Oswaldo de Camargo – Breve perfil biográfico | Flávio Carrança

Foto | Avelino Regicida

Oswaldo de Camargo: elo entre gerações

Flávio Carrança*

Questão de circunstância, de acaso, é a explicação que Oswaldo de Camargo dá para o fato de ser visto por muitos autores negros mais jovens do que ele como um elo entre as gerações. E, acrescenta, com sua modéstia habitual, que talvez isso se deva também ao fato de ter sobrevivido em relação a vários de seus companheiros de lida literária, já falecidos: “Muita gente vai antes do tempo. Eu não morri, segui escrevendo, comparecendo e informando, enquanto vários de meus companheiros se transfiguraram em lembrança… Que eu podia fazer?“, explica, sobre esse epíteto, em entrevista concedida a Thiara de Filippo1. Outro estudioso da literatura negra, Luiz Silva, o Cuti, diz que Camargo

no contexto estritamente literário, é o mais importante elo de gerações (grifo meu), pois sua dedicação à vertente negro-brasileira tem se dado não só pela acolhida aos jovens autores como também pela elaboração de ensaios, palestras acerca do assunto, prefácios, organização de antologias, livros histórico-literários, além da obra em prosa e verso.”2

A primeira obra publicada por Oswaldo de Camargo foi o livro de poesias Um Homem Tenta ser Anjo, de 1959. Depois desse, em 1961, vem 15 Poemas Negros, seguido de O Carro do Êxito: contos, de 1972, e da novela A Descoberta do Frio, de 1979. Também merecem destaque a organização de A Razão da Chama: Antologia de Poetas Negros Brasileiros, de 1986, e O Negro Escrito: Apontamentos Sobre a Presença do Negro na Literatura Brasileira, de 1987, que inclui uma antologia com textos de diversos autores; e, ainda, Solano Trindade, Poeta do Povo – Aproximações, de 2009. No ano seguinte, participa da coletânea Paula Brito: Editor, Poeta e Artífice das Letras, publicada pela Edusp, da qual foi o idealizador. Somam-se a esses títulos inúmeras participações em coletâneas, revistas e outras publicações, além do relançamento de A Descoberta do Frio pela Ateliê Editorial em 2011.

Mas, para entender um pouco melhor como se construiu esse escritor negro brasileiro, vamos voltar ao século passado, mais precisamente em 1936, na cidade de Bragança Paulista, quando e onde nasceu Oswaldo de Camargo. Filho de lavradores muito pobres, ficou órfão quando ainda era criança. Por conta disso, passou três anos no Preventório Imaculada Conceição, em Bragança, e outros dois anos em Poá, município situado a 34 quilômetros da capital e hoje integrado à Grande São Paulo. Ali, no Reino da Garotada Dom Bosco de Poá – dirigido pelo padre holandês Simão Switzar -, foi onde começou a desenvolver o gosto pela leitura, mergulhando em romances infanto-juvenis, como Genoveva, Duquesa de Brabante e Tom PLayfair. Com 13 anos, entrou no Seminário Menor Nossa Senhora da Paz, em São José do Rio Preto (SP), onde aos 16 anos começou a escrever.

Oswaldo de Camargo com 10 anos de idade. Praça da República, 1946. (Foto: Guerra – Arquivo do autor)

No seminário, leu Casimiro de Abreu, Castro Alves, Gonçalves Dias e Cruz e Sousa em livros didáticos ou paradidáticos, como a Antologia Nacional, de Carlos de Laet e Fausto Barreto e também O Português Prático, do professor Marques da Cruz, além de Páginas Floridas, de Silveira Bueno. “É bom lembrar que nesse tempo existia ainda – diz em entrevista a Eduardo de Assis Duarte – um parnasianismo tardio, que ditava as regras do bem escrever. No meu caso, o que eu fazia (tenho até hoje guardadas essas páginas) era copiar os poemas que me interessavam. Porque no Seminário em que estudei não nos permitiam ler nenhum poeta por inteiro. Havia veto aos poetas, possivelmente porque eram insinuadores de sensualidade”3.

