Meu sonho é escrever: um brinde à Carolina como escritora – Fernanda Sousa

Meu sonho é escrever: um brinde à Carolina como escritora

Fernanda Sousa*

Cada vez mais conhecida pelo público brasileiro nos últimos anos, em especial pelo seu livro de maior sucesso, Quarto de Despejo: diário de uma favelada, publicado em 1960, Carolina Maria de Jesus tem despontado como uma das referências negras mais proeminentes e inspiradoras no cenário cultural e literário nacional, sobretudo no seio de movimentos, estudos e iniciativas tocadas por homens e mulheres negras. Nascida no dia 14 de março de 1914, na cidade de Sacramento, no interior de Minas Gerais, a trajetória de Carolina é marcada por inúmeras dificuldades materiais e experiências de racismo, comuns à população negra no contexto pós-abolição e ainda hoje.

No entanto, de modo insólito aos olhos e às expectativas da sociedade brasileira em relação aos indivíduos negrosi, Carolina consegue se fazer e se tornar escritora, tornando-se um fenômeno nacional e internacional com a publicação de Quarto de despejo, tendo sua imagem divulgada e espetacularizada como a “favelada” que escrevia. Foi com essa expressão que sua principal obra veio a público e que continua sendo bastante empregada para se referir a ela, subsumindo suas complexas facetas artísticas a um termo com o qual ela nunca se identificou, uma vez que Carolina se via, acima de tudo, como “poetisa”ii. Admirada, de um lado, pela sua trajetória inspiradora, que nos deixa curiosos e desejosos de saber mais sobre sua vida e, de outro, reduzida a uma espécie de olhar exotificante, que sublinha sua origem social e sua identidade racial como diferença absoluta, seu trabalho literário é, muitas vezes, obscurecido, e perdemos de vista a escritora Carolina, isto é, deixamos de efetivamente mergulhar nos seus textos e de conhecê-la a partir do que ela criou, reinventou e formalizou em seus tantos cadernos, onde costumava escrever.

É por esta e tantas outras razões que o lançamento do livro Meu sonho é escrever – Contos inéditos e outros escritosiii, pela Ciclo Contínuo Editorial, merece ser saudado como um acontecimento que confere a Carolina, mais do que nunca, o lugar de escritora, principalmente pelo trabalho cuidadoso de organização, preparação e revisão dos textos. Fruto de uma extensa pesquisa de Raffaella Fernandeziv, organizadora da obra, Meu sonho é escrever reúne contos inéditos e outros escritos da autora, reveladores da criatividade, do senso crítico e da inteligência de uma figura que manejava a linguagem em toda sua potência, borrando as fronteiras entre os gêneros literários e tendo a experiência como ponto de partida para a criação literária. Esta, por sua vez, se faz presente nessa obra de um modo tão fascinante e complexo que torna difícil pensar sua escrita como resultado de mera espontaneidade, ou seja, como se Carolina escrevesse impulsivamente, sem planejar e depurar seus textos. Não à toa, saltam aos olhos as inúmeras figuras de linguagem, o vasto vocabulário, os enredos e desenredos tecidos por por ela nos que textos que compõem esse livro, dando forma literária a um emaranhado de ações, memórias, experiências, sonhos, discursos, fatos e personagens, sejam reais ou não.

O livro apresenta uma Carolina com sua conhecida verve crítica, ainda tão atual, ao dizer que “é horrível conviver com o homem da atualidade, que está se desumanizando. É impiedoso e, quando se finge protetor de alguém, é visando interesse próprio”, mas que convive, de modo ambivalente, com sua fé e esperança no ser humano como alguém que tem o dever de “polir o caráter”, afirmando que “a maior superioridade nesse mundo é ser amável e proporcionar uns momentos de alegria aos nossos semelhantes”. Esses dizeres que, num primeiro momento, podem parecer ingênuos, são acompanhados por uma Carolina que pensa nos problemas do país e propõe soluções que vão desde reformas no campo e na cidade à defesa de trabalho e salário dignos, em um país que, segundo ela, “ainda está engatinhando, deitado eternamente em berço esplêndido”, liderado por homens que deixam muito a desejar. Por isso, ela afirma: “Se as mulheres governassem não fariam um governo abstrato. O nosso governo seria concreto porque o mundo governado pelos homens está decepcionando”.

