MOSTRA DE LITERATURA NEGRA – CICLO CONTÍNUO | 16, 17 e 18 DE MARÇO

A Ciclo Contínuo Editorial realizará a Mostra de Literatura Negra em São Paulo entre os dias 16 e 18 de março. O evento contará com uma homenagem à Francisco Paula Brito, editor, jornalista e escritor brasileiro nascido e falecido no Rio de Janeiro, onde viveu de 1809 a 1861. Tido como o primeiro editor brasileiro e primeiro empresário negro de que temos notícia, sua tipografia e livraria, na qual Machado de Assis trabalhou, foi ponto de encontro dos principais intelectuais da época. Foi descobridor de vários talentos, entre eles o próprio Machado, Teixeira e Souza e etc. Paula Brito fundou cinco jornais, entre eles, 'O Homem de Cor' (1833), alterado posteriormente para 'O Mulato ou O Homem de Cor' (na Tipografia Fluminense de Brito & Cia), periódico que alcançou 80 números em 3 anos, dedicado a luta contra o preconceito de raça. Na literatura se destacou como poeta, tradutor e contista.
Durante os três dias ocorrerão mesas de debate e oficinas com destacada(o)s pesquisadora(e)s e escritora(e)s ligada(o)s à Literatura Negro Brasileira, que abordarão as múltiplas formas de expressão desta vertente que se firma na Literatura Brasileira. No corredor da Centro Cultural Olido será montado a feira de livros com as principais editoras Negras brasileiras. Em breve divulgaremos a lista das editoras confirmadas.Curadoria: Marciano Ventura Equipe Produção:  Leonardo Bento Luciana Barrozo Clodoaldo Paiva Silvio Shina Romulo dos Santos Comunicação: Alma Preta PROGRAMAÇÃO SEXTA - FEIRA 16h - Abertura da Feira de Livros - Corredor da Galeria Olido 19h - Conferência - O Editor Paula Brito: uma história de resistência para novas gerações, com Oswaldo de Camargo 21h - Entrega do prêmio Concurso Nacional de Contos Ciclo Contínuo. SÁBADO 10h - Mesa: A escritura e a poética Negra na Literatura Brasileira Debatedor: Prof. Dr. Luis Silva (Cuti) (SP) Debatedora: Profa. Dra. Lívia Natália (BA) Mediadora: Luciana Barrozo 13h30 - Clube Negrita de Leitura convida: Texto e Imagem - uma conversa sobre ilustração, design e literatura. Debatedores: Edson Ikê, Junião, Silvana Martins, Mediadora: Brunata Mires - Clube Negrita de Leitura 16h - Dimensões didáticas da Literatura Negra para a infância e juventude Debatedora: Prof. Dra. Heloisa Pires Lima (SP) Debatedor: Prof. Dr. Fausto Antonio (BA) Mediador: Leonardo Bento 18h15 - Lançamento do livros: AS FÉRIAS FANTÁSTICAS DE LILI - LÍVIA NATÁLIA NO REINO DA CARAPINHA - FAUSTO ANTONIO O BEABÁ DO BERIMBAU - MARCIO FOLHA (reedição) 19h - Apresentação musical: PELAMÔ, COM AKINS KINTÊ  DOMINGO 10h - Oficina: Família leitora - mediação de leitura para formação de leitores, com: Leonardo Bento e Luciana Barrozo 13h30 - Leitura do Portfólio fotográfico "Fundo de Garrafa" de Antonio Terra (RJ); Workshop com o fotógrafo 16h - Carolina Maria de Jesus, desatando alguns nós! Debatedora: Doutoranda Fernanda de Miranda  Debatedora: Prof. Dra. Raffaella Fernandez Mediador: Marciano Ventura 18h - Lançamento do livro  MEU SONHO É ESCREVER... - CAROLINA MARIA DE JESUS 19h - Encerramento  RENATO GAMA E AS PASTORAS DO ROSÁRIO CANTAM CAROLINA!
Essa atividade conta com o patrocínio do Programa Vai/SMC. Parceria e apoio: Centro Cultural Olido/Secretaria Municipal de Cultura - São Paulo | Alma Preta | Sá Menina | Clube Negrita de Leitura/Malokearô
 