Oswaldo avalia que, na verdade, o fato de o Seminário ter vedado a leitura das obras completas dos poetas acabou sendo bom, pois lhe deu mais “gana” de ler e o levou à disciplina:

Primeiro os poetas; depois os prosadores. Eu não misturei escolas. Egresso do Seminário, me nutri literariamente dos românticos – Castro Alves, Casimiro de Abreu, Fagundes Varela; dos parnasianos – Olavo Bilac, Alberto de Oliveira, Raimundo Correia; simbolistas – Cruz e Sousa inteiro, Alphonsus de Guimarães. Depois, em livros de minha propriedade ou emprestados, Drummond e outros modernistas.”4

Passado esse período de iniciação literária, entre os 16 e os 18 anos de idade, Oswaldo enfrenta uma crise, em parte desencadeada pelo ingresso na adolescência, mas causada, principalmente, pelo racismo. É o momento em que resolve sair do Seminário. Antes disso, no entanto, estava convicto de que tinha uma real vocação para o sacerdócio, e o padre Miguel Switzar, irmão de Padre Simão, aquele de Poá, começou a procurar um Seminário para ele prosseguir os estudos eclesiásticos. Mas as instituições consultadas não abriram as portas:

Não era questão de aproveitar o status dado pelo conhecimento de latim, francês, grego, conhecimentos de canto e música, como acontecia com tantos meninos do meu tempo. No meu caso, não era. Eu acreditava que tinha vocação; os padres que me educaram no Seminário em Rio Preto também acreditavam. E a noção de que existia, sim, preconceito na sociedade brasileira mostrou-se clara para mim nos meus 16 anos, idade em que comecei a escrever.”5

Nessa época, entra em profundo estado de melancolia, talvez mesmo depressão, mas produz, às vezes, dois ou mais textos em versos por dia, exercitando-se na técnica do soneto, com a necessária chave de ouro e tudo o mais: “Foi uma iluminação na minha vida de adolescente negro e pobre. E, naquele ano luminoso, tive a sorte excepcional de começar a estudar harmônio, um tipo de órgão pequeno, com palhetas em lugar de tubos”6. Aos 17 anos, tocava muitas vezes esse instrumento na catedral de São José do Rio Preto. O fato de ter se tornado um organista explica por que, em alguns contos que escreveu, aparecem situações envolvidas com a música, até no título, como se verifica em “Oboé”, de O Carro do Êxito. “A música que estudei, e continuo estudando, me tornou receptivo a algumas obras, como A Montanha Mágica, de Thomas Mann, em que há uma passagem famosa que se refere à importância política da música, da qual transponho um pequeno trecho para meu conto Oboé”. 7

Em 1954, aos 18 anos, frustrada a vocação eclesiástica, Oswaldo vem para a capital do Estado tentar uma vida nova. Já havia escrito um caderno de versos denominado “Vozes da Montanha”, com poemas em que usava a métrica de redondilha maior ou menor (versos de 5 ou 7 sílabas) ou sonetos, que mantém guardado até hoje por mera lembrança, mas que poderia ter sido seu primeiro livro. Depois de várias andanças à procura de emprego, resolve tentar a sorte no jornal O Estado de S. Paulo. Aproximou-se da família Mesquita, à época proprietária do jornal, devido ao fato de sua madrinha, Maria Esther Silva, prima de sua mãe, ser, havia já alguns anos, empregada na casa de dona Alice Vieira de Carvalho Mesquita, mãe de Luiz e de José Mesquita, diretores do grande jornal. Faz, no entanto, questão de esclarecer não ter sido muito beneficiado por esse laço. Conta que foi submetido a um rigoroso teste de português e passou. Em 1955, com 19 anos, começa a trabalhar como revisor, cargo de prestígio na época, porta de entrada para a redação do maior jornal do país, ainda funcionando no velho prédio da rua Major Quedinho.