Destacam-se também as memórias e as experiências da escritora, reconstruídas com contornos ficcionais de modo extremamente sensível e poético, nos aproximando, por exemplo, de sua infância, de sua primeira experiência de leitura, do início da sua paixão pelos livros, de sua autodescoberta como “poetisa”, de seu avô, conhecido como Sócrates africano, de suas tias, tios e primos, em textos que acionam nossa memória afetiva e nos permitem lembrar de tantas outras histórias familiares parecidas com as quais ela conta, principalmente quando se trata de famílias negras. Nesse aspecto, “Minha madrinha”, “Tia Geronima” e “Sócrates africano” são textos que se sobressaem no que diz respeito a uma dimensão memorialista, pois neles desfilam lembranças sinestésicas da escritora em torno de acontecimentos que, ao olhar de muitos, podem parecer simples e destituídos de importância, mas para ela transbordam de significados: a primeira vez que comeu banana frita com canela e sardinha com pão; o primeiro vestido que ganhara de presente; a madrinha que trançava e penteava seus cabelos e de quem pedia “bença” constantemente; o avô que, no leito de morte e no alto de seu caráter ilibado, pediu para os filhos pagarem uma dívida que tinha; a tia que só tinha uma panela e, por isso, despertava as três horas da madrugada para começar a preparar a comida. Estes são alguns de tantos outros eventos e experiências que a escritora reconstitui a partir de uma dicção que conjuga o olhar dela como criança com o seu olhar de uma mulher mais velha, promovendo um encontro de temporalidades que figura como um espelho no qual podemos enxergar também vivências e memórias de nossos pais, mães, avós, avôs, bisavós, bisavôs, tias e tios.

Em relação aos contos, “Onde estás, Felicidade?” aparece como um exemplo emblemático da inventividade de Carolina como escritora ao conceber uma história que não deixa a desejar em termos de caracterização de tempo, lugar, espaço e personagem, nos brindando com um bonito, profundamente humano e, ao mesmo tempo, dramático, (des)encontro amoroso, cujo desfecho nos emociona de um modo visceralmente ligado à ambiguidade do título do conto e que nos permite aproximá-lo ao famoso conto “Sôroco, sua mãe, sua filha”, de João Guimarães Rosa, ao tematizar questões como perda, abandono, solidão e loucura. Vale a pena citar o início, em que Carolina descreve graciosamente os personagens principais:

Não existe neste mundo quem não acalenta um sonho intimamente. Quem não aspire possuir algo que lhe proporcione uma existência isenta de sacrifícios. E o José dos Anjos era mesmo angelical nos modos de falar e tratar o próximo. Era piedoso. Antes de tomar uma resolução refletia profundamente. Um dia, ele viu a Maria da Felicidade e ficou cativo dos seus encantos. Ela era esbelta, com uns olhos negros e ovais, os cílios longos e arqueados, a boca pequena e os dentes níveos e retos. Foi na festa de Santo Antônio que eles dançaram ao redor da fogueira. Ela era a mais graciosa aos olhos de Jose dós Anjos.

