Uma leitura de Luz & Breu | Matheus Gato

 

Ilustração | Bruno Gabiru

Uma leitura de Luz & Breu | Matheus Gato*

(texto publicado na orelha da antologia Luz & Breu)

A leitura desta obra implica não esperar alguma solução de palavras como “negro” e “preto”, que insistentemente se repetem nestes versos. Oswaldo de Camargo nos mostra o breu. O escuro mais escuro, quarto fechado sem frestas, onde o corpo se dissolve no espaço ao compartilhar, com as coisas e os objetos, a única cor que ali se permite aos olhos. “Sou a luta entre o ser nada e o ser demais”, disse o poeta ainda jovem. Nossa imagem e semelhança se refletem no único espelho que temos à mão: aquele que foi quebrado. A negritude e sua estética não constituem, nessa perspectiva, nenhum porto seguro para o ser:

Recolho o pensamento, me debruço

nessa contemplação, assim me largo,

e preso ao ser que sou, soluço e babo

na terra preta de meu corpo amargo.

Porém na hora exata cantarei…

Eu venho vindo, ainda não cheguei…

A violência calou fundo na história e fez de termos como “negro” e “preto” o registro de uma experiência marcada pelo descompasso entre o corpo, o tempo e o espaço. Problema particularmente expresso na enorme relevância do tema do “atraso” nesses poemas, da estrada pela qual se vem e não se chega nunca, da sensação de estar no lugar errado, no rumo certeiro de uma bala perdida, do desejo irrealizado de quem parece sempre perder as horas:

De manhã quis ver o sol

cuspir moedas, já cedo,

forjadas com luz bem clara.

Preto saiu da neblina,

olhou o dia: – que nada!

Chegou tarde!?

Esse tempo da raça, da subordinação, atrasado para a luz do dia, desencontrado da realização pessoal e coletiva, marca o ritmo da narrativa oficial da história brasileira. No poema Em maio, um dos mais conhecidos do autor, apresenta-se o hiato entre a apresentação grandiloquente e salvacionista da Abolição nas propagandas e cerimônias do Estado e a liberdade precária da gente negra nos campos, subúrbios e favelas do país:

A Liberdade que sei é uma menina sem jeito,

vem montada no ombro dos moleques

ou se esconde

no peito em fogo dos que jamais irão

à praça.

Esses homens e mulheres estranhos, mal identificados com o mundo público, transformam seus parcos recursos na fonte de um outro tempo. Os poemas que evocam a vida dos pretos do campo paulista na primeira metade do século XX, como Festa do Juvenal, Ao pé do fogo, À Senhora Aparecida, nos falam da construção de espaços alternativos (a festa, a roda, a fogueira) que permitem a audácia de uma memória própria, a ousadia de pretender, em meio ao absurdo de nossa indigência, algum sentido para a história. Entre as coisas mais bonitas que o leitor encontrará por aqui está a representação da África como futuro:

Ainda vamos embora, vamos embora,

viver na terra do Congo!

O autor converte o espaço originário da captura e da escravidão numa forma de esperança. África é o nome do amanhã. Talvez um dia no espelho cristalino dos relógios do mundo o rosto do negro estará por inteiro.

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Matheus Gato

Doutor em sociologia pela Universidade de São Paulo. Desenvolve pesquisas sobre intelectuais negros, literatura, racismo e o pós-abolição no Brasil.

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