Quando está na revisão do Estadão, em 1959, publica seu primeiro livro de poemas, chamadoUm Homem Tenta Ser Anjo, bem acolhido pela crítica. Thiara Vasconcellos de Filippo8 afirma que a precariedade da vida e o mito da “queda do homem” são referências constantes a envolver toda a obra, prefaciada por José Pedro Galvão de Souza, naquele tempo professor de Ética na PUC. “Em Um Homem Tenta Ser Anjo – escreve a pesquisadora – predominam os sentimentos de angústia e desalento, solidão e desamparo, e podem-se notar tanto a sua formação católica quanto os diálogos estabelecidos com Rainer Maria Rilke e Augusto Frederico Schmidt.” Em artigo publicado no livro Reflexões Sobre a Literatura Afro-brasileira(Quilombhoje, 1985), Cuti detecta na obra uma visão fatalista da história: “(…) Achar que Deus nos esqueceu é um desencanto que a religiosidade, sobretudo católica, nos legou diante da exploração do homem sobre o homem. Oswaldo de Camargo no seu livro de estreia (…) mostra, em meio a versos, uma forte tentativa de atingir o céu da sublimação que:

Ser anjo, em verdade, é coisa triste…

Pesa o corpo, Senhor, e cada nuvem

é inimiga chovendo exaustão…

Tédio grosso pingando em minha testa,

por pensar que o céu é tão distante…9

Em 1961, lança 15 Poemas Negros, livro que, segundo Thiara Vasconcelos, não se diferencia muito do anterior, uma vez que também se caracteriza pela presença marcante dos valores católicos, sobretudo da ideia da salvação da alma por meio do sofrimento da carne. “No entanto – alerta a autora – distancia-se de Um Homem Tenta Ser Anjo no que diz respeito à sua proposta, revelada no título. Em 15 Poemas Negros, introduz a reflexão que irá nortear toda a sua produção posterior, sobre o significado de ser negro em uma sociedade que nega a marginalização ao disseminar o mito da “democracia racial”. No prefácio, Florestan Fernandes destaca a ligação espiritual com os ancestrais africanos escravizados, manifestada em alguns de seus versos:

Dê-me a mão.

Meu coração pode mover o mundo

com uma pulsação…

Eu tenho dentro em mim anseio e glória

que roubaram a meus pais.

Meu coração pode mover o mundo,

porque é o mesmo coração dos congos,

bantos e outros desgraçados,

é o mesmo.

No Estadão, ganhava salário acima da média em outros jornais e tinha contato com intelectuais e artistas que frequentavam o jornal. Aproximou-se de “modernos” como Guilherme de Almeida, Sérgio Milliet, Domingos Carvalho da Silva, Luiz Martins (cronista), Paulo Bomfim, Ruy Apocalipse, Lygia Fagundes Telles, Hilda Hilst… No escritório de sua casa, no bairro de Lauzane Paulista, exibe com orgulho seus retratos feitos por Darcy Penteado e Clóvis Graciano. Declamava versos no programa A Hora do Livro, da Rádio Gazeta, dirigido pelo intelectual e radialista Fernando Soares. Nessa mesma época, com 22 anos, começa a frequentar o meio negro da capital e ingressa na Associação Cultural do Negro (ACN), onde conhece figuras como o poeta Solano Trindade, o escritor Fernando Góes, o tenente Rosário, pai de Theodosina Ribeiro, Henrique Cunha e o jornalista José Correia Leite, figura ímpar para a história da Imprensa Negra. Estes dois últimos, Henrique Cunha e Correia Leite, eram remanescentes da geração que construiu a Frente Negra Brasileira. Conhece também intelectuais brancos que frequentavam aquele espaço em alguns momentos, como Afonso Schimdt, autor do romance abolicionista A Marcha, a Colombina (Yde Schloenbach Blumenschein), fundadora da Casa do Poeta, um reduto romântico e parnasiano, além de conhecer Florestan Fernandes e Henrique L. Alves.