Este é apenas um excerto dos tantos contos e outros escritos que compõe Meu sonho é escrever, um convite a uma experiência de leitura que nos permite conhecer as diferentes facetas e talentos de Carolina Maria de Jesus como escritora. Ela, com seu repertório imenso de leituras, suas visões de mundo e suas experiências, nos provoca, nos faz refletir, nos faz rir – há uma parte no livro chamada “Humorismos”, em que Carolina faz graça e nos desperta boas risadas –, nos faz chorar e, acima de tudo, nos torna mais humanos ao abordar e representar, em tantos momentos, as nossas limitações e fragilidades, mas sem deixar de acreditar no ideal como “combustível do corpo humano que impulsiona o nosso espírito a lutar”. Carolina, nos mais de quarenta textos e excertos que fazem parte do livro, se revela como uma hábil escritora, que aborda diferentes temas e vai muito além de uma “favelada” que escreveu sobre a favela ao fazer da literatura uma “nova possibilidade de existir” já que, com o fim da escravidão, “o negro passou de um modo de vida a outro, mas não de uma vida a outra”, como afirma Frantz Fanonv. Carolina, com seu sonho e ideal de ser escritora, realizado nas tantas histórias presentes em Meu sonho é escrever, nos ajuda a seguir sonhando com outra vida, mesmo quando “não há coisa pior na vida do que a própria vida”.vi

i Ver mais em: SILVA, Mário Augusto Medeiros. A descoberta do insólito: literatura negra e literatura periférica no Brasil (1960-2000). Rio de Janeiro: Aeroplano, 2013.

ii Ver mais em: MIRANDA, Fernanda Rodrigues de. Os caminhos literários de Carolina Maria de Jesus: experiência marginal e construção estética. São Paulo, 2013. Dissertação de Mestrado – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo.

iii JESUS, Carolina Maria de. Meu sonho é escrever – Contos inéditos e outros escritos. São Paulo: Ciclo Contínuo Editorial, 2018.

iv Ver mais em: FERNANDEZ, Raffaella A. Processo criativo nos manuscritos do espólio literário de Carolina Maria de Jesus. Campinas, 2015. Tese (Doutorado em Teoria e História Literária) – Universidade Estadual de Campinas.

v FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: UFBA, 2008.

vi JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. 8ª ed. São Paulo: Ática, 2004.

Disponível na PRÉ-VENDA: https://goo.gl/To6EcZ

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Fernanda Sousa é professora, revisora, bacharela em Letras e mestranda em Teoria Literária e Literatura Comparada na Universidade de São Paulo, onde desenvolve uma pesquisa comparativa em torno dos diários de Lima Barreto e de Carolina Maria de Jesus a partir da noção de negro drama.

 

 

A escritora Heloisa Pires Lima recomenda o livro “No reino da Carapinha”, de Fausto Antonio

 

 

No Reino da Carapinha – uma apresentação

Heloisa Pires Lima

A sociedade brasileira demorou um tanto para integrar personagens negros nas bibliotecas dirigidas ao jovem leitor. Esta ausência ou presença auxilia na percepção positiva ou negativa acerca da origem africana e suas descendências ao longo de nossas histórias. Afinal, o modelo de humanidade que habita a ficção é um mediador para como a realidade é percebida. Nesta perspectiva, o livro No Reino da Carapinha assinado por Fausto Antônio oferece elementos de muita qualidade para o Imaginário dessa faixa etária em formação. O humor será uma estratégia a desafiar curiosos irrequietos. Também as imagens poéticas cativam. Mas, a qualidade singular do projeto está na arquitetura que alude outro clássico, o reino das águas claras de M. Lobato. Porém, da interlocução muito bem realizada, resulta o alto valor das carapinhas. Como um o da navalha, preciso no corte de nada aquém e nada além, Fausto Antônio inverte a posição desprestigiada dos personagens negros, tão marcada nas obras do escritor consagrado. Desta vez, o reino, ou aldeia ou república vai deixando pistas que referem figuras ou acontecimentos históricos relacionados à população negra. Esta passagem entre informar, aludir e encaixar a referência na fluidez do texto têm, da mesma forma, muito acerto. Sobretudo, por não recair no didatismo que interrompe a fantasia. Trata-se de uma aventura bem estruturada e dimensionada em aspectos filosóficos, linguísticos, históricos. Porém, com a singeleza e a alegria de um texto delicioso. Fisgado pela trama o leitor irá conhecer o nome do personagem só quando ele entrar na história. E se divertirá com a hábil sonoridade executado na pena do tin tin por tin tin.

