MOSTRA DE LITERATURA NEGRA – CICLO CONTÍNUO | 16, 17 e 18 DE MARÇO

A Ciclo Contínuo Editorial realizará a Mostra de Literatura Negra em São Paulo entre os dias 16 e 18 de março. O evento contará com uma homenagem à Francisco Paula Brito, editor, jornalista e escritor brasileiro nascido e falecido no Rio de Janeiro, onde viveu de 1809 a 1861. Tido como o primeiro editor brasileiro e primeiro empresário negro de que temos notícia, sua tipografia e livraria, na qual Machado de Assis trabalhou, foi ponto de encontro dos principais intelectuais da época. Foi descobridor de vários talentos, entre eles o próprio Machado, Teixeira e Souza e etc. Paula Brito fundou cinco jornais, entre eles, 'O Homem de Cor' (1833), alterado posteriormente para 'O Mulato ou O Homem de Cor' (na Tipografia Fluminense de Brito & Cia), periódico que alcançou 80 números em 3 anos, dedicado a luta contra o preconceito de raça. Na literatura se destacou como poeta, tradutor e contista.
Durante os três dias ocorrerão mesas de debate e oficinas com destacada(o)s pesquisadora(e)s e escritora(e)s ligada(o)s à Literatura Negro Brasileira, que abordarão as múltiplas formas de expressão desta vertente que se firma na Literatura Brasileira. No corredor da Centro Cultural Olido será montado a feira de livros com as principais editoras Negras brasileiras. Em breve divulgaremos a lista das editoras confirmadas.Curadoria: Marciano Ventura Equipe Produção:  Leonardo Bento Luciana Barrozo Clodoaldo Paiva Silvio Shina Romulo dos Santos Comunicação: Alma Preta PROGRAMAÇÃO SEXTA - FEIRA 16h - Abertura da Feira de Livros - Corredor da Galeria Olido 19h - Conferência - O Editor Paula Brito: uma história de resistência para novas gerações, com Oswaldo de Camargo 21h - Entrega do prêmio Concurso Nacional de Contos Ciclo Contínuo. SÁBADO 10h - Mesa: A escritura e a poética Negra na Literatura Brasileira Debatedor: Prof. Dr. Luis Silva (Cuti) (SP) Debatedora: Profa. Dra. Lívia Natália (BA) Mediadora: Luciana Barrozo 13h30 - Clube Negrita de Leitura convida: Texto e Imagem - uma conversa sobre ilustração, design e literatura. Debatedores: Edson Ikê, Junião, Silvana Martins, Mediadora: Brunata Mires - Clube Negrita de Leitura 16h - Dimensões didáticas da Literatura Negra para a infância e juventude Debatedora: Prof. Dra. Heloisa Pires Lima (SP) Debatedor: Prof. Dr. Fausto Antonio (BA) Mediador: Leonardo Bento 18h15 - Lançamento do livros: AS FÉRIAS FANTÁSTICAS DE LILI - LÍVIA NATÁLIA NO REINO DA CARAPINHA - FAUSTO ANTONIO O BEABÁ DO BERIMBAU - MARCIO FOLHA (reedição) 19h - Apresentação musical: PELAMÔ, COM AKINS KINTÊ  DOMINGO 10h - Oficina: Família leitora - mediação de leitura para formação de leitores, com: Leonardo Bento e Luciana Barrozo 13h30 - Leitura do Portfólio fotográfico "Fundo de Garrafa" de Antonio Terra (RJ); Workshop com o fotógrafo 16h - Carolina Maria de Jesus, desatando alguns nós! Debatedora: Doutoranda Fernanda de Miranda  Debatedora: Prof. Dra. Raffaella Fernandez Mediador: Marciano Ventura 18h - Lançamento do livro  MEU SONHO É ESCREVER... - CAROLINA MARIA DE JESUS 19h - Encerramento  RENATO GAMA E AS PASTORAS DO ROSÁRIO CANTAM CAROLINA!
Essa atividade conta com o patrocínio do Programa Vai/SMC. Parceria e apoio: Centro Cultural Olido/Secretaria Municipal de Cultura - São Paulo | Alma Preta | Sá Menina | Clube Negrita de Leitura/Malokearô
 

Para viver nos séculos | Edimilson de Almeida Pereira [publicado em “Luz & Breu”, de Oswaldo de Camargo]

Para viver nos séculos

Edimilson de Almeida Pereira

Escrever uma apresentação para a presente antologia de Oswaldo de Camargo é tornar pública uma admiração que dialoga com o pertencimento do autor ao complexo da Literatura Brasileira. Ao considerar a sua trajetória – iniciada com a publicação de Um homem tenta ser anjo (poemas, 1959) – penso no poeta, no ficcionista, no crítico, no jornalista, enfim, no amigo que, por compreender as tensões do meio social e literário brasileiro, mostrou-se capaz de confrontar e de ultrapassar as restrições que esse meio impõe, desde sempre, aos herdeiros da afrodiáspora em nosso território.

