Prefácio do livro “Diálogos Contemporâneos sobre Homens Negros e Masculinidades”, por Deivison Mendes Faustino

Que quer o homem? Que quer o homem negro? Mesmo expondo-me ao ressentimento de meus irmãos de cor, direi que o negro não é um homem. [...] O negro é um homem negro; isto quer dizer que, devido a uma série de aberrações afetivas, ele se estabeleceu no seio de um universo de onde será preciso retirá-lo. - Frantz Fanon, 1952 .

O homem negro não é um homem! Afirma-nos provocativamente o psiquiatra martinicano Frantz Fanon (1925-1961). Em seu diagnóstico da sociedade moderna – leia-se, colonial – o homem negro está imerso em uma série de contradições sociais (racializadas) que o impedem de ser reconhecido como “homem”, ou seja, como parte da humanidade genérica. Em outras palavras, quando se pensa “o homem”, ou seja, o “humano”, o negro não está incluído. O homem negro, portanto, não é humano! É apenas um homem negro.

Esse jogo de palavras nos introduz a três grandes problemas enfrentados por esta coletânea, intitulada Diálogos Contemporâneos sobre Homens Negros e Masculinidades, organizada por Henrique Restier e Rolf Malungo de Souza: 1. o machismo; 2. o racismo; e 3. o lugar dos homens negros diante de ambos. Tendo em vista o primeiro aspecto, e ainda relacionando-o ao jogo de palavras supracitado, é válido mencionar a já extensivamente debatida sexização da linguagem nas sociedades ocidentais que destina à palavra “homem” o status de representante geral do gênero humano. É verdade que em sua origem indo-europeia, a referida palavra pode remeter tanto a homo (humano) quanto a humus (chão ou terra), marcando, no Ocidente, a ideia de que os “homens” (seres humanos) seriam seres terrenos, em contraposição aos deuses (celestiais).

Entretanto, não estava posto, a priori, o sexo do húmus. Mas o imaginário indo-europeu decidiu em algum momento de sua história linguística que o homo (o homem), em seu contraponto progressivo à natureza original, seria o macho – mesmo que a própria Terra, fonte de todo húmus existente, tenha continuado um substantivo feminino –, e este subsumisse a si as demais expressões sexuais. Assim, dos textos gregos clássicos ao velho testamento bíblico, dos tratados filosóficos iluministas à redação fanoniana, não apenas “o homem” é figurado como representante (i)legítimo da humanidade, como também, à própria imagem e semelhança de Deus. Se até Deus é considerado homem, os homens (do sexo masculino e não do gênero humano) serão vistos como deuses, e as mulheres somente excepcionalmente (após intensas lutas ainda em curso protagonizadas pelo feminismo) poderão almejar ao status previsto no Salmo 82:6. É o machismo que figura o homem (macho) como única expressão do humano, invisibilizando, portanto, as mulheres.

O segundo problema, muito bem descrito por Fanon, está relacionado ao racismo antinegro. Embora o autor siga o fluxo linguístico patriarcal ao empregar a palavra “homem” como sinônimo de gênero humano, ele denuncia o caráter necropolítico das sociedades modernas. Negros e Negras não são vistos como humanos porque o próprio desenvolvimento antropocêntrico da noção de humanidade – vista como ente contraposto à natureza (à terra-mãe, feminina) – teve na Europa colonialista o seu apogeu. Diante do colonialismo, os povos colonizados não poderiam compor a “orquestra da humanidade” como sujeitos, talvez, sim, como instrumentos (objetos), via trabalho forçado e apropriação não reconhecida de suas contribuições societárias.

Na fantasia ocidental, o humano (homo) é sujeito da razão e a razão é helênica ou europeia: a liberdade, permitida pela razão representa o distanciamento entre o homem e a natureza. Para Hegel, a história humana – o desenvolvimento do espírito absoluto rumo à consciência concreta de si – teve o seu ápice no Ocidente. Contudo, nesta narrativa, as pessoas que descendem da África não são homens (nem no sexo nem no gênero), pois não romperam com a natureza: são corpos selvagens e incivilizados, e não sujeitos de si. São apenas escravos do desejo dos verdadeiros sujeitos – os brancos. Os negros e as negras não são nada! Sequer são notados como partícipes da história, mas, se ainda assim não puderem ser ignorados na narrativa de algum branco protagonista, não figurarão como “homens” (do húmus), apenas como negros. O racismo é a negação substancial – e não apenas linguística – da humanidade das pessoas negras.