E nada mais atual do que o assunto das carapinhas. Tema representativo da inversão cultural necessária à eliminação de racismos naturalizados é quando o ponto de virada da vulnerabilidade empodera o sentimento de pertencimento. Há uma demanda alta por materiais de apoio à questão. E como é importante a garantia de escritore(a)s negros estarem nas estantes para serem descobertos para uma leitura. As tão negras carapinhas vão revelando um ponto de vista existencial e original nessa autoria. A cartografia a dos nomes e fatos que aparecem no enredo poderá ser reconhecida pela comunidade negra ou por quem a conhece muito bem. Por isso, este autor se torna um memorialista que refaz o elo entre gerações. Talvez, a obra tenha nascido pressupondo um momento de narrar, de ler para os mais novos abrindo conversas sobre as passagens citadas. Todavia, isto não é imprescindível para quem adentrar nesse reino tão especial. A obra poderá ser lida e relida muitas vezes e por toda a vida, pois já nasce clássica. Portanto, recomendo, vivamente, a sua leitura.

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Heloisa Pires Lima é antropóloga, autora de inúmeros títulos para crianças e adolescentes, dentre outros, Histórias da Preta Cia das Letrinhas, 1998) e Capulana, o pano estampado de histórias (Scipione, 2015).

Foto | Nabor Jr.

Histórias de Tio Alípio e Kauê – O beabá do Berimbau – por Oswaldo Faustino

Jogo? Luta? Dança? Três artes numa só… a capoeira é, sem dúvida, uma parte fundamental da grande mancha negra, na brancura eurocêntrica que muitos imaginam ser a cultura brasileira.

E, apesar de algumas invencionices, como “mestres” que “modernizam” suas aulas ao som de CD player ou MP3, exempli cando os movimentos com DVD e imagens do Youtube, via internet; os fundamentos da capoeira ainda são transmitidos pela tradição ancestral da oralidade. Seus sons e ritmos ainda se originam de instrumentos rústicos – berimbaus, atabaques, pandeiros, agogôs e outros que possam dar mais vida às cantorias – produzidos pelas mãos calejadas de velhos artesãos.

Aí, me caem às mãos os originais de um livro, em processo de elaboração, assinado pelo jovem Marcio Folha, autor de outros trabalhos em HQ (história em quadrinhos) e que objetiva despertar a paixão de crianças e adolescentes – e por que não também nos adultos? – por um instrumento imprescindível à capoeira, que é o berimbau.

Logo nas primeiras linhas, o autor me pega pela sensibilidade, pela riqueza de uma viagem à imaterialidade: “O som abaloado do berimbau fala com espíritos encantados. Nos envolve como crianças nos braços da mãe…” Ouví-lo é sentir sua voz entrar na carne, cavucando e garimpando sentimentos profundos, fervendo o sangue. A alma vibra e o corpo treme. Fruto da diáspora, me embalo ao som do berimbau, envolvido e acolhido pelos braços e coração negros de Mama África.

Me vejo em Tio Alípio e em Kauê, perpetuadores da tradição oral: um conta o que ouviu e o outro escuta, sente, pensa, reelabora e reconta. De geração a geração. Não me canso de repetir a frase fundamental da cultura africana Dogom: “Trago dentro de mim toda a minha ancestralidade e a minha descendência”. Ora, é justamente a oralidade que mantém esse elo. O mestre conta e o discípulo (tornado mestre) reconta.

Marcio Folha escolheu uma forma juvenil para recontar. Sempre reverenciando o próprio mestre, ele deixa claro que essas história não são invencionices dele. Foram ouvidas e reouvidas por séculos, até chegar a sua vez de contar. E esse contador de histórias escolheu o HQ para chegar aos corações e às mentes de outros jovens e ali plantar o amor à capoeira, através do amor ao berimbau.