Inicia, nessa época, sua colaboração com a Imprensa Negra, no jornal O Novo Horizonte, onde se torna redator-chefe. Ainda nesse período, colabora com Mutirão, jornal fundado em 1959; com Niger, revista que surge entre 1959 e 1960; e com Ébano, de 1961. Com 23 anos, torna-se diretor de cultura da ACN, organizando saraus literários, criando um coral que se apresenta não só em São Paulo, mas também em várias cidades do interior paulista. No entanto, todas as noites, às 22 horas, tinha que estar no Estadão para o seu trabalho de revisor.

Arrisco um palpite: aquele rapaz magro, de óculos, certamente bem vestido e cortês, que estudara e foi muito bem recebido no meio negro paulistano, tornando-se presença constante em saraus e em reuniões, nas quais recitava suas poesias, além de conhecer literatura e música clássica, ter um bom emprego, sendo respeitado pela elite intelectual branca, encarnava um ideal de “bom moço negro” que habitava o imaginário de homens e mulheres da intelectualidade afrodescendente, em grande parte voltada para uma integração harmônica do negro na sociedade brasileira.

Como se percebe, sua vida cultural não se restringe ao meio negro. No final da década de 1950, frequenta também, assiduamente, o saguão da Biblioteca Municipal Mário de Andrade e os bares próximos, pontos de encontro de uma juventude intelectualizada – em grande parte candidatos a escritores e escritoras – que discutia literatura, chegando mesmo, em 1962, a organizar um movimento literário de breve duração, o Desagregacionismo, que tinha a pouco modesta pretensão, natural da juventude, de “revolucionar” a poesia do modernismo brasileiro. “Nessa época, entre os dois primeiros livros – conta Oswaldo – estou lendo bastante teoria, como O Amador de Poemas, de Péricles Eugênio da Silva Ramos, que foi grande influência na minha vida. E também Cartas a um Jovem Poeta, de Rilke, leitura obrigatória dos poetas que se reuniam no saguão da biblioteca municipal”.

Oswaldo de Camargo na Associação Cultural do Negro, 1959. (Foto: Não identificado – Arquivo do autor)

É nesse contexto que Oswaldo de Camargo se torna um poeta brasileiro assumidamente negro, que sofre influências de Drummond, Bandeira, Sá-Carneiro, Fernando Pessoa, Rilke e, arrisco-me a dizer, o primeiro modernista da poesia negra do país, um poeta que já não faz mais da rima “a salvação da seara poética”, como diz Drummond. Usa verso livre, verso branco, sim, mas em termos. Oswaldo, na verdade, segue os paradigmas da Geração de 45, que tem suas maiores expressões em Péricles Eugênio da Silva Ramos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari:

É uma reação contra a forma de Mário de Andrade. A Geração de 45 vai trabalhar com extremo esmero a forma (seus integrantes chegam a ser tachados de neoparnasianos). Eu estou, como ideário poético, nesse grupo que se contrapõe a um certo relaxamento do pessoal de 22, usado para enfrentar o Parnasianismo de Olavo Bilac, ‘ourives da forma’.”

Interessante observar que o tema do “elo”, que dá título a este texto, ressurge em O Negro Escrito (1987), quando Oswaldo de Camargo analisa o lugar de sua própria produção na história da poesia negra brasileira: “Elo – por uma questão cronológica – necessário para a ‘Nova Poesia Negra’, que para nós começa a partir de Oliveira Silveira, é a nossa produção. Elo apenas. Por termos estreado já em 1959, nos consideramos um ‘antigo’. Para alguns críticos, somos ‘novíssimos’ da Geração de 45, ao lado de Lindolph Bell, Ruth Maria Chaves, Lélia Coelho Frota, Fernando Py, Hermínio Bello de Carvalho, Afonso Romano de Santana”10.

