Livro pioneiro sobre o intelectual e revolucionário martinicano Frantz Fanon é lançado pela Ciclo Contínuo Editorial

Leia um trecho do livro Frantz Fanon - Um revolucionário, particularmente negro - Deivison Mendes Faustino ( pág 13-17 )

Por que Fanon, por que agora?

Esta pergunta foi levantada desta forma pela primeira vez em 1995, pelo pensador jamaicano Stuart Hall, em um encontro promovido pelo Institute of Contemporary Arts (ICA), de Londres. Já no início do texto, Hall revela o seu espanto com o fato de Fanon, até então esquecido, voltar a excitar o debate intelectual anglófono, particularmente em torno de seu primeiro livro, Pele Negra, Máscaras Brancas, escrito em 1952.

O destaque dado a esta publicação não foi gratuito, uma vez que os estudos anteriores sobre Fanon o vinculavam, frequentemente, aos debates relacionados às lutas de libertação do continente africano e à práxis revolucionária no terceiro mundo. Entretanto, a conjuntura teórica que Hall observava e, ao mesmo tempo, ajudava a forjar, oferecia um novo enquadramento àquilo que seriam consideradas as contribuições de Frantz Fanon: os debates sobre subjetividade, cultura e identificação.

Tendo tais diferenças de recepção em vista, o filósofo camaronês Achille Mbembe relata: “Se Os condenados da terra era o livro da época da práxis revolucionária, de Pele negra, máscaras brancas pode-se dizer que é um dos livros de cabeceira da viragem pós-colonial no pensamento contemporâneo” (2012). Alguns autores buscaram explicar essas diferentes recepções observando o interior da própria obra de Fanon, atribuindo-lhe uma cisão epistêmica fundamental.

Cedric Robinson, por exemplo, em seu e Appropriation of Frantz Fanon (1993), chegou a argumentar pela existência de um Fanon temporalmente cindido que teria – tal como o “jovem Marx” – “evoluído” das questões “pequeno-burguesas”, filosóficas, subjetivas e existenciais para uma reflexão “madura” que privilegia a práxis política como caminho para a emancipação (Op. cit.).

Em recusa a essa tese, Hall (Op. cit.) defende a existência de um elo teórico entre o conjunto de escritos e problematizações propostos por Fanon, mas para ele esse link se manifestaria na centralidade dos temas da subjetividade e dos complexos psíquicos provocados pela “epidermização” do olhar (HALL, 1996: 17). O pensador jamaicano visualiza ainda, na própria estrutura textual da obra fanoniana, uma ambiguidade que caracterizaria um “diálogo inter-relacionado e não concluído” entre Fanon, Césaire, Sartre e Hegel. Hall argumenta que essa ambiguidade de Fanon desviaria a dialética em uma direção distinta dos seus predecessores, a saber: a différance pós-estruturalista. Assim, segundo ele, o “tropo Senhor/Escravo” e as “circunvoluções hegelianas e sartreanas” que circundam o texto de Fanon importariam apenas na medida em que contextualizam a trajetória de vida do autor e não como chave analítica para a com- preensão do seu trabalho.

A biografia teórica oferecida nesse livro está em consonância com os apontamentos feito por Hall, mas, aqui, o link teórico identificado não se resume aos debates sobre a subjetividade, embora não possa prescindir deles (FAUSTINO, 2015). Como veremos, a premissa que orientou esse trabalho, como eixo estruturante do pensamento fanoniano, foi a sociogenia (sociogénie). Essa premissa pressupõe um sociodiagnóstico que conceba a subjetividade sempre em relação com os seus determinantes históricos e sociais:

Antes de abrir o dossiê, queremos dizer certas coisas. A análise que empreendemos é psicológica. No entanto, permanece evidente que a verdadeira desalienação do negro implica uma súbita tomada de consciência das realidades econômicas e sociais. Só há complexo de inferioridade após um duplo processo – inicialmente econômico – seguido pela interiorização, ou melhor, pela epidermização dessa inferioridade (FANON, 2008: 28).

