia profundamente. Um dia, ele viu a Maria da Felicidade e ficou cativo dos seus encantos. Ela era esbelta, com uns olhos negros e ovais, os cílios longos e arqueados, a boca pequena e os dentes níveos e retos. Foi na festa de Santo Antônio que eles dançaram ao redor da fogueira. Ela era a mais graciosa aos olhos de Jose dós Anjos.

Este é apenas um excerto dos tantos contos e outros escritos que compõe Meu sonho é escrever, um convite a uma experiência de leitura que nos permite conhecer as diferentes facetas e talentos de Carolina Maria de Jesus como escritora. Ela, com seu repertório imenso de leituras, suas visões de mundo e suas experiências, nos provoca, nos faz refletir, nos faz rir – há uma parte no livro chamada “Humorismos”, em que Carolina faz graça e nos desperta boas risadas –, nos faz chorar e, acima de tudo, nos torna mais humanos ao abordar e representar, em tantos momentos, as nossas limitações e fragilidades, mas sem deixar de acreditar no ideal como “combustível do corpo humano que impulsiona o nosso espírito a lutar”. Carolina, nos mais de quarenta textos e excertos que fazem parte do livro, se revela como uma hábil escritora, que aborda diferentes temas e vai muito além de uma “favelada” que escreveu sobre a favela ao fazer da literatura uma “nova possibilidade de existir” já que, com o fim da escravidão, “o negro passou de um modo de vida a outro, mas não de uma vida a outra”, como afirma Frantz Fanonv. Carolina, com seu sonho e ideal de ser escritora, realizado nas tantas histórias presentes em Meu sonho é escrever, nos ajuda a seguir sonhando com outra vida, mesmo quando “não há coisa pior na vida do que a própria vida”.vi

i Ver mais em: SILVA, Mário Augusto Medeiros. A descoberta do insólito: literatura negra e literatura periférica no Brasil (1960-2000). Rio de Janeiro: Aeroplano, 2013.

ii Ver mais em: MIRANDA, Fernanda Rodrigues de. Os caminhos literários de Carolina Maria de Jesus: experiência marginal e construção estética. São Paulo, 2013. Dissertação de Mestrado – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo.

iii JESUS, Carolina Maria de. Meu sonho é escrever – Contos inéditos e outros escritos. São Paulo: Ciclo Contínuo Editorial, 2018.

iv Ver mais em: FERNANDEZ, Raffaella A. Processo criativo nos manuscritos do espólio literário de Carolina Maria de Jesus. Campinas, 2015. Tese (Doutorado em Teoria e História Literária) – Universidade Estadual de Campinas.

v FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: UFBA, 2008.

vi JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. 8ª ed. São Paulo: Ática, 2004.

Disponível na PRÉ-VENDA: https://goo.gl/To6EcZ

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Fernanda Sousa é professora, revisora, bacharela em Letras e mestranda em Teoria Literária e Literatura Comparada na Universidade de São Paulo, onde desenvolve uma pesquisa comparativa em torno dos diários de Lima Barreto e de Carolina Maria de Jesus a partir da noção de negro drama.

 

 

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