É também nessa época que começa a voltar os olhos para a prosa. Já tinha bom conhecimento do romantismo e dos poetas do simbolismo, passando a ler os prosadores lá pelos 24 anos de idade. Devora não só os autores brasileiros como Adonias Filho e Gerardo de Mello Mourão, mas também os mais citados no meio jovem que frequentava, como Hermann Hesse, de O Lobo da Estepe, e Thomas Mann, de A Montanha Mágica. A partir daí, era natural que tentasse a prosa. Depois de algumas frustrações, o primeiro texto que deu certo foi o conto “Civilização”, que teve até agora o maior número de traduções entre tudo o que escreveu neste gênero. Ele revela ter escrito “Civilização” quase com um ímpeto poético. Foi esse texto que abriu caminho para a elaboração dos outros contos, que formariam O Carro do Êxito. Vale um pequeno tira-gosto:

Subi na “Neurotic’s House”, porque Fred foi com a minha cara. Foi, pousou a mão no meu ombro, falou logo:

– Gostei de você, preto, gostei mesmo…

O mundo bravo comigo, o desencanto reinava na minha vida. Exemplo: o maestro Borino, que me alugara o quarto, me enxotou e largou nos meus ouvidos umas palavras, com jeito sofrido, mas largou:

– Assim não dá, Paulinho, a gente quer ajudar, mas vocês…

– Aí está, vocês, pretos, pessoal de côr… Se traiu o maestro, claro, se traiu. (…)

Conhecemos até agora um pouco da formação do poeta e do prosador, mas o ensaísta se amplifica, sobretudo a partir de 1975, quando Oswaldo sai da revisão e passa a editar a seção São Paulo Pergunta, do Jornal da Tarde (JT). Ao mesmo tempo, também tem como cargo fazer a revisão e preparação dos textos dos jornalistas e escritores que publicam na página 4, entre eles Luiz Carlos Lisboa e Frederico Branco. Vale lembrar que a página 4 era a página do patrão, Ruy Mesquita: “Isso me pôs em um corpo a corpo maior com o texto. Podia conversar com os autores, colocando os problemas que detectava“. Começa, também, nesse período, a escrever resenhas para o JT, em que sua face de ensaísta se mostra mais nitidamente. Privilegia a presença negra no jornal conservador ao falar de personagens como Dom Silvério Gomes Pimenta, primeiro bispo de Mariana, Cruz e Sousa, Lino Guedes, José Correia Leite, tratando de eventos que envolvem o negro com a literatura, como a página inteira sobre o Perfil da Literatura Negra, em 1987, ao mesmo tempo em que apura o estilo e a profundidade, chegando a fazer uma resenha do Dicionário de Música, obra póstuma de Mário de Andrade.

Na década de 1970, desenvolve grande atividade. Além das resenhas e artigos de crítica literária que escreve para o JT, colabora com o jornal da Imprensa Negra O Quadro, fundado em 1974, e participa da Antologia dos Poetas da Cacimba (1976), da primeira edição dosCadernos Negros (1978), ano em que também escreve a introdução de Memória da Noite, livro de estreia de Abelardo Rodrigues. Em 1979, lança a novela A Descoberta do Frio, reeditada em 2011 pela Ateliê Editorial. No prefácio, o grande estudioso da questão racial no Brasil, Clóvis Moura, classifica o livro como desconcertante e explica:

Oswaldo de Camargo procura, com muita habilidade, usar de um elemento – o frio – como contraponto dramático e simbólico de toda a obra. Em determinado momento um personagem aparece com frio. Esse frio não é apenas um fenômeno meteorológico, mas um elemento que o autor aproveita para poder desenvolver o seu recado e articular a sua trama. Um negro com frio. Mas, esse frio não vem apenas da atmosfera – outros não o sentem -, porém de uma situação existencial e social.”