Para viver nos séculos | Edimilson de Almeida Pereira [publicado em “Luz & Breu”, de Oswaldo de Camargo]

Para viver nos séculos

Edimilson de Almeida Pereira

Escrever uma apresentação para a presente antologia de Oswaldo de Camargo é tornar pública uma admiração que dialoga com o pertencimento do autor ao complexo da Literatura Brasileira. Ao considerar a sua trajetória – iniciada com a publicação de Um homem tenta ser anjo (poemas, 1959) – penso no poeta, no ficcionista, no crítico, no jornalista, enfim, no amigo que, por compreender as tensões do meio social e literário brasileiro, mostrou-se capaz de confrontar e de ultrapassar as restrições que esse meio impõe, desde sempre, aos herdeiros da afrodiáspora em nosso território.

A admiração aqui declarada reforça os laços entre dois companheiros de São Paulo e de Minas Gerais, mas vai além dessa experiência pessoal porque se alia a um esforço coletivo, que aposta no direito à vida, sobretudo quando nos damos conta de nos relacionarmos num país onde o risco de morte assedia, de forma incisiva, crianças, jovens e adultos negros. Viver para criar e dialogar, como o faz Oswaldo de Camargo, há seis décadas, constitui o testemunho de um sujeito que cobra, para si e para os excluídos, um olhar justo e interessado por parte da sociedade brasileira.

No que diz respeito aos poemas desta edição, há dois movimentos, simultâneos, que merecem atenção: um desenhado pelas mãos do poeta ao visitar o seu próprio campo semeado e, outro, cifrado pelas mesmas mãos que reconhecem o gosto álacre imposto aos frutos pela ação do tempo e das circunstâncias históricas.

Através do primeiro movimento, Oswaldo de Camargo seleciona – dentre a série de seus poemas publicados – aqueles que, segundo o seu parecer, mantêm a sua ductibilidade. Sob esse aspecto, o poeta enfatiza os poemas que se referem aos dilemas da sociedade brasileira ainda não solucionados, particularmente aqueles relacionados à vida diária do sujeito negro.

O segundo poema desta antologia descortina uma questão de ordem filosófica: ao perguntar-se “que posso dizer à vida?” (Eh, coisas), o poeta cria o mote para tecer uma série de respostas, que decorrem do substrato histórico-social desfavorável às populações negras cerceadas pela violência do sistema escravista e suas infindáveis rearticulações contemporâneas. A par disso, o poeta tensiona o seu discurso para criticar a exclusão étnico-social (“a Liberdade que desce às praças/ nos meados de maio,/ pedindo rumores,/ é uma senhora esquálida, seca, desvalida/e nada sabe de nossa vida.” – Em maio), convocar os oprimidos à resistência social (“Os vossos doces punhais/ recolho-os com meu disfarce/ e atrás do muro de um riso/ escondo o meu pensamento...” – Adendo) e denunciar a violência praticada contra as populações negras (“A bala.../ chispou rumo a um espaço aberto,/ onde não estava ninguém, /raspou na trave de um campo,/ apitando como trem,/ seguiu, trombou com o vento,/ entrou nele como alguém/ que tem pressa na viagem,/ e, zunindo, foi além.” – A bala que matou Ninico)

Um dos resultados do retorno da mão àquilo que ela mesma semeou pode ser, em certa medida, a confirmação de uma linha de força que atravessa a obra de Oswaldo de Camargo. Essa linha se alarga e se aprofunda de modo a nos oferecer uma perspectiva das complexas relações que envolvem a sociedade brasileira e as populações negras no âmbito da diáspora. Uma das contribuições marcantes de Oswaldo de Camargo, que faz coro com nomes como Langston Hughes e Aimé Césaire, por exemplo, consiste na recusa dos valores impostos pelo modelo cultural derivado do colonialismo e do escravismo. Tal recusa se resolve como uma abordagem crítica do discurso oficial, que “escreve” as narrativas das populações negras na diáspora e, simultaneamente, como uma rasura dessas narrativas. Nesse ponto, Hughes, Césaire e Camargo encontraram, cada um à sua maneira, os instrumentos específicos para transformar a rasura numa outra textualidade, tensionada entre as heranças culturais que constituem as suas dicções literárias.