O terceiro aspecto a ser considerado está no cruzamento dos dois problemas anteriormente apontados. Não cabe discutir aqui qual deles é mais importante ou determinante (se o machismo ou o racismo), mas sim reconhecer que eles se entrelaçam e se potencializam, conformando os fios de uma teia muito maior de contradições sociais. Se considerarmos que esse entrelaçamento não é uma simples somatória de “opressões”, mas a composição histórica de um complexo de complexos sociais historicamente determinados, teremos que equacionar, em primeiro lugar, o quanto as intersecções de gênero e raça impactam negativamente a vida das mulheres negras na sociedade de classes e, em segundo lugar, o quanto que este segmento vem produzindo movimentações políticas e reflexões inovadoras.

A pergunta que fica após essa constatação é: se a mulher negra configura aquilo que Grada Kilomba denomina como “o outro do outro”, ou seja, é negada duplamente em sua humanidade, como mulher e como negra, e se o jogo dos opostos da identidade pressupõe que para cada particularidade invisibilizada (negada em sua humanidade) há um (ou vários) privilégio(s) invisível(is) e naturalizado(s), qual é o lugar do homem negro nessa intricada cadeia de contradições? Lançando mão de termos binários, seria adequado alocá-los no grupo dos privilegiados, enquanto homens sujeitos ou no grupo dos desprivilegiados, enquanto negros objetos? E se prosseguirmos ainda com a Grada Kilomba, considerando que todo “outro” pressupõe um “eu” ou “nós” e que ambos (“eu” e “nós”) são geralmente os sujeitos (visíveis ou ocultos) de qualquer texto, em que medida poderíamos pensar os homens negros como sujeitos (em uma sociedade racista)? Dando o papo reto, já que estamos falando do próprio Negro Drama, ou seja, do Sujeito Homi:  os homens negros são vítimas (do racismo) ou vilões (do machismo), afinal?

Para além disso, independente das respostas que deem a essas perguntas, como aplicar também aos homens negros as lições de Audre Lorde a respeito das “casas da diferença”, ou seja, como não reduzi-los também a um bloco pseudo-homogêneo que nos cegue para as diferenças, contradições e desigualdades implícitas a esse bloco? Se os homens negros não são todos iguais, como podemos discutir masculinidades negras sem, por um lado, desconsiderar os privilégios masculinos postos pelo machismo, mas, ao mesmo tempo, sem ignorar o quanto os elementos como identidade de gênero, orientação sexual e sexo biológico – bem como os atravessamentos de classe, idade, região, entre outros – podem diferenciar e até contrapor experiências e relações de poder entre homens negros em nossa sociedade?

São estas e outras perguntas que impulsionam a presente coletânea. Os ensaios selecionados por Henrique Restier e Rolf Malungo de Souza, duas grandes referências nacionais no tema das masculinidades negras, apresentam uma rica oportunidade para o aprofundamento destas questões de uma forma pouco usual. O leitor irá encontrar desde ensaios de cunho biográfico, como o relato de experiência nomeado por Airan Albino como “MilTons: múltiplas trocas em tom de conversa”, em que o autor fala em primeira pessoa de suas descobertas pedagógicas, estéticas e políticas a partir da mobilização de um grupo de homens negros, a ensaios teóricos como “Per-vertido homem Negro: reflexões sobre masculinidades negras a partir de categorias de sujeição”, de Tulio Custódio e “Homem negro, corporeidades e saúde: perspectivas históricas e sociológicas” de Thiago A. Soares (Tago Elewa Dahoma) e Douglas Araújo.