Aqui talvez seja um bom momento para falar de outra característica desse escritor bragantino, que é a constante reelaboração dos textos publicados. Na orelha da nova edição de A Descoberta do Frio, Eduardo de Assis Duarte nos informa que “cotejando-se essa edição com a publicada em 1979 (que teve tiragem mínima, mal chegou às livrarias), ressalta-se, diante de quem leu a primeira, o trabalho fundo de reformulação, acréscimos e novas reflexões trazidas às páginas da nova versão.” De acordo com o pesquisador, na primeira edição, o “frio” cobriu-se de diferentes camadas “e uma explicação surge, polêmica, para justificar por que ele chegou solto, fácil, ao território negro “. Na nova edição, no entanto, segundo Assis Duarte, o “frio” ganha também feição de personagem, a Indiferença, “que pode abraçar brancos e negros”.

Outro exemplo de reelaboração está no poema “Em maio”, presente em O Estranho, muito declamado pelos jovens do grupo Quilombhoje por fazer crítica ao 13 de maio da Princesa Isabel:

Já não há mais razão para chamar as lembranças
e mostrá-las ao povo
em maio.
Em maio sopram ventos desatados
por mãos de mando, turvam o sentido
do que sonhamos.
Em maio uma tal senhora Liberdade se alvoroça
e desce às praças das bocas entreabertas
e começa:
“Outrora, nas senzalas, os senhores…”
Mas a Liberdade que desce à praça
nos meados de maio,
pedindo rumores,
é uma senhora esquálida, seca, desvalida,
e nada sabe de nossa vida.
A Liberdade que sei é uma menina sem jeito,
vem montada no ombro dos moleques
ou se esconde
no peito, em fogo, dos que jamais irão
à praça.
Na praça estão os fracos, os velhos, os decadentes
e seu grito: “Ó bendita Liberdade!”
E ela sorri e se orgulha, de verdade,
do muito que tem feito!

Na nova versão, Oswaldo alterou três versos finais do seu poema, talvez agora considerados um pouco pesados ou mesmo grosseiros:

Na praça, a Esperança se encolhe

ante o grito “Ó bendita Liberdade!”

E esta sorri, e se orgulha, de verdade,

do muito que tem feito…

Vamos permanecer um pouco mais nessa década tão importante, que marca uma inflexão na linha de desenvolvimento das relações raciais no país. É nesse momento que o papel de elo entre gerações, atribuído a Oswaldo, mostra toda sua importância. No mesmo quadro de efervescência que levou à construção do Movimento Negro Unificado (MNU), surge, principalmente em São Paulo, uma nova geração de escritores negros que se aglutinam em torno do grupo Quilombhoje. Durante o ano de 1978, existiu, em São Paulo, no bairro do Bexiga, o Centro de Cultura e Arte Negra (CECAN), onde se reuniam pessoas ligadas às letras, entre as quais o poeta Cuti e o advogado Hugo Ferreira que, juntos, decidiram lançar osCadernos Negros, pequenas coletâneas de poemas.

Paralelamente, Cuti participava de um grupo formado por Oswaldo de Camargo, Abelardo Rodrigues, Jorge Lescano e o falecido poeta Paulo Colina, que se reunia no bar Mutamba, no centro de São Paulo, para discutir literatura e que, por volta de 1980, resolveu batizar-se Quilombhoje. O grupo assumiu a publicação dos Cadernos Negros, recebeu adesões, mas, em seguida, sofreu uma ruptura, com a saída de Camargo, Colina e Abelardo, que criticavam principalmente a qualidade do material publicado: “Essa literatura que o negro produz surge exatamente das experiências particulares dele, mas tem de ser sancionada por um texto literário”, afirmou certa vez Oswaldo em entrevista a este repórter.

Os Cadernos Negros, no entanto, prosseguiriam, agora com Cuti, Abílio Ferreira, Sônia Fátima Conceição, Miriam Alves, Jamu Minka, Oubi Inaê Kibuko, Esmeralda Ribeiro e Márcio Barbosa. Na avaliação de Oswaldo de Camargo, a formação do Quilombhoje, sobretudo depois do surgimento dos Cadernos Negros, foi uma experiência necessária para que se formasse um coletivo que tornou possível reunir – como acontece até hoje – autores de todos os cantos do país, definindo um método de trabalho que deixou mapeada a maneira de escrever do negro, suas temáticas e suas buscas.