E é lindo, ver que a primeira imagem é inspirada na lenda da mulher que se transformou na árvore cujos galhos servirão de matéria-prima aos instrumentos que acompanharão as rodas de capoeira. Mulher-mãe, de voz canora e ecoante, sensibilizando com som e ritmo cada um dos futuros amantes dessa dança-jogo-luta.

Outras histórias e lendas des lam por esta centena de páginas, como se fossem um enredo magistral, desses que, se não vencem carnavais por incompreensão dos jurados, conquistam o grande público e anos a o são relembrados e cantados. O panteão afro-brasileiro desfila majestoso e é muito bom vê-lo, finalnalmente, chegando livre às mãos de crianças e adolescentes de nossas escolas.

Se Luana, personagem principal dos livros infantis que escrevi com Aroldo Macedo, vive num remanescente de Quilombo, os de Marcio Folha vivem num Quilombo contemporâneo na periferia paulistana, na Cohab de Cidade Tiradentes. Kauê é um garoto de vida urbana e está aprendendo com Tio Alípio a sua própria história de luta, de dança, de jogo, que o levará a se comunicar com os encantados, com a próprias ancestralidade e mesmo com sua descendência.

A linguagem textual é a da periferia, mas precisa chegar a cada casa e mente de qualquer bairro, de qualquer cidade, de qualquer estado ou província de qualquer país do mundo. O som deste berimbau vai ecoar em cada coração, cujos olhos percorrerem estas páginas.

Ilustrações simples e ao mesmo tempo detalhadas fazem dessa obra um HQ cativante e desperta a vontade de reproduzir os sons do berimbau; “Tim Tom Tom – Tom Tiiiim”, inter- meados pelo som do caxixi “Tchi Tchi … Tchi Tchi”. Banhado por estas onomatopéias, o corpo, instintivamente, quer gingar e a alma nos faz mergulhar na lenda que ocorre no Leste da África, que coincidentemente (ou não) é recontada na extremidade da região Leste da cidade de São Paulo.

Marcio Folha escreve, desenha, produz a obra completa, sem nunca deixar de consultar seu mestre. Uma necessidade de quem acredita ser fundamental não fugir da tradição, respeitar a hierarquia. É admirável, num tempo em que a palavra respeito não frequenta um vocabulário de uma parte significativa da nossa juventude.

Nesta obra ele viaja ao Continente Africano, há alguns séculos, e generosamente nos leva de carona para vermos nossos antepassados viverem livres e jogando-dançando-lutando o que seriam as origens da capoeira de hoje, que não os impediu de serem escravizados.

Porém, a tradição oral garantiu a sobrevivência desses fundamentos e, com eles, esses guerreiros, artistas e jogadores puderam trazer até os dias de hoje a luta pela resistência cultural, a dança que lhes embala a alma negra e o jogo da própria vivência, que os tem transformado, cada dia mais, em quilombolas do presente e do futuro.

A generosidade de Tio Alípio se confunde com a generosidade do próprio autor que nos toma pela mão e nos leva nesse mergulho na história de povos negros. Isso, na certeza de que baianos, ou não, tocamos e sempre tocaremos o berimbau, não “porque só tem uma corda” – como afirmou o insensível e revoltado coordenador do curso de Medicina da Universidade Federal da Bahia –, mas porque esta corda reata nossa existência tanto com nossa ancestralidade quanto com nossa descendência.

Folha sabe que nada melhor do que uma boa história, requinte de aventura, para cativar os jovens. Por isso, seu HQ, utiliza uma narrativa ao melhor estilo das Grafic Novels. Uma linguagem universal. E, com ele, vamos ver a capoeira perseguida, capoeiristas reprimidos, terreiros depredados e, em meio a tudo isso, a resistência cultural da semente dessa arte que já está no mundo todo. Ao lado do samba, ela é a cara, a voz e os movimentos do Brasil.