No segundo movimento, algumas das estratégias escolhidas pelo poeta para confrontar a exclusão social e estética dos afrodescendentes são testadas pela própria realidade histórica que as fundamenta. Ou seja, contra a agressão às heranças das matrizes africanas, o poeta reage adotando o processo arqueológico de escavação da memória, com enfoque específico em determinados sítios, a exemplo da retomada de um norte cultural africano (“Que farei do meu reino: um terreno/ no peito,/ onde pensei pôr minha África” – Oferenda) ou da recuperação das cenas cotidianas do trabalho árduo nas áreas derivadas do sistema escravista de produção (“A messe de sons errantes/ no tempo em que nos andamos/ por dentro deitou raízes/ por fora nuvens e ramos” – Cantilena dos negros da Fazenda Soledade).

A reavaliação dos frutos recolhidos, depois de afetados pelas incisões do tempo e das circunstâncias históricas, constitui um desafio para as tendências poéticas que elegem determinados territórios como fontes de certos modelos identitários. Essas poéticas nos recolocam diante do processo de reinvenção da África como o locus de identidade das populações negras na diáspora. Essa África, que o discurso literário reescreve sob várias perspectivas, funciona como uma referência capaz de suprir as demandas de reconhecimento que a sociedade brasileira nega aos sujeitos afrodescendentes. Contudo, ao convocar seus interlocutores para essa viagem ao lugar da origem (“Ainda vamos embora, vamos embora,/ viver na terra do Congo!” – Festança), o poeta e ensaísta Oswaldo de Camargo nos impele a analisar as contradições que perpassam essa cena reconstruída através da memória. Ou seja, a idealização de África como um recurso de enfrentamento da exclusão das populações negras não nos exime da responsabilidade de pensarmos criticamente sobre esse território, considerando as suas reais contradições.

Desse modo, a antologia recoloca em cena poemas escritos num determinado período em que a idealização do continente africano significava um processo de afirmação da afrodescendência no território da diáspora. Todavia, à luz da contemporaneidade, o recurso da idealização não pode nos impedir de ressaltar o seu caráter restritivo. Em face dos dilemas que colocam em risco muitas das sociedades africanas – tomadas de assalto pelas forças do neocolonialismo econômico, político e cultural – não há como acreditarmos na resolução de nossas contradições mediante o ocultamento das contradições específicas do próprio continente africano. Sob esse aspecto, Oswaldo de Camargo reinaugura para as novas gerações e para a sua própria geração o desafio de repensarmos os modos de relações objetivas e subjetivas que estabelecemos com as muitas Áfricas.

Muito do que há para ser dito sobre a obra de Oswaldo de Camargo pode ser encontrado na presente antologia, a exemplo de sua preocupação com os destinos históricos das populações negras e com a articulação de uma perspectiva literária erigida pelas vozes de poetas negros e negras. Além disso, perpassam essas páginas cifradas pelo autor de O carro do êxito algumas das estratégias de resistência que as populações negras articularam e articulam, apesar das condições desfavoráveis que as ameaçam. De maneira sutil e marcante, Oswaldo de Camargo aponta para um campo epistemológico que, se por um lado, permaneceu imperceptível para a sociedade brasileira, por outro, infiltrou-se nela de modo a constituir, com outros fios culturais, um tecido social tensionado, cujos valores, ao longo tempo, são negociados no fio da navalha.

Enfim, há muito para dizermos sobre a poética de Oswaldo de Camargo, porém, o mais importante é ouvirmos as vozes que lhe dão forma e sentido. Ou seja, as vozes do poeta e as vozes dos outros eus com os quais ele se identifica. No momento em que a sociedade brasileira se vê novamente ameaçada pelo retrocesso político, a voz de Oswaldo de Camargo ressoa como um chamado ao tempo presente, irmão do futuro: “Súbito um grito – ô ! – cresceu depressa/ ante as portas do ouvido, um ‘ô!’ tão longo/ para viver nos séculos.” (Lembro-me, sim, estive lá!)

Ouçamos esse chamado, a poesia de Oswaldo de Camargo insiste.

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Edimilson de Almeida Pereira é poeta, antropólogo, ensaísta e professor de Literatura na Universidade Federal de Juiz de Fora/MG.