No texto de Custódio, o leitor encontrará a problematização, a partir do feminismo negro, das “categorias de existência” e “categorias de performance”, a partir do que emerge das questões latentes no debate público sobre masculinidades negras.  Já no artigo de Tiago A. Soares (Tago Elewa Dahoma) e Douglas Araújo,  toma-se as teorias da afrocentricidade como argumento em defesa de uma abordagem sobre a masculinidade negra “por fora de um viés em que ele é sempre deslocado para responder aos interesses das relações com as mulheres” ou do feminismo. Em síntese os autores propõem pensar os homens negros a partir de suas próprias indagações e problemáticas.

O leitor encontrará ainda a corajosa reflexão de Caio César, intitulada “Hiperssexualização, autoestima e relacionamento inter-racial”, na qual problematiza criticamente tanto a hiperssexualização do homem negro quanto a busca, por vezes, fetichizante do mesmo pelas mulheres brancas. No mesmo caminho, o artigo “O Corpo do Homem Negro e a Guerra dos Sexos no Brasil”, de Osmundo Pinho, discute o quanto a hiperssexualização destes homens é parte de um processo de abjeção racial, representada no trato violento (e criminalizador) do aparato estatal para com esses jovens e com suas expressões de desejo. Ainda neste sentido, encontramos o artigo de Henrique Restier da Costa Souza em que analisa a ideologia da mestiçagem e como as rivalidades entre as masculinidades negras e brancas influenciariam o elogio à mestiçagem como a ideologia “fundante” de nossa nação.

Já Lucas Veiga e Bruno Santana trazem questões que nem sempre encontram espaço no – já sem espaço – debate sobre as masculinidades negras. O primeiro, Lucas Veiga, nos brinda com o “Além de preto é gay: as diásporas da bixa preta”, no qual assume o “bixa preta” – “a diáspora da diáspora”, conforme argumenta – como categoria política dissidente e afrocentrada. O autor aponta para a necessidade de construção de laços políticos entre bixas pretas, pessoas pretas hétero, assim como a aproximação com as religiões de matriz africana – históricas no acolhimento a esse público – como estratégia política emancipadora, “suporte para a vida cotidiana e afago para a solidão”. Já Bruno Santana nos apresenta a importante – e também invisibilizada – questão dos homens trans no seio da comunidade negra, em particular, e da sociedade em geral. A pergunta mobilizada pelo autor é: se Fanon já havia nos alertado que em uma sociedade racista, o homem negro é reduzido ao seu genital, o que é ser um homem trans negro, ou seja, “homens de vagina, que construíram uma masculinidade sem pênis?”.

Diálogos Contemporâneos sobre Homens Negros e Masculinidades é, sem dúvida, uma grande contribuição ao debate, especialmente porque recusa os caminhos fáceis de enquadrar os homens negros, ou como vítimas indefesas do poder do homem branco – como se não tivessem escolhas a fazer e responsabilidades a prestar diante de seu coletivo – nem o monstro violador essencializado, criado pelas fantasias coloniais. É, sobretudo, um convite para que os homens negros tenham um espaço, não apenas para pensar sobre suas experiências particulares, mas também para reflexão sobre os custos nocivos de projetos de masculinidades que também interiorizaram. Encontramos aqui uma ginga muito interessante entre o negro tema e o negro vida. Um trabalho instigante e necessário em um momento como este, marcado por tantas polaridades empobrecidas.

A coletânea nos desafia a rever velhos conceitos historicamente úteis à luta política e a pensar a diferença na diferença. O desafio fanoniano que fica é o de pensar qual é o lugar para a unidade no meio de tantas diferenças. O que sabemos é que se houver um comum possível, é só a partir do cotejamento destes vários atravessamentos que ele pode vir a ser.

O lançamento acontecerá no dia 09 de maio, quinta-feira, às 19 horas, no Centro Cultural Olido (1º pavimento), localizado na Av. São João, 473 - Centro, São Paulo - SP.

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Entrada franca.

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Deivison Mendes Faustino

Professor Adjunto da Universidade Federal de São Paulo – Campus Baixada Santista, onde também atua como pesquisador do Núcleo Reflexos de Palmares e do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros – NEAB da UNIFESP e integrante do Instituto AMMA Psique e Negritude e do grupo Kilombagem. Publicou o livro Frantz Fanon - Um revolucionário, particularmente negro, 2018.

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