E ele não esquece de homenagear os grandes nomes tanto da luta-jogo-dança quanto da produção de berimbaus, como Tio Alípio, Espinho Remoso, Neco Canário Pardo, Tonha, Maria Pau Virou, Besouro Preto, Traíra, Pedro Mineiro, Noronha, Leó, Bobó, Samuel Querido de Deus, Benedito, Pastinha, Cobrinha Verde, Bimba, Caiçara, Tonho de Maré, Paulo dos Anjos, Limão, Bom Cabrito, Gato Preto e tantos que honraram o título de mestre.

Prepare seus olhos, ouvidos e, principalmente, seu coração e sua mente. Deixe esta semente cair nesse terreno fértil e nele florescerá a capoeira. Aí, nunca mais nada nem ninguém, seja pessoa, fato ou circunstância será capaz de arrancá-la de dentro de você. Só me resta, humildemente, fazer o que meu coração pede nesse momento e meus lábios anseiam dizer: “Muito obrigado, Marcio Folha!”

Histórias de Tio Alípio e Kauê – O beabá do Berimbau

Marcio Folha

Ciclo Contínuo Editorial

2a edição | 2018

152 páginas

Textos anexos (mediação de leitura): 

Elis Regina Feitosa do Vale (org); Vanísio Luiz da Silva; Leila Maria de Oliveira; Deivison Nkosi

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Oswaldo Faustino é jornalista e escritor. É autor da biografia do compositor, pesquisador e escritor carioca Nei Lopes (Ed. Summus), A Legião Negra (Ed. Summus), A luz de Luiz (Córrego) e, em parceira com Aroldo Macedo, A Cor do Sucesso (Ed. Gente), Luana a Menina que Viu o Brasil Nenem (FTD), Luana e as Sementes de Zumbi (FTD) e Luana Capoeira e Liberdade (FTD), entre outros livros.

MOSTRA DE LITERATURA NEGRA – CICLO CONTÍNUO | 16, 17 e 18 DE MARÇO

A Ciclo Contínuo Editorial realizará a Mostra de Literatura Negra em São Paulo entre os dias 16 e 18 de março. O evento contará com uma homenagem à Francisco Paula Brito, editor, jornalista e escritor brasileiro nascido e falecido no Rio de Janeiro, onde viveu de 1809 a 1861. Tido como o primeiro editor brasileiro e primeiro empresário negro de que temos notícia, sua tipografia e livraria, na qual Machado de Assis trabalhou, foi ponto de encontro dos principais intelectuais da época. Foi descobridor de vários talentos, entre eles o próprio Machado, Teixeira e Souza e etc. Paula Brito fundou cinco jornais, entre eles, ‘O Homem de Cor’ (1833), alterado posteriormente para ‘O Mulato ou O Homem de Cor’ (na Tipografia Fluminense de Brito & Cia), periódico que alcançou 80 números em 3 anos, dedicado a luta contra o preconceito de raça. Na literatura se destacou como poeta, tradutor e contista.

Durante os três dias ocorrerão mesas de debate e oficinas com destacada(o)s pesquisadora(e)s e escritora(e)s ligada(o)s à Literatura Negro Brasileira, que abordarão as múltiplas formas de expressão desta vertente que se firma na Literatura Brasileira. 
No corredor da Centro Cultural Olido será montado a feira de livros com as principais editoras Negras brasileiras. Em breve divulgaremos a lista das editoras confirmadas.Curadoria: Marciano Ventura
Equipe Produção: 
Leonardo Bento
Luciana Barrozo
Clodoaldo Paiva
Silvio Shina
Romulo dos Santos
Comunicação: Alma Preta

PROGRAMAÇÃO

SEXTA – FEIRA
16h – Abertura da Feira de Livros – Corredor da Galeria Olido
19h – Conferência – O Editor Paula Brito: uma história de resistência para novas gerações, com Oswaldo de Camargo
21h – Entrega do prêmio Concurso Nacional de Contos Ciclo Contínuo.