A admiração aqui declarada reforça os laços entre dois companheiros de São Paulo e de Minas Gerais, mas vai além dessa experiência pessoal porque se alia a um esforço coletivo, que aposta no direito à vida, sobretudo quando nos damos conta de nos relacionarmos num país onde o risco de morte assedia, de forma incisiva, crianças, jovens e adultos negros. Viver para criar e dialogar, como o faz Oswaldo de Camargo, há seis décadas, constitui o testemunho de um sujeito que cobra, para si e para os excluídos, um olhar justo e interessado por parte da sociedade brasileira.

No que diz respeito aos poemas desta edição, há dois movimentos, simultâneos, que merecem atenção: um desenhado pelas mãos do poeta ao visitar o seu próprio campo semeado e, outro, cifrado pelas mesmas mãos que reconhecem o gosto álacre imposto aos frutos pela ação do tempo e das circunstâncias históricas.

Através do primeiro movimento, Oswaldo de Camargo seleciona – dentre a série de seus poemas publicados – aqueles que, segundo o seu parecer, mantêm a sua ductibilidade. Sob esse aspecto, o poeta enfatiza os poemas que se referem aos dilemas da sociedade brasileira ainda não solucionados, particularmente aqueles relacionados à vida diária do sujeito negro.

O segundo poema desta antologia descortina uma questão de ordem filosófica: ao perguntar-se “que posso dizer à vida?” (Eh, coisas), o poeta cria o mote para tecer uma série de respostas, que decorrem do substrato histórico-social desfavorável às populações negras cerceadas pela violência do sistema escravista e suas infindáveis rearticulações contemporâneas. A par disso, o poeta tensiona o seu discurso para criticar a exclusão étnico-social (“a Liberdade que desce às praças/ nos meados de maio,/ pedindo rumores,/ é uma senhora esquálida, seca, desvalida/e nada sabe de nossa vida.” – Em maio), convocar os oprimidos à resistência social (“Os vossos doces punhais/ recolho-os com meu disfarce/ e atrás do muro de um riso/ escondo o meu pensamento...” – Adendo) e denunciar a violência praticada contra as populações negras (“A bala.../ chispou rumo a um espaço aberto,/ onde não estava ninguém, /raspou na trave de um campo,/ apitando como trem,/ seguiu, trombou com o vento,/ entrou nele como alguém/ que tem pressa na viagem,/ e, zunindo, foi além.” – A bala que matou Ninico)

Um dos resultados do retorno da mão àquilo que ela mesma semeou pode ser, em certa medida, a confirmação de uma linha de força que atravessa a obra de Oswaldo de Camargo. Essa linha se alarga e se aprofunda de modo a nos oferecer uma perspectiva das complexas relações que envolvem a sociedade brasileira e as populações negras no âmbito da diáspora. Uma das contribuições marcantes de Oswaldo de Camargo, que faz coro com nomes como Langston Hughes e Aimé Césaire, por exemplo, consiste na recusa dos valores impostos pelo modelo cultural derivado do colonialismo e do escravismo. Tal recusa se resolve como uma abordagem crítica do discurso oficial, que “escreve” as narrativas das populações negras na diáspora e, simultaneamente, como uma rasura dessas narrativas. Nesse ponto, Hughes, Césaire e Camargo encontraram, cada um à sua maneira, os instrumentos específicos para transformar a rasura numa outra textualidade, tensionada entre as heranças culturais que constituem as suas dicções literárias.

No segundo movimento, algumas das estratégias escolhidas pelo poeta para confrontar a exclusão social e estética dos afrodescendentes são testadas pela própria realidade histórica que as fundamenta. Ou seja, contra a agressão às heranças das matrizes africanas, o poeta reage adotando o processo arqueológico de escavação da memória, com enfoque específico em determinados sítios, a exemplo da retomada de um norte cultural africano (“Que farei do meu reino: um terreno/ no peito,/ onde pensei pôr minha África” – Oferenda) ou da recuperação das cenas cotidianas do trabalho árduo nas áreas derivadas do sistema escravista de produção (“A messe de sons errantes/ no tempo em que nos andamos/ por dentro deitou raízes/ por fora nuvens e ramos” – Cantilena dos negros da Fazenda Soledade).

A reavaliação dos frutos recolhidos, depois de afetados pelas incisões do tempo e das circunstâncias históricas, constitui um desafio para as tendências poéticas que elegem determinados territórios como fontes de certos modelos identitários. Essas poéticas nos recolocam diante do processo de reinvenção da África como o locus de identidade das populações negras na diáspora. Essa África, que o discurso literário reescreve sob várias perspectivas, funciona como uma referência capaz de suprir as demandas de reconhecimento que a sociedade brasileira nega aos sujeitos afrodescendentes. Contudo, ao convocar seus interlocutores para essa viagem ao lugar da origem (“Ainda vamos embora, vamos embora,/ viver na terra do Congo!” – Festança), o poeta e ensaísta Oswaldo de Camargo nos impele a analisar as contradições que perpassam essa cena reconstruída através da memória. Ou seja, a idealização de África como um recurso de enfrentamento da exclusão das populações negras não nos exime da responsabilidade de pensarmos criticamente sobre esse território, considerando as suas reais contradições.