A posição aqui assumida se aproxima de Silvia Wynter (1999; 2001) quando identifica no “sociogenic principle” o núcleo estruturante do estatuto teórico fanoniano; no argumento de Lewis Gordon (2015) a respeito do caráter abrangente da teoria fanoniana, abarcando os aspectos psicológicos, sociais e culturais; e na classificação de Fanon como oxímoro radical, oferecida por Ato Sekyi-Otu (1996). Para este último, o empreendimento de Fanon é marcado por uma dupla exigência: a preocupação em manter a tensão crítica em relação ao “drama absurdo” da condição colonial e as vicissitudes cristalinas do dilema humano que esse drama procura violentamente reprimir e usurpar e, por isso, a luta anticolonial, como ato político de rebelião, não se apresenta como o m da história e nem mesmo como retorno a alguma forma pretensamente original que tenha sido tolhida pela colonização, mas, sim, como abertura a novas possibilidades de solidariedade e autocompreensão.

Isso significa, ainda com Sekyi-Otu, que Fanon aponta, por um lado, para a defesa de uma dialética crítica que rejeita o essencialismo implícito no coletivismo forçado da raça e da nação e, por outro lado, recusa o universalismo abstrato próprio ao humanismo europeu para afirmar um novo humanismo, voltado à desracialização da experiência por meio da afirmação aberta e conjuntural de particularidades universais. É nesse sentido que Sekyi-Otu retoma o termo “oxímoro” empregado por Gramsci para descrever Maquiavel como um partidário do universal. Para Sekyi-Otu, Fanon, assim como Maquiavel, expressar-se-ia como “oxímoro radical” que aponta para a possibilidade de articulação dialética de interesses particulares e universais. Retomando Gordon (2015), pode-se acrescentar à lista de elementos articulados em Fanon as dimensões sociais, econômicas, culturais e subjetivas.

É verdade, como argumenta Hall (1996), que as preocupações psicanalíticas estão presentes em toda a reflexão fanoniana, expressando a sua originalidade e, ao mesmo tempo, a profundidade de sua abordagem. Entretanto, a articulação dessa dimensão a partir da perspectiva da sociogenia sugere serem os fatores sociais os elementos que tornam inteligíveis tanto a interdição (colonial) da dialética do reconhecimento quanto as possibilidades de superação dessa interdição. Ao mesmo tempo, sugere que essa superação não pode ser concebida sem a devida atenção aos aspectos culturais e subjetivos da existência humana.

Como veremos a seguir, as escolhas políticas, teóricas – e, por vezes, pessoais – de Fanon apontam para um esforço em dimensionar a complexidade da existência humana, sem, contudo, desconsiderar as expressões particulares que essa existência assume no tempo e no espaço socialmente dado (FAUSTINO, 2015). Não encontraremos um super-homem, no sentido hollywoodiano, e muito menos um sujeito miticamente atormentado por algum trauma edípico não revelado, mas apenas uma pessoa que procurou dar respostas aos desafios que a história lhe impôs, em uma época em que as respostas pareciam possíveis de serem dadas.

Para reconstruir a trajetória pessoal e política de Fanon, bem como para oferecer maiores subsídios para o entendimento dos contextos sobre os quais escreveu, foram utilizadas aqui as biografias e notas biográficas oferecidas por Pardo (1971), Geismar (1972), Gendizer (1974), Macey (2000), Faustino (2013, 2015), Ortiz (2014) e Gordon (2015). E, ao longo das reflexões, o leitor familiarizado com a literatura contemporânea a respeito de Fanon notará a influência de autores como Sekyi-Otu (1996), Gibson (1999), Henry (2000), Gordon (1995; 2015) e Silvério (1999; 2013) no enquadramento aqui oferecido.

Esse sucinto ensaio que ora apresento têm o objetivo de estimular a curiosidade e pesquisa a respeito da vida e obra de Frantz Fanon e fortalecer para o debate sobre a contribuição do pensamento de autore(a)s negro(a)s para o entendimento da sociedade contemporânea.

  Título | Frantz Fanon - Um revolucionário, particularmente negro. Autor | Deivison Mendes Faustino Editora | Ciclo Contínuo Editorial Páginas | 144 Ano | 2018 $43,00 ISBN | 978-85-68660-35-5

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