A dança da vida em “Casa de Portugal”, contos de Sergio Ballouk.

*Ricardo Riso

Tratar de diferentes momentos do cotidiano, trazer o espaço das famílias negras, suas histórias, manifestações afetivas, solidárias e conflitantes inseridas no racismo da sociedade brasileira, demonstram-se com leveza em uma escrita que aparentemente se revela descompromissada, mas que lida com situações sérias nas pequenas narrativas de Casa de Portugal, reunião de contos do escritor Sergio Ballouk. 

São histórias comuns em ambientações negras. Cenas reconhecíveis para muitos de nós, por isso envolventes como passos de dança no desenrolar dos enredos, com um estilo que preza a economia das palavras nas descrições de imagens e personagens, nas dificuldades, nas alegrias, nas inseguranças, nos anseios, nas situações inesperadas regidas pelos mistérios da vida. Dessa maneira, são expostas contradições, fraquezas e fortalezas de pessoas tão próximas, como nossos tios, avós, namoradas, amigos, filhos… 

O fascínio do viver, com suas sequências indeterminadas de vitórias e derrotas, pulsa nos contos de Ballouk diante de finais que surpreendem, intrigam, levam ao riso, à reflexão, ao arrebatamento em espaços como o baile e a amizade, na sala da faculdade, nas partidas de futebol, na dureza da casa inundada pela enchente e a indiferença do poder público e da mídia, nas tensões de uma visita ao shopping center, nos questionamentos agudos das crianças, nas conversas de acaso num ponto de ônibus… 

Contribui a edição do livro em um formato aconchegante que muito facilita a leitura,, uma realização de Marciano Ventura, editor da Ciclo Contínuo. Tal cuidado valoriza as treze narrativas de Ballouk, que emocionam com a sutileza e sagacidade de um bom contador de história. O autor conduz-nos a celebrar a vida, sem perder de vista as dificuldades enfrentadas por nós negrxs brasileirxs, com delicadeza, boa dose de ironia e sapiência. Um livro para ler com o melhor da música negra ao fundo.

 

Título | Casa de Portugal – contos

Autor | Sergio Ballouk

100 páginas

Ciclo Contínuo Editorial | 2016

Link para adquirir o livro

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*Ricardo Riso é Mestre em Relações Étnico-Raciais (CEFET/RJ). Com Henrique de Freitas organizou Afro-Rizomas na Diáspora Negra: as literaturas africanas na encruzilhada brasileira (Kitabu Editora, 2013). Autor do blog Riso – sonhos não envelhecem. Pesquisador e crítico literário, tem diversos artigos publicados em revistas especializadas no Brasil e na África. 

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Prumos e rumos estéticos: caminhos da poética negra em Negrhúmus líricos, de Cuti

Por Gustavo Tanus - bacharel e licenciado em Letras/português, bacharel em Edição, é pesquisador do NEIA/UFMG e mestrando em Teoria da Literatura e Literatura Comparada na UFMG.

Unidade

grilhetas tilintarão por muitos séculos

coração couraça de raça em guerra

diversas vezes disparado

quando avestruz

a cabeça sob a areia

lanças brotam nas costelas

e o pânico

turbilhão nas veias

ilusão imaginar espelho impávido

só o olhar do outro pode

refletir a vida e a morte

puro deus da hipocrisia

e tantas outras cognitivas tralhas

inerte

ante a inundação de vingança

que a todos envolve

feito herança atávica

a destilar um mar de sofrimento e morte

caminhada longa

não se computa batidas ou passadas

mas rancor que se deixou pelas estradas

e que outros não nasçam

da podridão da pátria amada.

(Negrhúmus líricos, p. 28).

As sínteses do povo nação, a metáfora de "muitos como um" (BHABHA, 2013) e a noção de uma comunidade homogênea − convivendo, em democracia racial − se deram por meio do constante apagamento das brutalidades e violências originais e ainda se dão, no momento em que colocamos isso em discussão, pela tentativa de desqualificação dos nossos argumentos e discursos que são contrários à ideia branca dominante. É o que diz o poema "Vocês aí...":

[...] gingas pálidas

de afroinválidas culturais muletas

trotam tretas

de brasilidades melancólicas

ajoelhadas ante santidades loiras

socialmente brancos mas quando todos os gatos são pardos

também se tornam alvos pretos.