Outro episódio que reforça a característica de elo entre gerações de Oswaldo de Camargo, neste caso no âmbito do jornalismo, é a criação do “Caderno Afro-Latino-América”, no jornalVersus, da chamada imprensa alternativa, que se opunha à ditadura militar. Quando criou a publicação, em 1975, o jornalista Marcos Faerman trabalhava no Jornal da Tarde e era amigo de Oswaldo. Quando a equipe, que dirigia a publicação, resolveu tomar a iniciativa de criar uma seção dedicada à questão do negro, Faerman perguntou a Oswaldo se ele poderia chamar algumas pessoas que pudessem colaborar. Foi a partir daí que entraram em Versus jornalistas e intelectuais negros, como Neusa Pereira, Hamilton Cardoso, Jamu Minka, Tânia Regina Pinto e Wanderley José Maria.

A vida segue e, em 1984, Oswaldo publica novo volume de poesias, O Estranho, no qual, segundo ele, se nota muito mais a presença dos processos da Geração de 45. Thiara Vasconcelos afirma que essa obra é centralizada na tentativa de entender a experiência ambivalente do pertencimento a dois universos culturais, enquanto Zilá Bernd identifica a “experiência do exílio no interior de si próprio e do próprio país”, como fio condutor da obra. O poema Escolha faz parte do volume:

Eu tenho a alma voando

no encalço de uma ave cega:

Se escolho o rumo do escuro

me apoio à sombra do muro

pousado na minha testa.

Se elejo o rumo da alvura

falseio os passos da vida

e me descubro gritando

um grito que não é meu.

A antologia A Razão da Chama sai do prelo em 1986, com uma epígrafe na qual se utiliza do pseudônimo Benedito Antunes: “Eu tenho na minh’alma a angústia de todas as raças. Só há um pormenor: sou um negro”. Justificando plenamente o subtítulo Antologia de Poetas Negros Brasileiros, a obra mostra a linha evolutiva de uma escrita sobre o negro produzida pelo próprio negro, que recebeu o nome, às vezes contestado, de Literatura Negra.

Razão da Chama abriga autores que chegam do século 18, como o cantador de lundus Domingos Caldas Barbosa, passando por Luiz Gama, Cruz e Sousa, Lino Guedes, Solano Trindade, Oswaldo de Camargo, Eduardo de Oliveira, Carlos de Assumpção, Oliveira Silveira, Geni Mariano Guimarães, Paulo Colina, Cuti, Miriam Alves e muitos outros. Na apresentação da coletânea, que selecionou e organizou, Camargo escreve:

Possivelmente a proposta mais válida e renovadora desta soma de poetas – adentrando em várias gerações de autores – desde árcades, até a poesia moderna escrita hoje no País – é a junção, que, até onde sabemos, jamais foi feita com poetas ‘registrados’ já na história literária do Brasil. Pois é da obra de Caldas Barbosa, Luiz Gama, Gonçalves Crespo, Cruz e Sousa – negros – às correntes literárias posteriores, com poetas negros e mulatos que se revelam negros, que escorre esta seiva poética, alento, reivindicação, consolo, e afirmação de que nós também somos literatura.