SÁBADO
10h – Mesa: A escritura e a poética Negra na Literatura Brasileira
Debatedor: Prof. Dr. Luis Silva (Cuti) (SP)
Debatedora: Profa. Dra. Lívia Natália (BA)
Mediadora: Luciana Barrozo

13h30 – Clube Negrita de Leitura convida: Texto e Imagem – uma conversa sobre ilustração, design e literatura.
Debatedores: Edson Ikê, Junião, Silvana Martins, Mediadora: Brunata Mires – Clube Negrita de Leitura

16h – Dimensões didáticas da Literatura Negra para a infância e juventude
Debatedora: Prof. Dra. Heloisa Pires Lima (SP)
Debatedor: Prof. Dr. Fausto Antonio (BA)
Mediador: Leonardo Bento

18h15 – Lançamento do livros:
AS FÉRIAS FANTÁSTICAS DE LILI – LÍVIA NATÁLIA
NO REINO DA CARAPINHA – FAUSTO ANTONIO
O BEABÁ DO BERIMBAU – MARCIO FOLHA (reedição)

19h – Apresentação musical: PELAMÔ, COM AKINS KINTÊ 

DOMINGO
10h – Oficina: Família leitora – mediação de leitura para formação de leitores, com: Leonardo Bento e Luciana Barrozo

13h30 – Leitura do Portfólio fotográfico “Fundo de Garrafa” de Antonio Terra (RJ); Workshop com o fotógrafo

16h – Carolina Maria de Jesus, desatando alguns nós!
Debatedora: Doutoranda Fernanda de Miranda 
Debatedora: Prof. Dra. Raffaella Fernandez
Mediador: Marciano Ventura

18h – Lançamento do livro 
MEU SONHO É ESCREVER… – CAROLINA MARIA DE JESUS

19h – Encerramento 
RENATO GAMA E AS PASTORAS DO ROSÁRIO CANTAM CAROLINA!

Essa atividade conta com o patrocínio do Programa Vai/SMC. Parceria e apoio: Centro Cultural Olido/Secretaria Municipal de Cultura – São Paulo | Alma Preta | Sá Menina | Clube Negrita de Leitura/Malokearô
 

40 ANOS DE CADERNOS NEGROS – NOSSOS PASSOS VÊM DE LONGE | MARIO AUGUSTO MEDEIROS DA SILVA

 

Não é coisa de PretoMário Augusto Medeiros da Silva*

No dia 16/11, a convite de Lívia Lima da Silva, estive com Miriam Alves e Cuti Silva no Sesc Belenzinho para a atividade sobre os 40 anos dos 
Cadernos Negros, intitulada "Nossos passos vêm de longe". Foi um batepapo que me deixou mais rico. Para mediar a conversa com o público, para os 40 anos dos Cadernos e também para este Dia da Consciência Negra produzi o texto abaixo, uma pequena contribuição, que compartilho com quem se interessar.

Não é coisa de pretos sair do seu lugar. Desejar e concretizar ser escritor, escritora; ter livros publicados, lidos e estudados no Brasil e no exterior. Não é coisa de pretos ser membros fundadores de uma série coletiva, com 40 anos de existência ou de um grupo de escritores com 37 anos de história, publicando anual e alternadamente contos e poemas nos Cadernos Negros sob a responsabilidade do Quilombhoje.

Não, não é coisa de preto também esta coisa de projeto coletivo de longo prazo. Tampouco que pretos se unam em nome da Literatura, de uma literatura negra, negro-brasileira, afro-brasileira. Que eles procurem outros irmãos e irmãs, malungos, escritores companheiros de viagem. Que saibam ler e escrever muito bem, a ponto de poder usar a língua como bem queiram, subvertê-la para dizer o que quiserem e em especial o que não lhes era dito, onde não lhes era permitido figurar como personagens e autores, como heróis, protagonistas, trágicos, cômicos, complexos eu líricos, primeiras pessoas negras. Subvertendo o código social, combatendo o racismo literário. Pretos que saem do seu lugar e que procuram outros iguais. Que procurem e achem. Cuti e Hugo Ferreira para fundar os Cadernos. Que se encontrem primeiro com Oswaldo de Camargo, Mário Jorge Lescano, Abelardo Rodrigues, Paulo Colina; e depois com Esmeralda Ribeiro, Márcio Barbosa, Sônia Fátima, Jamu Minka, Oubi Kibuko, Miriam Alves, Abílio Ferreira para iniciar e prosseguir com o Quilombhoje.

