Solto (pensando em José Carlos Limeira) – Conto inédito de Fábio Mandingo

Foto: Fafá Araújo

Solto - Pensando em José Carlos Limeira

 

Tudo me parece familiar, olhando aqui de cima enquanto tento fixar a visão.

As mesmas duas cidades e as vozes cruzadas: “Mãe, porque eu sou Mahin?”. E a resposta da velha – ainda posso ver as mãos enrugadas balançando sob o joelho – “Ora menino, você sabe. Por que pergunta?”

Era sempre isso, mas antes eu não voava. Não assim. Até mesmo a velha parece um ponto pequeno lá embaixo.

Agora Palmares? Não sei ainda, tudo novo ainda. Essas vozes trazidas no vento, o cheiro do rio, o cheiro da torrefação de café. Tudo novo ainda. Meus pés firmes no solo descendo a ladeira de barro, o cântico das velhas saudando os santos, o barulho de riacho do encher das quartinhas, os tambores batendo. Sou grande e tive medo.

Corri o mundo pra estar aqui.

Olhei e vi sorridente na banca da feira a mão que segura na minha com força, logo acima do pulso, minha folhinha ordinária, que cada página passada arranquei na ânsia do que fosse seguinte, do preço do quiabo, do agudo da sua voz atingindo as janelas dos ônibus de passeio. Sorriso que foi tanta letra minha, os dentes de pérolas, o gosto da língua, a gota de suor da testa pingando no seio. E as cidades abandonando-se, deixando perder a realeza nas notícias novas que embrulhavam o jiló e o maxixe, sempre juntos, ainda que tão diferentes. Minha folhinha ordinária, com imagens de santos e em vermelho os dias de cada mês, que arranquei vorazmente em busca do dia seguinte. Acho que distribuíam na Ordem, onde essas Velhas escavaram um túnel em que jorrava incessante o fluxo entre passado e agora, o que foi e o que sempre será, e nessas horas então me alimentei também de silêncio. “Bela cidade, lindo presépio, filho de Deus Menino”

Dou outra volta, abro minhas asas, as casinhas pequenas incrustadas nos morros subindo até onde a vista pode alcançar. As pessoas tão pequenas parecem pontos movendo-se nas linhas abertas por ruas e ladeiras, carregando os mundos na cabeça enquanto as mãos trazem as crianças em roupas coloridas. Meu nome poderia ser Liberto agora, mas meu nome também poderia ser Epifânia.

Em cada rua em que limpei o suor do meu rosto, escadarias onde as veias das minhas pernas latejaram pelo esforço da subida, parei e olhei as cidades de mãos dadas, seduzindo-se no canto do vento permanente balançando as folhas das árvores da beira-rio. E continuei subindo.

Antecipando o borbulhar continuado da maniva, purificando-se dias a fio nas enormes panelas, imensas colheres de pau entalhadas pelo homem acocorado lá depois da ponte menor, de sobras da gameleira de fazer gamela, corpo de Lôko, aceito um pouco do café que me oferece de corte do frio da manhã que acoberta as duas cidades. Trago tudo comigo.

Palmares agora? Não sei ainda. O sorriso pequeno da velha me lembra outra vez das vozes cortadas na alvorada gelada. “Mãe, por que eu sou Mahin?”. E a resposta da velha – ainda posso ver as mãos enrugadas balançando sob o joelho – “Ora menino, você sabe. Por que pergunta?”

Sim, sorri de volta. E tive medo.

Quando a fila de mulheres velhas escorreu entre as vielas lá embaixo, o cântico doce de suas litanias me fez entender línguas diferentes e que eu nunca tinha escutado. A fumaça de incenso que subia conforme andavam em frente clareou o céu em honra da Santa Senhora da Lama Escura. Aqui de onde viemos arrancados. Até quando é sabedoria transformar dor em beleza?

Bom tabaco, bom café. Licor de jenipapo. Entre os seus dentes de pérola.

Abro outra vez minhas asas. Seu sorriso tão perto...

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Fábio Mandingo nasceu em Santo Amaro da Purificação/BA, mas cresceu e vive na capital baiana. Graduado em História pela Universidade Católica de Salvador, especializou-se em História Social do Negro no Brasil, é mestre em Educação pela UFBA e trabalha como professor na Rede Municipal de Ensino. Publicou Salvador Negro Rancor, Morte e vida Virgulina e Muito como um Rei pela Ciclo Contínuo Editorial.
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