Considerado, de acordo com Eduardo de Assis Duarte, um dos 20 livros mais importantes para a construção de uma consciência negra no Brasil, O Negro Escrito foi lançado em 1987, com preâmbulo de Paulo Colina, que ressalta a importância do trabalho do autor para “a depuração da bibliografia afro-brasileira”. É um livro, segundo Thiara Vasconcelos, “indispensável por fornecer uma visão abrangente do panorama histórico da produção literária afro-brasileira, com informações biográficas e apreciações críticas (de vários críticos e do próprio Camargo) e reproduzir poesias e/ou contos na seção intitulada “Breve Antologia Temática”. Camargo diz que só pôde escrever essa obra por que começou a juntar livros sobre o negro em um tempo em que isso não era comum:

Houve um tempo em que eu era um dos poucos pesquisadores dessa literatura. E fui juntando isso devagar, bem antes da chegada da nova geração, que veio formar como que um coletivo de autores negros, formado por Paulo Colina, Cuti, Jônatas Conceição, Adão Ventura, e tantos outros. E os livros iam surgindo e eu ia guardando: textos da Associação Cultural do Negro, etc. Na hora em que fui redigir O Negro Escrito, 90% do material eu já tinha comigo…”

Vida que segue, em 1988 Camargo escreve A Mão Afro-brasileira em nossa literatura e tem alguns de seus poemas traduzidos para o alemão. Na verdade, vários de seus poemas, contos e artigos a respeito da trajetória do negro brasileiro foram traduzidos para o alemão, inglês, francês, espanhol. Em 1992, publica nas coletâneas Poesia negra brasileira, e em 1998 emCadernos Negros: os melhores contos. No mesmo ano, recebe da Secretaria da Cultura de Santa Catarina a Medalha Cruz e Sousa, pelas publicações e estudos sobre a obra do poeta. Foi integrante do Conselho Editorial do jornal O Escritor, da União Brasileira dos Escritores e um dos fundadores, em 2001, da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira), do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo. Já aposentado no Grupo Estado, trabalhou sete anos na Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (IMESP) e é consultor de literatura do Museu Afro Brasil. Foi casado por 47 anos com Eunice (Florenice) Nascimento de Camargo, com quem teve seis filhos: Oswaldo, Sérgio, Maurício, Marcos, Márcia Helena e Daniel.

Para este jornalista, – que tem o privilégio de poder se dizer amigo de Oswaldo de Camargo –, ele executou com graça e leveza no piano de sua casa uma linda composição de sua autoria, revelando, em seguida, que é organista da igreja do bairro, Santo António de Lauzane Paulista, onde toca todos os sábados e domingos. Em meio às caixas e caixas de material acumulado ao longo dos anos, espalhadas por diversos cômodos de sua casa, falou também de um sonho que acalenta: reunir seu grande acervo de livros, quadros e partituras em um espaço cultural “para jovens que amem a literatura, a música, – diz ele – mas, sobretudo, os que desejem fazer do livro, como falou certa vez Marcel Proust, uma grande amizade”. E, com a realização desse sonho, digo eu, estaria se tornando um elo entre as futuras gerações de escritores e leitores da Literatura Negra brasileira.

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*Flávio Carrança é jornalista, sócio-diretor da Flama Jornalismo Ltda, editor chefe da revista Angola Yetu (do Consulado de Angola em São Paulo) e Diretor do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo, onde coordena a Comissão de Jornalistas Pela Igualdade Racial – COJIRA/SP.

Texto publicado no livreto distribuído na entrega do Título de Cidadão Paulistano à Oswaldo de Camargo, em 27/10/2015.

1 Literatura e Afrodescendência no Brasil: antologia crítica. Vol. 2 Consolidação. / Eduardo de Assis Duarte, organizador – Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.

2 Literatura negro-brasileira / Cuti – São Paulo: Selo Negro, 2010.

3 Literatura e Afrodescendência no Brasil: antologia crítica. Vol. 4 História, teoria, polêmica. Eduardo de Assis Duarte, organizador – Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.

4 Idem

5 Idem

6 Idem

7 Idem

8 Literatura e Afrodescendência no Brasil: antologia crítica. Vol. 2 Consolidação. / Eduardo de Assis Duarte, organizador – Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.

9 Reflexões sobre a literatura afro-brasileira: Quilombhoje,1985.

10 Antologia da Geração de 45, organizada por Milton de Godoy Campos

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