Pretos que saibam histórias e queiram registrar as narrativas de outros pretos, de outros tempos que também fizeram coisas que não eram coisas de pretos, como Luiz Gama, Lino Guedes, Eduardo de Oliveira, Oswaldo de Camargo, José Correia Leite, Carolina de Jesus. Pretos prefaciadores como entre outros José Correia Leite, Clóvis Moura, Thereza Santos, Lélia González, Vera Lúcia Benedito. Que saibam trabalhar com história oral e registrem as muitas vidas de Velhos Militantes, como José Correia Leite. Pretos que fotografam e desenham e sabem fazer capas belíssimas para os seus próprios livros. Lindas, como este símbolo dos Cadernos, os três rostos ou máscaras negras irmanados pelo livro, desde o volume 5. Pretos que comentam seus próprios textos. Que organizam encontros de Poetas e Ficcionistas Negros em Reflexões sobre a literatura afro-brasileira e Criação Crioula, Cadernos comemorativos com seus Melhores Contos e Melhores Poemas. Cadernos comemorativos pelos seus 30 anos. Que tenham seus nomes figurados em antologias cheias de Axé, Negros Escritos, Razão da Chama, Callaloos. Que tenham contos inscritos junto de outros escritores não negros entre os Melhores do Século XX. Que sejam parte grande uma Antologia monumental sobre Literatura e Afro-Descendência no Brasil iniciada no século XVII até o nosso século XXI.

É uma longa estrada povoada de pretos que não sabem seu lugar e fazem coisas que não são coisas de pretos no Brasil. É o que se diz por aí. Coisas impossíveis e inviáveis para o racismo à brasileira, que mesmo quando televisivo e filmado insiste em dizer que não existe e que não foi bem assim, vejam bem. Vejam bem que esse racismo não existe, assim como não existem pretos que escrevem. São todos escritores, menos na hora de publicar junto, de figurar nas editoras nacionais. Aí, vejam bem, é necessário discutir a qualidade porque, ora, é coisa de preto, então… E esses pretos escritores, essas autoras negras, esses criadores insubmissos dão às costas ao vejam bem, pondo as mãos nos próprios bolsos há mais de quarenta anos e financiam a sua própria existência no meio literário. Fazem projetos de Livro do Autor. Publicam-se. Insistem-se. Há 40 anos. E contando

E daí surgem os Poemas da Carapinha, os Momentos de Busca, as Estrelas no Dedo, as Quizilas, Dois Nós na Noite, Pretumel, Brasil Afro Revelado… e tanto mais. Puxa, pretos que escrevem e publicam existem. Mas não é coisa de preto.

Não é coisa de preto persistir contra o racismo brasileiro e a cegueira editorial? Enfrentar, resistir, criar, imaginar, encantar gerações de leitores negros e negras. Lançar anualmente novos poetas e contistas. Abrir espaços para os textos que um dia foram inéditos de Conceição Evaristo, Arnaldo Xavier, Cristiane Sobral, Allan da Rosa, Elizandra Souza, Sacolinha, Akins Kintê. E muitos outros pretos que um dia andaram, voltam trilhar, caminham sempre juntos numa longa estrada negra de personagens e autores pretos, cujos passos fora de lugar vêm de longe, de diferentes mundos negros, que não sabem qual é o seu lugar, porque ele está em toda parte que a imaginação preta quiser e somente esta vontade preta, individual e coletiva, permitir.

Vida longa aos Cadernos Negros.

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*Mário Augusto Medeiros da Silva é doutor em Sociologia e professor do Departamento de Sociologia do IFCH-Unicamp. Autor de A descoberta do insólito – Literatura negra e literatura periférica (1960-2000).