Desse modo, a antologia recoloca em cena poemas escritos num determinado período em que a idealização do continente africano significava um processo de afirmação da afrodescendência no território da diáspora. Todavia, à luz da contemporaneidade, o recurso da idealização não pode nos impedir de ressaltar o seu caráter restritivo. Em face dos dilemas que colocam em risco muitas das sociedades africanas – tomadas de assalto pelas forças do neocolonialismo econômico, político e cultural – não há como acreditarmos na resolução de nossas contradições mediante o ocultamento das contradições específicas do próprio continente africano. Sob esse aspecto, Oswaldo de Camargo reinaugura para as novas gerações e para a sua própria geração o desafio de repensarmos os modos de relações objetivas e subjetivas que estabelecemos com as muitas Áfricas.

Muito do que há para ser dito sobre a obra de Oswaldo de Camargo pode ser encontrado na presente antologia, a exemplo de sua preocupação com os destinos históricos das populações negras e com a articulação de uma perspectiva literária erigida pelas vozes de poetas negros e negras. Além disso, perpassam essas páginas cifradas pelo autor de O carro do êxito algumas das estratégias de resistência que as populações negras articularam e articulam, apesar das condições desfavoráveis que as ameaçam. De maneira sutil e marcante, Oswaldo de Camargo aponta para um campo epistemológico que, se por um lado, permaneceu imperceptível para a sociedade brasileira, por outro, infiltrou-se nela de modo a constituir, com outros fios culturais, um tecido social tensionado, cujos valores, ao longo tempo, são negociados no fio da navalha.

Enfim, há muito para dizermos sobre a poética de Oswaldo de Camargo, porém, o mais importante é ouvirmos as vozes que lhe dão forma e sentido. Ou seja, as vozes do poeta e as vozes dos outros eus com os quais ele se identifica. No momento em que a sociedade brasileira se vê novamente ameaçada pelo retrocesso político, a voz de Oswaldo de Camargo ressoa como um chamado ao tempo presente, irmão do futuro: “Súbito um grito – ô ! – cresceu depressa/ ante as portas do ouvido, um ‘ô!’ tão longo/ para viver nos séculos.” (Lembro-me, sim, estive lá!)

Ouçamos esse chamado, a poesia de Oswaldo de Camargo insiste.

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Edimilson de Almeida Pereira é poeta, antropólogo, ensaísta e professor de Literatura na Universidade Federal de Juiz de Fora/MG.

Cuti lança livros de poemas e teatro no dia 31 de março

A Ciclo Contínuo Editoria convida para o lançamento dos livros Negrhúmus líricos (poemas) e Tenho medo de monólogo & Uma farsa de dois gumes (teatro), do escritor Cuti.

O lançamento será realizado dia 31 de março (sexta-feira), 19h, na Ação Educativa, Rua General Jardim, 660, centro - São Paulo. A entrada é franca.

Programação:

Leitura dramática da peça "Tenho medo de monólogo" - com a atriz Vera Lopes e Cuti Silva.

Apresentação lítero-musical Negrhúmus líricos" - com Mariana Per & Renato Gama.

Realização | Ciclo Contínuo Editorial Apoio | Iná Livros - Avangi Cultural - Ação Educativa

Dia 31 de março de 2017 | 19h Local | Ação Educativa: Rua General Jardim, 660 - Centro | São Paulo.

Sobre o autor

Cuti é pseudônimo de Luiz Silva. Nasceu em Ourinhos-SP. Formou-se em Letras (Português-Francês) na Universidade de São Paulo, em 1980. É Mestre em Teoria da Literatura (1999) e Doutor em Literatura Brasileira (2005), pelo Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp. Foi um dos fundadores e membro do Quilombhoje-Literatura de 1983 a 1994 e um dos criadores e mantenedores dos Cadernos Negros de 1978 a 1993, série na qual publicou seus poemas e contos em 37 dos 38 volumes lançados até 2015. Tem também publicado diversos textos em antologias, incluindo ensaios. Seus poemas já foram traduzidos para diversas línguas, entre elas, inglês, espanhol, alemão.

Sobre a coautora

Vera Lopes é atriz e também formada em Direito. Faz parte do Grupo Caixa Preta, no qual atuou nos seguintes espetáculos: Transegun, do escritor Cuti (2003), Hamlet Sincrético, criação coletiva (2005), ambas as peças com direção de Jessé Oliveira. No cinema, depois de sua estreia em O dia em Dorival encarou a guarda (1986), atuou também em Da colônia africana à cidade negra (1994), Neto perde sua alma (1998), Antes que chova (2009), dentre outros. Tem se dedicado a recitais de poesias.

Foto divulgação | Antonio Terra

Link do evento: https://www.facebook.com/events/1877927089149572/