(Negrhúmus líricos, p. 36).

Isso já, há muito tempo, vem sido discutido e tem sido trazido à pauta, tanto por intelectuais negras e negros quanto por escritoras e escritores negros, em maneiras muito diversas, ora consideradas mais combativas, ora de modo mais velado. O que devemos ter em conta é que a questão é deveras complexa e tem diversas nuances; a questão racial brasileira não é algo a ser superada, como desejam alguns, mas sim a ser discutida, como um problema atualíssimo que é, no interior de campos − filosófico, e literário −, de embate/debate no qual o negro é historicamente silenciado. Dissemos isso como introito para a leitura dos textos de um dos escritores mais versáteis da literatura negra. Com uma produção excelente tanto em prosa quanto em versos, a poesia de Cuti é constituída pela renovação constante das formas e estratégias estéticas. É verdade dizer que sua lírica possui outros ritmos e outras cadências que discutem não apenas o racismo, mas a estrutura histórica social na qual está imbricado um sistema complexo que cria a imagem do "brasileiro" padrão, cidadão deste brasiloyro, como disse o poeta Arnaldo Xavier (1986), "[...] brasil / de privilégios sem par" (p. 40), e que "aprisiona" o negro a uma imagem da perversidade, da incapacidade, também silenciando seu discurso e aniquilando seu corpo − tanto físico, nos "hematomas diários" (p. 41) e nas chacinas cotidianas "de tocaia pelas esquinas" (p. 76), quanto textual, pela ausência como autor e autora em grandes editoras e nas feiras, festas e academias literárias. Para tanto, a poesia de Cuti revela não apenas os efeitos e consequências desse sistema, mas também a branquitude mantenedora do status quo, cujos defensores obstinados e aplaudentes insistem em continuar tratando seus privilégios como se fossem direitos. Negrhúmus líricos possui três partes "Negrhúmus" (p. 21-78), "Húmus líricos" (p. 81- 134) e "Rhúmus" (p. 137-155). A primeira parte trata, de maneira geral, de modos de ver/modos de escrever sobre a constituição do ser negro, entre o conhecimento ensinado e introjetado pela pedagogia da nação e o autoconhecimento: "procurei no espelho / nenhum rosto havia / só um branco brandia seus desaforos" (p. 46); "[...] os brancos falam de palmares / como não sendo seu / eu falo dele / porque ele sou eu" (p. 59). A voz poética canta outras questões: versa sobre os escombros do Haiti (p. 57), sobre episódios racistas dos jogos de futebol ("Irados Uacaris", p. 27; em "Jogo", p. 33); canta os modos de sobrevivência que são mesmo uma violência obrigatória, como no poema "Jeitinho" (p. 61), fala dos males do álcool, que vitima a população negra, no poema "Constatação" (p. 70). Versa sobre metalinguagens, como do poema "Persistência" (p. 21), que trata das possibilidades do verso, estas que dirão sobre sua essência, ou do poema "Metaforando" (p. 30), em que a metáfora, um recurso poético importante, pode servir como estratégia de esconder a discussão necessária a pleno verbo: "quanto mais se esconde o rosto / atrás da metáfora / mais elogios / e não é de graça [...] é preciso esconder / escrevendo certo sem linhas tortas / esta conversa sobre raça / que eles não suportam / ter o rosto atrás da metáfora / a fórmula / de branquear a diáspora". Vemos também que o ponto de referência da voz poética parte não do branco ao negro, mas perfaz um outro caminho, tendo o negro como ponto de partida. Assim, o branco brasileiro, "euroquases" (p. 36), cuja cor alva é dada como padrão nessa hipocrisia nacional, é este ser desbotado, sobre o qual não se discute, como canta o poema "Tabu": "como se pecado fosse / ninguém fala de brancos" (p. 34). 

Destacamos, ainda, dessa parte, o poema abaixo e como a voz poética trabalha as possibilidades e as certezas, dentro do que são as oportunidades dadas aos sujeitos negros.

