A escritora Heloisa Pires Lima recomenda o livro “No reino da Carapinha”, de Fausto Antonio

 

 

No Reino da Carapinha – uma apresentação

Heloisa Pires Lima

A sociedade brasileira demorou um tanto para integrar personagens negros nas bibliotecas dirigidas ao jovem leitor. Esta ausência ou presença auxilia na percepção positiva ou negativa acerca da origem africana e suas descendências ao longo de nossas histórias. Afinal, o modelo de humanidade que habita a ficção é um mediador para como a realidade é percebida. Nesta perspectiva, o livro No Reino da Carapinha assinado por Fausto Antônio oferece elementos de muita qualidade para o Imaginário dessa faixa etária em formação. O humor será uma estratégia a desafiar curiosos irrequietos. Também as imagens poéticas cativam. Mas, a qualidade singular do projeto está na arquitetura que alude outro clássico, o reino das águas claras de M. Lobato. Porém, da interlocução muito bem realizada, resulta o alto valor das carapinhas. Como um o da navalha, preciso no corte de nada aquém e nada além, Fausto Antônio inverte a posição desprestigiada dos personagens negros, tão marcada nas obras do escritor consagrado. Desta vez, o reino, ou aldeia ou república vai deixando pistas que referem figuras ou acontecimentos históricos relacionados à população negra. Esta passagem entre informar, aludir e encaixar a referência na fluidez do texto têm, da mesma forma, muito acerto. Sobretudo, por não recair no didatismo que interrompe a fantasia. Trata-se de uma aventura bem estruturada e dimensionada em aspectos filosóficos, linguísticos, históricos. Porém, com a singeleza e a alegria de um texto delicioso. Fisgado pela trama o leitor irá conhecer o nome do personagem só quando ele entrar na história. E se divertirá com a hábil sonoridade executado na pena do tin tin por tin tin.

E nada mais atual do que o assunto das carapinhas. Tema representativo da inversão cultural necessária à eliminação de racismos naturalizados é quando o ponto de virada da vulnerabilidade empodera o sentimento de pertencimento. Há uma demanda alta por materiais de apoio à questão. E como é importante a garantia de escritore(a)s negros estarem nas estantes para serem descobertos para uma leitura. As tão negras carapinhas vão revelando um ponto de vista existencial e original nessa autoria. A cartografia a dos nomes e fatos que aparecem no enredo poderá ser reconhecida pela comunidade negra ou por quem a conhece muito bem. Por isso, este autor se torna um memorialista que refaz o elo entre gerações. Talvez, a obra tenha nascido pressupondo um momento de narrar, de ler para os mais novos abrindo conversas sobre as passagens citadas. Todavia, isto não é imprescindível para quem adentrar nesse reino tão especial. A obra poderá ser lida e relida muitas vezes e por toda a vida, pois já nasce clássica. Portanto, recomendo, vivamente, a sua leitura.

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Heloisa Pires Lima é antropóloga, autora de inúmeros títulos para crianças e adolescentes, dentre outros, Histórias da Preta Cia das Letrinhas, 1998) e Capulana, o pano estampado de histórias (Scipione, 2015).

Foto | Nabor Jr.

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