Desnorteio ou 14 de maio

pega latinhas no lixo

despreza o que lhe é pago

para não pegar

quer a dignidade

que conseguiram lhe roubar

chapinha espichada em lamento

baixa autoestima

mau pressentimento

pega latinhas visando a um salário

mínimo

que não teve

com o que criaria os filhos

não concebidos

levaria para a casa jamais construída

alimento, enfeites e livros

ao marido invisível

um agrado para ser gentil e feliz

insiste

pega latinha

como quem abraça o sonho

de ser atriz.

(Negrhúmus líricos, p. 29).

Nesse poema, a voz poética canta a certa vida incerta de uma mulher negra, entre a violência da estética feminina padrão que ataca o seu cabelo e seu corpo negros, e a violência social pela insegurança do trabalho informal; entre a solidão de uma mulher preterida como parceira, e a impossibilidade de escolher sua profissão. Isso é revelador da questão não resolvida com a "abolição", esse desnorteio da lei, que libertou os escravizados, sem, no entanto, trazer igualdade de direitos e inclusão social. Sobre isso, veja o poema abaixo:

Abolição

"liberdádiva"

ou dívida (não paga):

milhões de vidas

tragadas

pela ordem e progresso

azul, verde, amarelo

e branco corrosivamente branco?

(Negrhúmus líricos, p. 56)

Destacamos, ainda, um trecho do poema "Poetasias", que é bem crítico das matérias poéticas comuns aos negristas, que cantam − às vezes inocentemente, outras tantas, intencionalmente − nostalgias e pedidos de comiseração, porém, quando se traz pungentes questionamentos acerca da realidade racista, se enraivecem.

[...] mas se a cor reclamar cotas

irados vates

antes omissos

brancocêntricos convictos

irascíveis e estetas

vociferam

hipócritas maravilhas de um país mestiço

sempre em festa.

(Negrhúmus líricos, p. 44).

No poema "Olhar Raciscêntrico", a voz poética trabalha as obras de Debret e Rugendas em suas suavizações das imagens e o apagamento da violência original (a que tratamos no início desta resenha). Essas imagens não tratam da arte e cultura negras, muito menos dos indivíduos e sua humanidade. "[...] assim pintado o passado só tem lendas / pra você não pensar nem saber / decepada foi a perna / do saci pererê / fugido pelas sendas / sob as palhas de obaluaiê" (p. 73). O poema "Casarão paulistano" é um primor por ir além da noção "pedra e cal" que cultivam os entusiastas dos patrimônios históricos e artísticos. Estes são vistos como símbolos de um passado colonial idílico, da comunhão pacífica entre barões, baronesas, senhorios, sinhás e escravizados. Estes lugares de memória que são belos por fora, em sua compleição estilística à européia, carregam em sua estrutura, a dor e o sofrimento impingidos não só a seus antigos construtores, os escravizados daqueles idos, mas também àqueles que, hoje, são consequências diretas dessa beleza guardada em seus belos frontispícios. De modo geral, na segunda parte, intitulada "Húmus líricos", apresentam-se outros tipos de poemas em relação a seu conteúdo poético. Não é correto lê-los em diferença de subtração em relação à primeira parte; imaginando-se (e este é quase todo argumento dos conservadores) que o tema é algo a ser vencido para convencer, ao fazer um poema bem escrito. Dito isto, acreditamos que a qualidade poética, o traço sublime, o ritmo perfeito ("zelo / para manter os elos") têm outras pertenças, que não é a que tacha temas, e mesmo formas, muito menos são aquelas que não respeitam a humanidade do escritor e de sua escrita. É bem fácil perceber, no ambiente literário, uma certa dinâmica de exclusão − e neste momento não falamos apenas sobre a cor negra da pele − para o que especialistas tomam como nossas "militâncias"; a luta pela manutenção dos privilégios da branquitude, ou mesmo o silêncio das brancas-artes não são modos de militar? Igualmente, há, como em todo movimento dinâmico, modos de inclusão de temas e formas negras, suavizados, pasteurizados, e transformados em mercadorias, por Elvis Presleys e Eminems da literatura. Após esses parênteses entremeando a leitura da segunda parte do livro, é possível dizer que os poemas são mais intimistas, tratando da questão do ser. Mas isso não quer dizer que ele se exime de mostrar-se como é externamente. A voz poética parece preocupar-se com mostrar-se internamente, suas humanas inquirições, também nos modos de ver/modos de viver segundo a cultura e tradição negras.

Dessa forma, destacamos o poema "Horizonte do Ori" (p. 86) que trabalha, por meio de imagens da natureza, modos de percepção metaforizados dessa natureza, próprios do povo de Santo, estes inicialmente reconhecidos pelo vocábulo "Ori", que, para os iorubanos, quer dizer cabeça. Ou ainda, visto no poema seguinte, "Infindável" (p. 87), que trata dos conflitos de amor e sua resolução, entre a reverência a Elegbara e o "padê ternura" a Oxumaré. Ou, como no poema "Obediência" (p. 95), que canta a negação do outro ao relacionamento e a aceitação da voz poética: "disseste não / obedeci / cumprindo a lei do teu ori / [...] minha voz secou / no oriki / que não te fiz / / cufaste [mataste] / e eu era apenas aprendiz." Percebemos também que a voz poética canta o amor, a paixão, como em "Ritual da paixão" (p. 88); ou os embates do jogo amoroso, entre lascividade e pulsões, como em "Talho na madrugada" (p. 96-97), versa sobre o canto da poeta-musa que o trata como muso, em "Amorido" (p. 116). Há, ainda, nesta parte, uma série de poemas intitulados "Coitado-me 1" e vai até "Coitado-me 5" (p. 117-121). Nela, a voz poética canta: "o amor que não acaba / desaba" (p. 123). O desencontro gerado pela briga, a descoberta do desprezo dela, a desilusão amorosa, e o muro de mágoas erigido entre os amantes. "[...] relembro nossas brigas / o golpe / a minha queda // ainda não satisfeita / pontudas palavras lanças / contra a minha esperança / que vai se afogando cega // meu coração atingido / vai transformando este poço / em vulcão ativo // água se transforma em lava / lava em meu sangue vivo" (p. 120). A terça parte do livro, intitulada "Rhúmus" (p. 137-155), é a seção com menos poemas, com dezesseis ao todo. Vejamos o primeiro poema dessa parte, "Cena":

um beija-flor de dedos

seduz o pandeiro

ainda no casulo

a borboleta menina

sinuosiando a ladeira

cria coreografias

e logo abre asas

de porta-bandeira.

(Negrhúmus líricos, p. 137).

Nele, percebemos a encenação poética de um episódio, nas performances dos corpos, que, para nós, aponta para o que cremos ser um rumo da estética negra, a que trata das performances dos corpos: físico, como nesse poema, e da escrita. Esta, pode ser, de certa forma, lida no fragmento do poema metalinguístico, "Em se fazendo":

poema hermético

meu desespero te arromba

assim acerto em cheio

teu coração covarde

comendo ferrugem no escuro

resto de conchas mortas

linguagem defunta

de oculta estética

presunçosa e reta

poema hermético

te desfaço em água

teus versos esparsos

lanço no bueiro

sem nenhum perdão ao poeta.

(Negrhúmus líricos, p. 140).

Estas performances − mais verdadeiramente negras, porque é muito difícil serem copiadas ou cooptadas − são, para nós, os novos prumos da literatura negra contemporânea, que tem superado o discurso sobre o que deviam ser seus paradigmas (geralmente criados dentro de modelagens brancocidentais), não por uma ideia de evolução ou progressão, mas pela abertura para caminhos complementares: estéticos e políticos. Destarte, o mais recente trabalho de Cuti percorre essas sendas, sendo também um livro grande, com um total de 114 textos de belos e inteligentes arremates poéticos, e, por isso, um grande livro.

Belo Horizonte 20 de março de 2017

Referências BHABHA, Hommi K. O local da cultura. Tradução de Myriam Ávila, Eliana Lourenço de Lima Reis, Gláucia Renate Gonçalves. 2. ed. Belo Horizonte: UFMG, 2013.

SILVA, Luiz. (CUTI). Negrhúmus líricos. São Paulo: Ciclo Contínuo Editorial, 2017.

XAVIER, Arnaldo. Dha lamba à qvizila – a busca de hvma expressão literária negra. In: ALVES, Miriam; CUTI, Luiz Silva; XAVIER, Arnaldo (Org.). Criação crioula, nu elefante branco. São Paulo: Secretaria do Estado da Cultura / Imprensa Oficial, 1986